Transposição didática de resultados, por onde começar?

Escolas e redes educacionais buscam fazer uso das avaliações externas aplicadas em larga escala, quer sejam promovidas por instituições privadas ou mesmo oferecidas pelo setor público, como meio para obter um diagnóstico da qualidade de seus processos sob um ponto de vista amplo, que possibilite a tomada de decisões e o desenvolvimento de políticas com vistas ao aperfeiçoamento do ensino oferecido.

Contudo, a aplicação de testes cognitivos e de questionários contextuais, juntamente com a simples leitura do tratamento estatístico dos dados coletados, não têm o poder de transformar procedimentos pedagógicos ou administrativos das escolas. Sozinhos, esses processos não contribuem com os sistemas educativos, uma vez que não expressam as especificidades de cada uma das salas de aula e não se relacionam com a totalidade do currículo escolar.

Bem por isso, as avaliações externas jamais substituem ou invalidam qualquer forma de avaliação interna, realizada dentro da sala de aula, por um professor que acompanha diariamente o trabalho e o desenvolvimento de seus alunos. Ao contrário, esses processos devem ser complementares, mas, como fazer com que os resultados de uma avaliação externa adquiram efetivamente significado para os professores das diversas disciplinas e contribuam para o aperfeiçoamento das práticas pedagógicas?

Da gestão à sala de aula: transposição didática dos resultados

Um possível caminho para refletir sobre como relacionar os processos avaliativos aos processos pedagógicos é desenvolver a transposição didática das trajetórias históricas, dos conceitos, das metodologias, dos objetivos de análise e dos resultados obtidos com a realização da avaliação externa aos professores da instituição.

Em muitas instituições, esse processo é realizado pelo Coordenador Pedagógico. Um agente mediador entre a gestão administrativa e o grupo de professores, que compreende as necessidades de análise desses dois perfis profissionais e que é capaz de transpor as informações contidas nos relatórios e as tornem passíveis de serem compreendidas e utilizadas em sala de aula para benefício do processo de aprendizagem dos estudantes.

O conceito transposição didática é aqui empregado na perspectiva de constituição do saber escolar, que não se limita à ação de realizar uma seleção de conteúdos, mas sim, a de tornar esses conteúdos efetivamente transmissíveis e assimiláveis. Para isso, o agente responsável pela transposição didática dos resultados das avaliações externas deve executar o trabalho de reorganizar, mediar e reestruturar os conhecimentos trazidos nos relatórios em saberes tipicamente escolares, ou seja, em saberes ensináveis e aprendidos.

Transpor significa ‘fabricar artesanalmente os saberes’

Selecionar os conteúdos presentes nos relatórios obtidos, de acordo com a proposta pedagógica da instituição, organizar e apresentar os conteúdos, auxiliar na analise dos gráficos e tabelas em conjunto com os professores são exemplos de ações capazes de promover a compreensão profunda dos objetivos de aprendizagem.

Ao relacionar os conteúdos das disciplinas e áreas com os fatos e dados trazidos pelos resultados da avaliação, cada escola desenvolve uma prática educativa que considera as características dos professores, dos alunos, da comunidade, os temas e as necessidades do mundo social.

Dominar o conhecimento sobre avaliação educacional externa aplicada em larga escala, de modo articulado, para planejar situações didáticas utilizando os conhecimentos das disciplinas e áreas, dos temas sociais, dos contextos sociais relevantes para a aprendizagem é transpor a cultura da avaliação à toda comunidade escolar.

Transpor significa deslocar o conhecimento para dentro da escola, é um instrumento através do qual se transforma o conhecimento científico em conhecimento passível de ser ensinado e, consequentemente, aprendido por outrem. Philippe Perrenoud, sociólogo suíço, define esse termo com a essência do ensinar, ou seja, transpor é “a ação de fabricar artesanalmente os saberes, tornando-os ensináveis, exercitáveis e passíveis de avaliação”. É uma oportunidade para analisar e refletir sobre a prática pedagógica a partir de um novo olhar, dotado de objetivos específicos que complementam a experiência interna da escola.

Na sua escola, por onde a transposição didática dos resultados começa?

Dicas e referências de leitura

ALMEIDA, Geraldo Peçanha de. Transposição didática: por onde começar? 2.ed. São Paulo: Cortez, 2011.

MELLO, Guimoar Namo de. Transposição didática, interdisciplinaridade e contextualização. Disponível em: http://www.namodemello.com.br/pdf/escritos/outros/contextinterdisc.pdf. Acesso em: 01 nov. 2014.

MONTEIRO, Ana Maria F. C. Os saberes que ensinam: o saber escolar. Em: ____. Professores de história: entre saberes e práticas. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007.

PERRENOUD. Philippe. Práticas pedagógicas, profissão docente e formação: perspectivas sociológicas. Lisboa: Dom Quixote, 1993.

______. Ofício de aluno e sentido do trabalho escolar. Porto: Porto, 1994.