Amiguinho

Os almoços eram todos iguais, castelinhos igualmente distribuídos em cor alaranjada de abóbora e com feijão extra para controlar a anemia. A fome de tarde livre era maior que a de comida- que já era grande-, se comia a comida rápido e com as mãos. Para ser divertido, mas sem nunca ser leve. Ter sustância, fazer crescer os centímetros na altura e no diâmetros.

Ao meio dia de um verão eterno, ainda fazia sol forte, mas era possível mendigar sombra na garagem. Não havia carro em tamanho real, mas havia os em miniatura, dirigido por bonecos articulados com cortes de cuia no cabelo. Havia pelúcias e bonecos de cabelo laranja com rumores satânicos. Parecia sempre fim de tarde de um domingo comprido naqueles almoços sempre iguais. Os brinquedos, a bagunça, os gritos e a confusão que habitavam a cabeça e as verdades daquela menina.

Arroz, feijão, farinha e salada eram a lei. Havia a mistura que variava de acordo com o dia da semana. Carne frita às segundas, frango às terças, feijoada às quartas, bife acebolado às quintas e peixe às sextas. Não precisava saber muito para acompanhar o que se passava por lá. Havia calma, rotina e fartura. Havia um lar.

A sombra diminuta espremida no canto da garagem era o que servia de playground nessas horas entre o fim do ritual da comida e o começo da rotina do estudo. A rede armada por cima da cabeça servia de cabana, para-sol ou cápsula do tempo. Não havia perigos naquela fração de dia, não faltava emoção estendida no azulejo gelado.


Aprendi que interromper almoços era feio. Não podia conversar com adultos que ouviam e repetiam notícias catastróficas do jornal. Não podia ligar para nenhuma amiga, não podia nem sair de casa.

A hora de comer era também da negação. Negava a fala com a boca cheia, os cotovelos à mesa e as interrupções no noticiário para falar de coisas banais, essenciais.

Corria para o meu canto na garagem, rente à grade e cercada por um forte de brinquedos. Sentava com revistinhas e visitava amigos imaginários. Era daqueles momentos de paz que só a solidão conquistada consegue trazer.

Uma paz interrompida todos os dias por um ritual que se iniciava religiosamente, sem nenhuma liturgia ou protocolo.


Com a remissão dos pecados que só a fome traz, ele se aproximava do portão e gritava.

Amiguinha, tem comida pra mim hoje?

Ela sabia que tinha, sabia que o prato tinha sido raspado, mas que a panela ainda estava cheia.

Gritava pela vó, que sem muitos melindres gritava de volta e avisava que seu amiguinho tinha chegado. Ele tinha pressa, ele tinha fome.

Havia as regras ditas e tácitas naquela casa, negar comida quando se come era uma delas. Talvez fosse um segredo que a menina tivesse confidenciado, talvez fosse só a hora que o amiguinho conseguia passar.

Seu objetivo era alcançado, comia em um pote de sorvete reutilizado que servia como um prato dos mais fundos. Conversava por entre as grades com um menina que lhe contava piadas sobre pontinhos.

É fácil romantizar a pobreza e relativizar a miséria de se ter um prato pra comer. O clichê das pequenas coisas que realmente têm valor vai se alastrando aos poucos, como uma doença perniciosa, como o medo que aquela miséria pudesse ser contagiosa.


A comida era passada por entre os espaços da grade, era como uma prisão, mas o prisioneiro estava do lado de fora.

Não dava pra saber quem aquela comida alimentava, a fome daquele homem ou a culpa daquela mulher que servia.

Um prato parecia pouco, então vinha em pote. Pra mim já não parecia tão bom, odiava quando encontrava feijão no pote de sorvete. Meu amiguinho se lambuzava.

Perguntei se ele gostava de sorvete, ele disse que só quando tinha dente. Falei que Dr. Jairo, o meu dentista, me deixava tomar sorvete quando eu tirava um dente. Eu tinha começado a trocar os dentes cedo, falei pra ele. Ele disse que ele também. Prometi entregar um picolé de russo que era o meu preferido porque deixava a língua rosa, mas nunca cumpri.

Eram outras cores que ele procurava.

Não lembro o que a gente falava, lembro de ser muito e de ser atropelado. Lembro mais por ouvir dizer, pego emprestado a memória dos outros pra lembrar. Acredito que é verdade, sempre chovi palavras em tempestades de verão.

Eu nasci numa tempestade de verão, bebi dessa agua pra aprender a falar e desde então não parei.

Desconfio que esse amigo não existiu, mas tenho certeza que foi real. Talvez projeção induzida das parábolas do deus que se disfarçava de mendigo.

Não lembro dessas conversas. Não sei se passei no teste.