Análise | Super Sportmatchen (Switch)
Torneio de mini-esportes resgata o charme de títulos clássicos e é uma ótima opção para diversão multiplayer ao estilo party.

Muito antes dos games esportivos se enveredarem pelos rumos da simulação ultrarrealista, as produções do gênero frequentemente adotavam soluções criativas na tentativa de adaptar as mecânicas do mundo real às limitações técnicas das máquinas da época.
Um dos acertos icônicos no ramo foi Track & Field, título de Arcade da Konami lançado originalmente em 1983 e que posteriormente se tornaria sinônimo das jogatinas olímpicas no NES com um port de sucesso garantindo a longevidade da franquia. Traduzindo algumas modalidades olímpicas para mini-games rápidos com comandos simples, a série lançou os padrões para os jogos de olimpíadas, servindo de inspiração para diversos projetos que se seguiram.
Super Sportmatchen, produção de estreia da Kaj Forell Video Game Brand publicada pela Dangen Entertainment, toma como inspiração os aspectos multiplayer dos títulos esportivos à la Track & Field e propõe combiná-los com uma estrutura de party game, trazendo uma coleção de dez mini-esportes com mecânicas simples para até 4 jogadores locais se desafiarem em um evento olímpico 8-bits.
O título não conta com localização para o Português Brasileiro.
Esta análise não contém spoilers.
Enredo
Todo mundo tem ao menos uma ideia a respeito da história das Olimpíadas, eventos esportivos com origens mitológicas que eram disputados na Grécia Antiga pelo menos desde 766 a.C., certo? Super Sportmatchen se passa em um universo em que os Jogos Olímpicos ocorrem mais ou menos da mesma forma que na realidade, porém com uma marcada participação de animais e algumas diferenças-chave em algumas das modalidades.
Se por um lado os esportes de combate são substituídos pela variante mais leve e acessível de uma briga de travesseiros e o tiro ao alvo dá lugar a um inspirado evento de alimentação de animais, por outro lado temos verdadeiras barbaridades ocorrendo nessa variante como o nada esportivo arremesso de capivaras (!?).

Cabe ao jogador organizar seu próprio torneio, que conta com a participação de um grupo seleto de nacionalidades: Suécia, Bolívia, Vietnã, Canadá, Estônia e Serra Leoa. O apresentador desses inusitados eventos é Tak Fujii, colaborador da Konami que ganhou notoriedade como meme da E3 de 2010. Ou seja: na superfície, trata-se do setting familiar dos Jogos Olímpicos, porém com particularidades o suficiente para fazer de Sportmatchen um evento com uma identidade muito própria.
Gameplay
O game oferece dez modalidades mini-esportivas ao melhor estilo de Track & Field. Tratam-se de disputas rápidas e de curta duração, que comportam de 2 a 4 atletas, os quais podem ser controlados por jogadores locais ou pela AI. Acredite, a diferença entre a experiência das duas opções é total — mais sobre isso na sessão seguinte. Há também a opção para disputa em duplas, no caso do jogo com 4 desafiantes.

100M Dash é a tradicional corrida de 100 metros rasos, cujo esquema de controles remonta ao já conhecido pressionamento alternante de botões de Track & Field. O twist aqui é que ao invés de focar na velocidade ou no ritmo de pressionamento, o importante é evitar apertar A e B ao mesmo tempo, o que causa um tropeção que certamente custará preciosos segundos no resultado final. Trata-se do mini-game mais simples da coletânea.

250M Plint-Sprint é a variante com obstáculos de 100M Dash, trazendo aparelhos de salto ornamental para serem desviados com o uso de um pulo ajustável. Trata-se de uma versão melhorada do primeiro mini-game, que na prática acaba tornando-o um tanto obsoleto. Com mais fatores de imprevisibilidade, a modalidade traz mais emoção e conta com mais espaço para aperfeiçoamento.

180M Hopp-Boll é a verdadeira estrela das modalidades de corrida. Nessa “corrida de saco” olímpica, ao invés de alternar entre A e B o jogador dosa toda a movimentação do personagem segurando o direcional para baixo, calculando pulos mais ou menos longos no ritmo mais compensador possível. Ao longo do caminho, pequenos trechos de lama e colchonetes propulsores trazem mais variedade à experiência. Um dos mini-games mais divertidos e dinâmicos da coletânea.

Wall Climb é a modalidade de escalada do jogo, que traz um paredão com suportes que podem ser percorridos com o uso de comandos nada intuitivos. Não bastasse a jogabilidade truncada, a modalidade é a que mais pesa a mão nos obstáculos aleatórios, trazendo berinjelas assassinas e mini-furacões que garantirão que você não chegará muito longe na primeira centena de vezes em que tentar se arriscar por ali.

Animal Feed é um mini-game de tiro ao alvo que lembra vagamente um Duck Hunt ecologicamente consciente. Ao invés de assassinar os pobres patos, o atleta deve jogar comida para gaivotas e capivaras voadoras. Também marcam presença alguns alvos extras e elementos surpresa que remetem aos easter eggs de Track & Field. A mecânica de alimentação dos bichos traz um twist bem interessante ao tiro ao alvo, já que deve se levar em conta o movimento de abocanhar do animal. Infelizmente, a AI é ainda mais bem treinada do que o elenco de animais do jogo, e consegue realizar combos e malabares de ração que colocam as habilidades humanas médias no chinelo.

River Dodge traz uma corrida de caiaque vertical entre obstáculos, contando com pontos coletáveis. O jogador deve apenas colocar o caiaque em um dos três trilhos verticais com o uso do direcional, desviando dos obstáculos e utilizando-se das rampas para um boost especial. Um modo de jogo simples e interessante, que peca pela curtíssima duração, já que o desafio se encerra com o primeiro erro do jogador em questão. Nem mesmo a onisciente AI costuma durar muito nessa modalidade!

Hoops é um mini-game de cestas, que traz as mecânicas mais complexas de toda a coletânea. Disputado em um único plano 2D sem profundidade, o modo traz a possibilidade de atrapalhar o adversário com um botão de ataque ou pulando em sua cabeça, bem como formas diversas de se marcar as cestas, com as distâncias marcando pontuações variadas. Com isso, trata-se também da modalidade mais detalhada e, desta forma, a que melhor consegue equilibrar simplicidade e desafio em uma curva interessante de aprendizado. Com outros jogadores humanos, é claro.

Pillow Push é uma espécie de sumô com travesseiros, que funciona com um botão de ataque e um de contra-ataque. O objetivo é jogar o oponente para fora do ringue. Trata-se do único mini-game onde a AI provavelmente não destruirá o jogador iniciante sem qualquer chance de competição — ideal para marcar aquele ponto de honra suado em um torneio Super de times de humanos x computador que se encontra fadado a ser perdido por 9 a 1!

Capy Throw é a inusitada modalidade de arremesso de capivaras, que funciona como um mini-game de arremesso de peso tradicional. O jogador segura o botão B e gira o joystick analógico para dosar a força e sentido da rotação e escolhe o momento no qual lançar o roedor (soltando o B), além é claro da ativação do para-quedas (segurança em primeiro lugar!).

Boll Toss é uma modalidade de arremesso linear, que conta com uma interessante mecânica onde a bolinha lançada rebate em um paredão, com a possibilidade de duplicar a pontuação. A partir do cálculo do ângulo e força, os competidores tentam atingir a maior pontuação, ao longo de várias rodadas.
Complexidade
Os mini-esportes da coletânea trazem diversos tipos diferentes de desafio. Alguns priorizam reflexos rápidos, como 100M Dash, 250M Plint-Sprint e River Dodge, enquanto outros enfocam a precisão no uso de comandos inusitados, como Wall Climb e Animal Feed. Em todos esses, a competição não traz muito espaço para o improviso, e a disputa tende a ser uma função simples da habilidade de cada jogador com as mecânicas em questão. Tratam-se de mini-games divertidos, mas que trazem pouca variabilidade ao aliar uma jogabilidade muito simplificada a desafios extremente curtos.

Mais diversão e fator replay são encontrados nos outros mini-games: os estratégicos 180M Hopp-Boll, Capy Throw e Boll Toss, e os relativamente complexos e imprevisíveis Hoops e Pillow Push. 180M Hopp-Boll, Capy Throw e Boll Toss trazem a dose certa de complexidade, exigindo não apenas reflexos rápidos mas também o uso de estratégia, com uma alta possibilidade de erro que torna as disputas mais imprevisíveis e menos lineares.

Por sua vez, Hoops e Pillow Push são os mini-games que mais trazem liberdade ao jogador, com uma jogabilidade menos restrita abrindo espaço para estratégias diversas e um fator de imprevisibilidade que torna tudo muito mais divertido, e são sem dúvida as modalidades onde o potencial da coletânea para boas seções de party game brilha com mais intensidade.
Embora a proposta do game seja aparentemente a de trazer mini-games ao estilo “fácil de jogar, difícil de masterizar”, esse funcionamento é totalmente relativo ao modo como os desafios serão jogados. Mais especificamente, contra quais oponentes.

Jogando exclusivamente com outros humanos, o jogo mostra seu verdadeiro potencial e traz ótimos momentos de diversão, especialmente quando os jogadores se encontram no mesmo nível de proficiência com os comandos pouco usuais dos mini-esportes. A inteligência artificial, no entanto, não regula um desafio capaz de simular nada do tipo, sendo uma experiência frustrante tanto no single player, quanto como forma de “completar o time” no multiplayer.
Especialmente nas modalidades mais simples, onde a obtenção de bons scores se deve principalmente ao evitar de erros triviais, as altas habilidades da AI tornam a coisa toda um desafio muito superior ao prometido party game despreocupado que o título se propõe a ser para começo de conversa. Sem opção de ajuste de dificuldade, chama a atenção, por exemplo, o fato de que o desempenho médio normal da AI em várias modalidades acabe sendo frequentemente igual ou superior aos World Records, placar de High Scores que vem programado no jogo como desafios a serem superados.

Ou seja, desde a primeira partida contra a CPU, o jogador estará encarando o desafio máximo suposto pelos desenvolvedores — configuração que se presta rapidamente à frustração, uma vez que, conforme um dos motes do próprio torneio, “winners have more fun”!
Por sorte, o modo multiplayer consegue realizar o verdadeiro potencial da experiência, em especial nas modalidades mais complexas e interessantes como Capy Throw e Hoops. A jogatina a dois ou três é repleta de momentos divertidos e engraçados, enquanto a presença de quatro pessoas possibilita uma disputa entre times com mais emoção do que um simples display de superioridade das máquinas.
Audiovisual
Super Sportmatchen traz uma apresentação retrô no melhor estilo pseudo 8-bits, a qual orna perfeitamente com suas mecânicas e ajuda a evocar os ares da musa inspiradora Track & Field. Com sprites e animações simples e um estilo de desenho caricatural, o título consegue criar uma boa ambientação para o torneio de esportes incomuns, pontuando cada arena com vários detalhes como a presença idiossincrática dos animais-mascote da disputa (dentre os quais o urubu, a capivara e as doninhas dançarinas figuram proeminentemente).

A trilha sonora complementa bem o conjunto, trazendo chiptunes extremamente grudentas para embalar cada modalidade, bem como os momentos solenes de abertura e encerramento dos torneios. Os efeitos sonoros também não deixam de soar legítimos, gerando uma experiência que traz ares autênticos de um título 8-bits.
Desempenho
O game roda muito bem tanto no modo docked quanto no modo portátil, sem quaisquer problemas de desempenho. Não foram detectados quaisquer bugs ou glitches.

Análise — Super Sportmatchen (Switch)
Super Sportmatchen resgata um pouco do encanto dos clássicos jogos ao estilo Track & Field, trazendo uma coletânea mista de modalidades inusitadas sob uma apresentação 8-bit cheia de charme. Enquanto o modo multiplayer cumpre a promessa de proporcionar um party game despreocupado e repleto de momentos divertidos (especialmente nas modalidades mais complexas), a jogatina contra a máquina acaba tendendo à mais pura frustração, com uma AI que apresenta um nível altíssimo de dificuldade sem quaisquer opções de ajuste. Com isso, o jogo acaba ficando um pouco aquém de seu próprio potencial, e é recomendado apenas para os fãs do estilo que procuram por um multiplayer local rápido e acessível.
Avaliação do jogo segundo o autor da análise: 6/10 — Razoável
Análise produzida com cópia digital cedida pela DANGEN Entertainment

