A Revolta das Cadeiras

Doris Salcedo

A base da pirâmide é o que mantém o sistema em pé, o povo não conhece o seu poder, ou pior, duvida do poder do outro que é maior. A revolta mais poderosa vem daquele que confia completamente no seu poder e, convenhamos, alguém que sem dúvidas não deve viver na mesma realidade trivial e falha que eu e você.

Os líderes e revolucionários costumam ser pessoas com uma fé inexplicável sobre algo muito maior (um partido, uma religião, uma ideologia) ou alguém muito ingênuo, otimista ou pretensioso para ignorar um sistema de poder e dominação. Isso para não falar de quem apenas é bipolar e tem crises de mania que o fazem crer ser capaz do impossível.

O episódio de hoje, nesse seriado de orçamento baixíssimo, mas sem nunca faltar bom humor, conta a história de um grupo de revolucionários disposto a subverter a ordem e questionar o poder milenar da Igreja Católica. Essa própria narrativa já escancara a tendência a mania bipolar, porque o que de fato aconteceu foi apenas a organização de pré-adolescentes insatisfeitos com a infraestrutura oferecida na escola particular onde estudavam.

Era 2002 e a 6ª “A” era uma turma relativamente pacata. Os nossos episódios mais subversivos envolviam colocar cordão cheiroso(que nome irônico) no ar condicionado. Éramos o que popularmente se chama de leite com pera, um bando de menino amarelo criado no playground. Acontece que mesmo tendo alguns benefícios em relação às outras turmas, como por exemplo salas com ar condicionado (o que é ostentação real!) ou ter uns professores que treinavam a gente pra redação do vestibular desde a 5ª série (equilíbrio pra que? pressão, prazer!) algumas coisas básicas não estavam ao nosso alcance. Coisas como: carteiras decentes!

Na minha lembrança (que já está bem visível que temos um probleminha de distorção de realidade, né?) o ambiente parecia de cadeira deterioradas, com goteiras em cima das mesas e aquele clima de matéria do Fantástico sobre a crise da educação no Brasil (Oi, Globo. Não é crise, é projeto, beijos!). Ainda assim, o pouco de sanidade que me resta, me faz admitir que eram mesas e cadeiras normais, mas cheias de cupim, o que é um pouco chato mesmo ter sua perna cheia de restinhos de madeira.

Um dia cansamos disso e, apesar da educação conservadora em muitos sentidos, com professores semi-padres condenando o uso de camisinha e coisas assim, a gente tinha uns professores que falavam bastante com a gente de levantes populares. Problematizávamos a seca, condenávamos o coronelismo, aprendemos que Cuba tinha educação maravilhosa, relacionávamos as guerras do Oriente Médio com o petróleo. Enfim, vivíamos o que os conservadores gostam de dizer que é o marxismo cultural, normalizamos a revolta como algo legítimo.

O motivo dessa revolta ter acontecido foi provavelmente ingenuidade e uma arrogânciazinha de se sentir meio protegido pela escola, o benefício que nenhum malandro saberá aproveitar. Sei que em um dos intervalos colocamos todas as carteiras quebradas do lado de fora e alertamos ao mundo(!):

ESSE É O ESTADO DAS CARTEIRAS DA 6ªA

Quando a aula começou, os alunos que estavam sem ter onde sentar, sentaram no chão ou dividiram a cadeira com os colegas que ainda ostentavam carteiras inteiras. Foi coordenadora, foi diretor, foi todo mundo aquele dia na sala. Levamos bronca e ouvimos sermão, mas ninguém fez nada com a gente e terminamos o dia bem.

No outro dia, cadeiras verdes, ainda com pedaço de plástico grudado nos parafusos. Todo mundo feliz e triunfante com o sucesso da nossa manifestação pacífica.

Acho que é aquela coisa clichê que adoram falar: Não sabendo que era impossível, foi lá e fez. A gente não sabia e, na verdade, cadeiras decentes é meio que o mínimo.

Não sei o efeito que aquilo produziu em todos os alunos, pra ser sincera nem lembro se todo mundo aderiu ao movimento. Mas lembro de dividir a cadeira espremida com uma amiga, naquela sala do canto do corredor, bem em frente ao quarto do padre, uma afronta que nunca mais cometeríamos.

É desses episódios que parecem meio sonho, meio ficção, porque tinha um quê de revolucionário inocente, de manifestação pacífica e de acreditar na importância do seus desejos que só alguém de 12 anos consegue ter de verdade.

Eu costumo confiar na minha memória, mas nem tanto na minha lucidez, então sempre que lembro desse dia surge aquela pontinha de desconfiança de ter sido mesmo real. Mas cada amigo que lembra da reação, que lembra do acontecido, é um pouco a confirmação de que foi real, mesmo que tão imaginário.

Queria ter guardado um pedaço daquela madeira com cupim, pra ter de relíquia dos tempos que eu realmente acreditava em movimentos organizados. Pra ter como aquelas recordações de filmes de fantasia, quando o personagem estando certo que acordou do sonho encontra um vestígio que prova que aconteceu.

Só quem tava lá pode confirmar.

#eufui #eutava