Minha experiência com o Money Pile

Ano passado conheci o Money Pile, ferramenta para a distribuição de dinheiro em grupo/comunidade, e comecei a utilizá-la en alguns projetos que participei.

A dinâmica é simples: senta-se com o grupo, faz-se uma rodada onde cada um diz como está a sua situação financeira (quanto de dinheiro tem em conta, quanto está para receber, quanto tem de gastos previstos, se tem dívidas, se tem planos/sonhos). Em seguida, com todos conscientes da situação de cada um, inicia-se a distribuição do dinheiro coletiva, em que todos podem sugerir como o dinheiro será dividido. Exemplo: vamos imaginar que temos 5mil reais para dividir entre 5 pessoas. Eu posso sugerir deixar 1.500,00 com uma pessoa, porque está precisando desse valor; 2.000,00 para mim; e 500,00 para cada uma das outras 3 pessoas, pois estas estão em outros projetos que lhes trarão $ também. Em seguida, uma dessas pessoas que sugeri receber 500,00, pode reajustar tudo (tanto tirar um valor dos 2.000,00 que separei para mim quanto tirar mais dinheiro de alguém que está com 500,00). A regra é estarmos abertos para movimentar o dinheiro que está na nossa frente da forma que quisermos. Justificando ou não o movimento que fizemos. Aos poucos, as alterações diminuem, até parar e alguém pergunta: estamos todos satisfeitos com o valor que cada um está recebendo? Podemos encerrar? (Nesse momento o money pile pode terminar ou mais um ciclo de ajustes começar).

Ao longo de um ano participando de diversas rodas de Money Pile, posso compartilhar algumas pecepções sobre o processo.

  • Para mim o primeiro desafio foi falar honestamente sobre a minha situação financeira para outras pessoas. Lembro que no meu primeiro money pile, eu comecei falando e, depois de ouvir as demais pessoas descrevendo com detalhes como estavam financeiramente, eu senti vontade de explicar melhor como eu estava também. Hoje sinto que isso, além de nos exigir uma consciência sobre como está realmente a minha situação financeira, quebra vários tabus com relação ao dinheiro. Falar para parceiros de trabalho (muitas vezes amigos) quanto eu tenho ou quanto eu devo, é bem difícil. Eu cresci ouvindo que esse tipo de problema ninguém precisa ficar sabendo. Muito numa ideia de vergonha e também de que isso precisamos resolver sozinhos. Imagina então, quanto paradigma precisou ser discontruido nesse processo?!
  • Geralmente dividimos o dinheiro dos projetos por meritocracia. Ou seja: se você trabalhou mais ou teve mais responsabilidade, você merece receber mais. A lógica dos salários também funciona assim. O money pile desconstrói essa lógica e nos faz o convite para buscarmos cuidar o melhor possível das necessidades de todos do grupo, sem considerar apenas o quanto cada um trabalhou. Talvez num projeto, uma pessoa da equipe tem filho pequeno e por isso não pôde se dedicar tanto ao projeto. Mas justamente por ter um filho, talvez precise mais do dinheiro. Ou alguém pode ficar doente… Esses exemplos são ótimos pois são casos em que empatizamos mais facilmente com a pessoa a ponto de desejar que ela receba um valor maior.
  • Mas e se a pessoa precisa de um valor alto pois assumiu um dívida pois escolheu viajar? Ou se a pessoa tem hábitos de consumo desorganizados que tornam suas dívidas uma bola de neve? Essa ferramenta é potente pois nos coloca fora da zona de conforto e diante de todas as nossas sombras (quando estamos decidindo quem ganhará mais ou menos, muito rapidamente surgem na nossa cabeça julgamentos sobre as outras pessoas e o que elas fazem ou deixam de fazer com o seu dinheiro.) E o convite é experimentar esses sentimentos, e buscar entender porque aquilo nos incomoda e qual o melhor caminho para que todos sintam-se cuidados.
  • É importante trazer o outro lado, o de quem precisa de ajuda, pois também descobri o quanto é difícil aceitar e celebrar ajuda. Ano passado eu fui a pessoa que decidiu viajar e, por isso, acumulei uma dívida alta. E posso dizer que, apesar do constrangimento inicial de partilhar essa situação com meus parceiros, eu me senti muito cuidada por todos eles. O sentimento de cuidado foi proporcional ao desconforto de achar que eu estava prejudicando todos eles, que estavam recebendo menos pois eu precisava de mais naquele momento. Respirar fundo, ser grata e abandonar o auto julgamento, é um exercício muito desafiador.
  • O outro lado desse aspecto também é importante: observar o quanto nossas escolhas afetam todo o sistema no qual estamos inseridos. Tal reflexão não é para gerar sentimento de culpa (nota que falei de gratidão no item anterior), mas é lindo ver como o processo nos desperta a autorresponsabilidade. Perceber que todos os meus movimentos e decisões têm um impacto sistemico reforçou a minha intensão de ser consciente sobre os meus hábitos de consumo, por exemplo.
  • Falando em desafio, acrescento a isso tudo a importância de vibrar confiança e abundância. Com um ano de prática, sinto que é preciso confiar de verdade e em diversas esferas (não só no grupo com quem você está trabalhando, mas no fato que nunca vai faltar) E foi nesse processo que entendi realmente o que significa viver na perspectiva da abundância. Conviver em grupos que utilizam o money pile é exercitar viver com a lente da abundância, confiando que eu posso cuidar mais de alguém hoje, porque, quando eu precisar, eu também serei cuidada. E, o mais incrível, é que esse cuidado não necessáriamente virá desse grupo específico. Mas tenho certeza de que, quando eu precisar, esse dinheiro surgirá (seja com um novo job ou ganhando na mega-sena!). Posso dizer que tenho observado muito isso. E nos últimos money piles que participei, ouvi pessoas dizendo que gostariam de receber menos para poder distribuir melhor entre o grupo, já que estava num outro projeto. ;)

O dinheiro flui assim como a vida flui!

Sei que tudo o que descrevi pode parecer assustador. Sim, o processo é muito desafiador. Mas, sinto que me gerou muita cura sobre a minha relação com dinheiro.

Fico a disposição para quem se interessar em experimentar a ferramenta no seu projeto, organização e/ou coletivo. ;)