Análises Sociológicas

Gosto de pensar que sou uma pessoa inteligente, pelo menos entendo que não sou burra e me contento com isso. Entendo também que inteligências são múltiplas e que normalmente não somos super bons em tudo.

Musicalmente falando sou uma anta. Não só por ser completamente desafinada, mas também por ser quase um gafanhoto e escutar com os ouvidos (que inclusive sinto muitas dores) ou algo que o valha.

Em resumo, faço parte do time que canta ‘Trocando de Biquini sem Parar”, que por sinal nunca me conformei. Vocês já viram o clipe? Tem mulheres de biquini, óbvio que elas trocam eles em algum momento. Inclusive sou capaz de dizer que esse foi claramente um ato da censura que substitui biquinis por BB King por ser uma alusão à orgia. Só não vê quem não quer.

Inversamente proporcional ao meu talento para música, está o de criar teorias, principalmente as conspiratórias. Foi assim que ainda cedo comecei a realizar análises sociológicas elaboradíssimas coma base em interpretações musicais equivocadas.

O ano era 1996, além de ralar muito na boquinha da garrafa, embalava minhas tardes no Marujo em uma dieta à base de caranguejo, pastel e batata-frita (batata entra na cota de salada) com grandes sucessos da época.

Lembro de ouvir naquelas caixas de som gigantes clássicos como Mama África. Acho que foi uma das primeiras músicas tristes que ouvi, tirando talvez Asa Branca que até hoje me faz marejar os olhos.

Ouvia a música e achava que tinha sido feita por um menino da minha idade e sofria com o sofrimento dele, da mesma forma que sofri anos depois com Moranguinho do Nordeste, não só porque não conseguia dormir no verão, mas porque achava que aquela voz sofrida era de uma criança passando fome.

Mas com Mama África eu realmente sentia o que o menino sentia, me compadecia da sua dor. Só que dentro da minha análise sociológico sobre o filho de mãe solteira sem oportunidades, um elemento faltava, o que haveria de tão ruim em ter uma mãe que trabalha apenas 4 dias na semana.

Minha mãe sempre trabalhou muito 3 empregos, plantões, vida que segue, então eu meio que achava OK a reivindicação do menino. Entretanto, justamente no refrão ele falava algo que não fazia sentido pra mim:

E tem que fazer mamadeira, todo dia.

Além de domingo a quarta-feira nas casas da Bahia

Gente, como assim? De que forma esse trabalho seria ruim? Será que porque ela era empregada doméstica ? Pior, seria porque o menino não conseguia ter um almoço de domingo decente? Pelo menos tinha a mamadeira, que não faltava dia nenhum.

É difícil viver a dor dos outros.

Mais difícil ainda quando não se entende nada.

Baixo Orcamento

Minha vida é um seriado de baixo orçamento

Juliana Barreto Tavares

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Sonho e escrevo em letras grandes

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