Baixo Centro, uma história recente

Dia desses, um pessoal de São Paulo chegou até a mim querendo entender um pouco mais do que rolava no centro de Belo Horizonte. “Espera, como assim uma praia? Mas é durante o carnaval? Fica perto da tal varandinha do Maletta?”. Era uma turma da pesquisa, munida de interrogatórios. Resolvi então contar um frame dessa história, justamente aquela parte responsável por eu fazer as pazes com o centrão do Belô, que não me tratou lá muito bem quando cheguei à cidade, mais de 10 anos atrás.

Vou começar do momento em que percebi uma mudança na área. Apesar da revitalização de alguns espaços públicos e ruas do entorno da Praça Sete, não consigo lembrar de um marco oficial ou um grande projeto da prefeitura instituindo este movimento de reocupação criativa e cultural que surgiu nos últimos tempos. Dou à população o mérito total disso.

Praça da Estação | foto: Wilson Leonel

O Edifício Maletta foi um dos primeiros sinais desta mudança, quando a Quina Galeria abriu as portas na varanda do 2º andar, junto de um café, o Arcângelo. Depois vieram escritórios de arquitetura, lojas e muitos bares, criando um contraponto muito interessante no local: o térreo continuava boêmio e tradicional e a parte de cima recebia os moderninhos (digo isso sem nenhum tom pejorativo, só quero evitar o uso da palavra tribos), em um ambiente bem democrático.

Varanda do Maletta | fotos: Mambembe Arts & Crafts e
Gulherme Vilela

Corta para a prefeitura. Em um certo dia, saiu de lá a “brilhante” ideia de proibir eventos de qualquer natureza na Praça da Estação. Em resposta, a população vestiu seus melhores trajes de banho, chamou um caminhão-pipa e desceu até à Praça para fincar a bandeira (e o guarda-sol) da Praia da Estação. A adesão a esta ocupação do espaço público foi tão grande que a prefeitura voltou atrás na decisão e a Praia já dura mais de 5 anos e, geralmente, sua maré sobe mais durante o verão.

Bloco da Praia | foto: Circuito Fora do Eixo

E a partir disso, várias iniciativas e movimentos surgiram ou migraram para o centro. O centoequatro, um galpão de uma antiga fábrica de tecidos, transformou-se em espaço de shows, cafeteria, galeria de arte e cinema bem em frente à Praça da Estação. Teatro? Também, com o Espanca!, grupo de teatro experimental premiadíssimo que transferiu sua sede para a Rua Aarão Reis (reduto roots dos botecos copo-sujo). Nessa mesma rua surgiu o bar/casa de shows Nelson Bordello que hoje deu lugar ao BAIXO Centro Cultural. As disputas do Duelo de Mc’s também ocorrem nesta região, debaixo do Viaduto Santa Tereza (cartão postal de BH). E até um time de futebol de mulheres, o BAixo BAhia Futebol Social, bateu um bolão por ali.

centoequatro e Duelo de Mc’s | foto: Fora do Eixo
Teatro Espanca (foto: azucrina) | Rua Aarão Reis, hipercentro BH (foto: Ninja Mídia)

Em paralelo a estes movimentos sociais e culturais, o cenário empreendedor começou também a dar as caras de uma maneira não convencional. Muitos criativos, incluindo aí uma leva de ousados recém formados, começaram a se juntar e abrir seus pequenos escritórios e coletivos. Era perceptivo a necessidade de reinventar o mercado, ainda bem conservador. E essa energia foi ganhando força e transbordando em outros bairros.

Colaboração, parceria, ideias abertas e jogadas à mesa eram as novas regras do jogo. Surgiram então o Restaurante Popular, A Laje, o Galpão Benfeitoria, a Salumeria Central, o Mercado das Borboletas, só para citar alguns das redondezas. Destes, muitos cresceram, outros encerraram as atividades, mas todos abriram as portas para mais iniciativas colaborativas que compartilhavam de uma mesma vontade: derrubar barreiras e transformar Belo Horizonte em uma cidade mais diversificada.

Ah! E como deixar passar o carnaval de rua? Ou melhor, deixa passar e chama todo mundo para sentir essa energia. De uns 3 ou 4 anos pra cá ele ganhou força sem apoio governamental e conquistou muitos adeptos, até este que vos fala, pouco chegado à folia de rua. Em 2015, o carnaval despertou tanto interesse (inclusive de grandes empresas) que a população precisou, mais uma vez, lutar para manter a festa de posse do povo e não das empresários oportunistas ou prefeitura. Esse pessoal maravilhoso (figuras importantes do carnaval de BH que participam ativamente da festa muito antes deste sucesso todo), explicaram aqui neste programa de rádio o papel social do carnaval como engrenagem de integração e ocupação pacífica do espaço público em Belo Horizonte.

Carnaval de BH | fotos: Fora do Eixo

Ok. Essa história já dava um curta. Melhor encerrar esta declaração de amor camuflada em texto informativo dizendo que BH é isso, uma cidade que hoje propicia encontros e crescimentos. Seja pela proximidade dos bairros ou por sua gente aberta à troca, parece que agora estamos no caminho certo de definir uma identidade própria, sem copiar as capitais vizinhas. Temos uma vocação natural para a integração criativa de espaços e de pessoas. Entenderam, paulistanos, cariocas, recifenses? Vocês são ótimos, mas queremos mostrar a nossa cara. Mas podem vir que ainda tem cafezim e pão de queijo.