Idade das Trevas

Vamos pedir piedade, Senhor, Piedade.
Pra essa gente careta e covarde.

O período que sucede a queda do Império Romano é conhecida como Idade Média. Foi uma época tão sem graça que nem direito a um nome digno ela teve, afinal, média, mediano e medíocre, tá tudo mais ou menos ali.

Para aqueles renascentistas iluminados pela razão e super valorizando as artes e ciência dos povos antigos, um monte de gente isolada em feudos não parecia tão digno de uma boa história. Fosse a história que conhecemos contada por outros narradores, certamente saberíamos de outras nuances, outros aspectos e quem sabe então não escolheríamos a Média, como melhor. No fundo é sempre uma questão de ponto de vista.

Desconstruções das desconstruções à parte, a ação costuma ser mais popular. Basta ver os filmes, os livros mais vendidos e as conversas das pessoas. A vida na mesmice entendia até os mais tranquilos dos seres.

Saber da história de batalhas e expedições, de trincheiras ou caravelas, espionagem ou tecnologia traz muito mais Ibope do que falar de um povo temente e temeroso entre dragões e monstros, verdadeiros ou imaginados, que tinha no seu muro, o seu mundo.

Das histórias que contamos, das vidas que gostaríamos de viver, os roteiros elaborados, os cenários rebuscados, os melhores figurinos, são as coisas que verdadeiramente nos motivam a contar.

Entretanto, nesse seriado de baixo orçamento, quem manda é a vida real. A mesma vida que nos brinda com histórias mirabolantes, nos ensina o valor da escala. Na escala de um filme dura 15 minutos, de uma vida, alguns anos, para a história podem ser séculos.

Dividir esse seriado- de parca produção e super premiado nos defeitos especiais- é aceitar que algumas histórias valem mais que outras e que não existe poder de edição que consiga excluir os anos sombrios e tenebrosos que a vida contém.

Apaixonada pela razão ( e por roupas que hoje sei escolher melhor) e supervalorizando os fatos da idade antiga (eu era tão mais divertida criança ❤), a adolescência acaba virando esse tempo nebuloso em que parece que nada de muito importante aconteceu.

Ver o seu império de segurança desmoronar leva a construir castelos e fortalezas, protegendo de tudo e todos. As ameaças, que começam reais, acabam se dissipando com o tempo e na mesma medida que perdem a força externa, vão crescendo internamente.

Cada um nomeia a sua Queda de Constantinopla à maneira que lhe convém, mas os dragões ( que quase sempre eram só moinhos de vento) acabam atacando todos os reinos. Nessa história nossa, nos encastelamos como princesas perdidas em torres e vestimos também o papel de cavaleiro em Cruzadas contra nós mesmo.

Essa fase pode não ser tão empolgante como conhecer novos mundos, nem tão rica quanto criar formas de controlar a natureza. Mas apesar dos pesares, ela tem os seus encantos, ainda que presa em quartos escuros, amores platônicos e conversas apenas virtuais. Ela é mais que uma fase de transição, ela tem exatamente o valor que tem, porque sem ela seríamos menos nós.

Acaba por ser sempre uma questão de recorte, o mundo é muito mais do que aquilo que resolvemos catalogar. A vida é muito mais do que o fluxo narrativo que resolvemos adotar aleatoriamente.

Eu renascentista que sou, acabo valorizando mais a Idade Antiga. Eu, ansiosa que sou, quero que chegue logo na parte legal dos mundos novos e dos encontros interessantes.

Na escala de uma publicação semanal, as partes chatas se reduzem a um post.

Ia ser tão bom se na vida pudesse ser assim.

Pule pro próximo e seja feliz.