8 capas mineiras e seus designers

Thiago Menini, Lucas Portilho e Luciana Rodrigues

Um prisma num fundo preto. Quatro rapazes perfilados juntamente a poetas, atores dramaturgos, músicos e gurus. Cabeças maquiadas oferecidas em bandejas num banquete. Pink Floyd, Beatles, Secos e Molhados. Quanto do sucesso do Iron Maiden vem da imagem do Eddie? Exemplos aleatórios que vieram à cabeça. Imagens que se confundem com a história dessas bandas e, por que não, com a própria história da música; sobretudo numa época em que a distribuição musical feita em vinil era predominante e havia um espaço gráfico mais amplo para artistas nadarem de braçada nas simbologias de cada território sonoro.

A trajetória da cultura pop, por exemplo, se misturou a essa história das capas dos discos. O Nexo Jornal lembrou recentemente, por exemplo, de Peter Saville, designer da icônica capa do Unknown Pleasures do Joy Division, de 1979. O vídeo produzido pela equipe do Nexo aponta para o fato de que a construção imagética na música pop influenciou as bases da cultura gráfica nas últimas décadas.

Buscando conhecer histórias de projetos gráficos que estampam materiais sonoros produzidos pelas Minas Gerais, conversamos com os designers responsáveis por 8 capas de álbuns autorais de Juiz de Fora. Vamos à lista!

1- Coração & Tripas, 2014 (Martiataka)

Com elementos mais nostálgicos, causando até um certo saudosismo ao primeiro olhar, a capa do álbum Coração & Tripas, do Martiataka tem um ar bucólico, condizente com a ideia de um “monumento ao country gótico”. À primeira vista, tem-se a sensação de que se está encarando uma foto antiga, daquelas do tempo dos avós, presa em uma parede para lembrar de dias extremamente felizes que eles viveram. Todos os elementos envolvidos se relacionam com esse feeling: a foto envelhecida, a tipografia e a escolha de uma moldura retrô para retratar o encontro dos atuais e ex-integrantes da banda.

A capa é de autoria do designer e tecladista do grupo, Ruy Alhadas. “Por se tratar de um disco acústico, eu já tinha ideia de cores, tipografia e texturas, mas como se tratava de um ‘acústico não convencional’, foi importante entender o que faríamos, daí veio a ideia da foto antiga, a pegada retrô da arte”, explica.

Uma curiosidade sobre o trabalho desenvolvido pelo designer é que o membro fundador da banda, Fabrício, não pôde comparecer ao ensaio para fotografar junto com a “família” Martiataka. Decidiram então fazê-lo presente através de uma foto, empunhada pelo guitarrista, Bruno, que o substituiu. No mais, referências das capas antigas da banda também foram incluídas no cenário, tudo para que o resultado final funcionasse como uma ode à trajetória do grupo e à ideia de uma grande família.

Ficha técnica: Del Guiducci (voz), Thiago Salomão (Baixo), Victor Fonseca (bateria), Ruy Alhadas (teclados), JP Ferreira (violões), Fabrício Barreto (violões, gaita e lapsteel), Vinicius Faza (violino), Renata Brandão e Lívia Kodato (vocais de apoio), New Calegari (cello), João Cordeiro (tímpano), Christian Marini e Daniel Manga (percussão), Cleber Souza (trombone), Francis de Moura (trompete) e Wendel Henriques (sax e flauta).

2- La Macchina, 2016 (La Macchina)

A capa do CD homônimo de estreia da La Macchina é bem direcionada ao estilo da banda: o blues. Remete ao retrô/vintage, com formas angulares e uma tipografia bem caricata dos anos 1950, buscando as referências de base do grupo. É uma arte mais clean, com poucas informações e que vai direto ao ponto.

O propósito do trabalho visual era bastante simples: apresentar La Macchina. A personalidade do áudio foi impressa no projeto gráfico, em que a capa veio a partir da sonoridade e das letras, buscando representar a proposta da banda como um todo.

Quando questionamos Álvaro Rosa, designer e vocalista da banda, sobre o quanto a escuta influenciou seu processo de criação das artes, a resposta foi certeira: “Influenciou sempre! Totalmente! Fizemos um disco poroso, permeável. A música desse disco transpira. Daí um projeto fosco, de cores chapadas e intervenções retas. Uma tipografia dos anos 40 e 50 marcou bem as influências do trabalho”. Também, não é para menos essa sintonia entre a sonoridade da banda e o resultado final que estampa o CD La Macchina: Álvaro assina em coautoria todas as 10 músicas que compõem o disco. A sintonia da banda com a proposta gráfica foi perfeita, sendo que apenas uma versão foi elaborada, desde o formato até os créditos.

Ficha técnica: Álvaro Rosa (voz), Ronaldo Kelvin (guitarras), Gutto Ribeiro (contrabaixo), Hélcio Leão (bateria), Pablo Garcia (teclados), Big Joe Manfra (guitarra em “The Last Time”), Laura Jannuzzi e Juliana Stanzani (vocais em “Naked”) e Pedro Crivellari (bateria em “Be Ready, Baby”).

3- A Zagaia 10 anos +1, 2015 (A Zagaia)

A capa do álbum que resumiu a celebração dos onze anos de A Zagaia traz um ar mais rústico e forte, mas, de certa maneira, com traços elegantes. O design faz alusão justamente à ancestralidade da lança de caça de origem africana, que dá nome à banda. Nome que também é de uma árvore de mesma gênese, o que indica uma simbiose indissociável entre o nome da madeira e o instrumento de caça. A força da lança remete ao som da banda que já está na estrada há mais de uma década. A solidez dos veios da madeira presentes na capa ratificam essa noção.

Nathalia Duque foi a designer responsável pela elaboração da capa. O pontapé inicial foi a apresentação de conceitos. Segundo Nathalia, os meninos d’A Zagaia chegaram com ideias mais abertas e deram uma espécie de carta branca pra ela. Haviam linhas e margens mais gerais, onde foi escrito o discurso gráfico. A inspiração principal estava no significado do nome da banda, então, a textura principal de um tronco foi o guia do processo. “A ideia foi aceita bem rapidamente, gostaram da proposta e os ajustes foram mais em cores, posições… foram muitas versões, mas pequenas mudanças”, contou.

Ficha técnica: Chiquinho (violão em “Nego Vai”, voz e baixo), Danniel Goulart (guitarra, violão de doze cordas e bandolim), Delorme Augusto (bateria), Advar Medeiros (flauta), Daniel Amorim (triângulo), José Augusto T. de Miranda (gaita), Márcio Guelber (acordeon) e Ricardo Rezende (guitarra).

4- Rotações, 2017 (Luiz Castelões)

A capa de Rotações, de Luiz Castelões, também elaborada por Nathalia Duque, chega com um ar sóbrio: tons escuros, uma arte simples (perfeita para seu objetivo) e direto ao ponto. Há redundância nos elementos relacionados, referentes sempre à noção de rotação. São repetições cíclicas da palavra “rotações” ao centro da arte, formando uma espécie de símbolo. A capa é impactante e pontual, deixando espaço para que a obra posteriormente se mostre para o ouvinte.

“Com a capa do Luiz, foi diferente, ele chegou com ideias mais fechadas, algumas repletas de cores, outras mais sombrias. Os estudos iniciais vieram após muitas conversas”, relata Nathalia. Neste momento, ela diferencia o tipo de processo de produção em relação ao de A Zagaia, onde teve mais liberdade de criação. Na capa de Rotações a inspiração foram as ondas sonoras, o movimento, a vibração. Tudo está ligado a essa ideia central usada no título do disco. Até a versão final foram várias propostas, estilos, ajustes de tipografia, posições, cores, etc. “Mas, para mim, é importante que fique perfeito para o artista, não me incomodo com as alterações. O mundo visual tem muitos recursos, muita informação. É difícil filtrarmos em apenas uma versão”.

Ficha técnica: Luiz Castelões (compositor). Interpretações do Quartetto Maurice e das pianistas Bianca Oglice e Grazi Elis.

5- Songs from the Orange, 2016 (The Basement Tracks)

Songs for the Orange da The Basement Tracks é minimalista, aberta a diversas possibilidades interpretativas. É limpa, visceral e vibrante, tal como o som da banda de rock alternativo. Remete também à abstração e pegada psicodélicas, as quais os músicos utilizam como referência para suas obras sonoras.

Rodrigo Baumgratz, designer responsável pelas capas da Basement Tracks explica que existe uma facilidade no desenvolvimento dos trabalhos gráficos relacionados ao grupo, muito pelo fato de ser baixista, além de designer, da Basement, o que possibilita que ele esteja envolvido também no processo criativo realizado pelos integrantes. A banda possui dois singles (“Going Back” e “Ocean’s Son”) e um EP (Songs From The Orange). Se no Songs a referência das músicas era os anos 60, a melancolia e o intimismo, no single “Going Back” (e no álbum que já está em produção!) o ar é oitentista. Autodenominado sistemático, Baumgratz possui o costume de produzir mais de uma capa a cada vez, no intuito de apresentar um material variado para a banda.

Ficha técnica: Victor Fonseca (voz e guitarra), Ruan Lustosa (guitarra), Lucas Duarte (bateria), Ruy Alhadas (teclado) e Marcio Jorge (projeções).

6 e 7- Bad For Health, 2012 (Glitter Magic) e Vortex to an Iron Age, 2016 (Hagbard)

Outra forma de trabalho com capas vem do designer Marcelo Vasco. Ele atua de maneira mais segmentada e há bastante tempo está trabalhando com bandas de heavy metal. Como, por exemplo, o Soulfly, do conhecidíssimo Max Cavalera, no álbum de 2012, intitulado Enslaved; o último álbum do Slayer, Repentless, lançado em 2015; e o mais recente é de 2016, Gods of Violence da banda Kreator.

Por sua experiência e vivência, Marcelo já tem uma forma de trabalho mais direta. Ele disse que o que funciona é a banda chegar com o título e o conceito do álbum. Quando o deixam livre para criar é que surgem as melhores ideias. “Às vezes acontece da banda ter uma ideia tão concreta, que eu prefiro nem aceitar o trabalho, pois com a minha experiência acabei desenvolvendo um bom faro para saber o que se encaixa bem no meu estilo de arte e principalmente até onde eu sou capaz de ir”.

Bad for Health, da Glitter Magic, introduz os tons quentes, com predominância de vermelho, preparando o ouvinte para uma pegada mais pesada. A capa vibra, tal como as músicas do álbum. Repleto de símbolos ligados ao misticismo, com elementos de jogos e referências a bebidas alcóolicas, o trabalho gráfico remete a muitas das influências que dão base para o hard rock.

Com tom semelhante, a capa do Vortex to an Iron Age, da Hagbart, também é repleta de tons quentes e elementos vibrantes, que passam a nítida sensação de se estar um redemoinho no meio de uma tormenta no mar nórdico. A influência nórdica se relaciona com a origem do nome da banda: Hagbard é um herói da mitologia viking. Por isso vemos diversos elementos que dialogam com essa referência na capa, bem como com o estilo folk metal da banda.

Marcelo contou que quando apresentou a direção visual das capas, foi amor à primeira vista. Só que desde o rascunho de cada uma delas até a arte final, foram alguns testes e modificações. “Depois de ter a capa montada e aprovada, existe sempre aquele olhar mais detalhista e perfeccionista, que gera o famoso toque final. Gosto inclusive de esquecer a capa durante uns dias e olhar de novo para ela, para ver o que sinto. Isso faz com que eu saiba se ela realmente se mostra como deve ser, e principalmente se não deixei nada passar. O calor do momento e os olhos cansados do trabalho, deixam coisas fugirem da nossa percepção”.

Ficha técnica Glitter Magic: Rhee Charles (vocais), Luqui di Falco (guitarra e violão), Mauri Moore (guitarra e vocais de apoio), Glux (baixo), Andy Ravel (bateria), Diogo Dadalti (cello, violinos e viola em “Heal Me”), Leandro Trombini (guitarras limpas em “Don’t” e “Heal Me”) Athos Batista (teclado em “Heal Me” e “Living on Addiction”)
Ficha técnica Hagbard: Igor Rhein (vocal), Gabriel Soares (teclado e vocal), Everton Moreira (bateria), Danilo Marreta (guitarra), Rômulo “Sancho” Piovezana (baixo), Livia Kodato (vocais), Vinícius Faza (violino), Luqui di Falco (violão) e Maurício Fernandes (vocais de apoio).

8- Concebido por Acaso na Terra , 2017 (Blend 87)

A conjunção de tons frios com o tema da ilustração já avisa: pode aguardar um som delicado, melodioso, perfeito para aquele momento em que você deseja apenas relaxar e contemplar o dia. Com elementos delicados, bem clean, a opção pela ilustração também se encaixa nesse perfil.

Trata-se de arte elaborada por Mariana Salimena. De todas as capas até aqui, é a de processo mais destoante. A Blend já conhecia seu trabalho, só que a artista nunca havia trabalhado com uma banda antes.

Como uma analista e seu divã, Mariana gosta de fazer uma primeira reunião com todos os envolvidos, escutar mais do que falar, anotar tudo em seu bloquinho e ir construindo um primeiro briefing. “Gosto muito de pedir palavras-chave para guiar a arte, porque sempre que as pessoas precisam ser mais concisas, revelam as principais expectativas e interesses que têm na comunicação daquele trabalho”. Após esse processo, alguns rascunhos simples são feitos, para começar a dar forma visual às ideias. Depois são levados à banda para uma primeira avaliação.

Mariana transformou a empreitada de Concebido por acaso na Terra em um projeto de arte. Aproveitando a liberdade dada pelos integrantes da banda, colocou em prática ideias que fugiam ao briefing inicial. “Aí saíram rascunhos melhores, mais interessantes! E desses saiu a ideia que acabou sendo a escolhida para ser arte-finalizada. Recebi um feedback ótimo dos integrantes e eu também fiquei muito satisfeita com a ideia e a arte final. Com alguns mínimos ajustes, chegamos ao que eles queriam e foi ótimo ver que consegui atender ao que desejavam!”.

Ficha técnica: Bruna Marlière (vocal), Douglas Poerner (baixo), Nathan Itaborahy (bateria), Renato da Lapa (violão e guitarra) e Vinícius Steinbach (teclado e escaleta).