
Sobre (im)perfeições belo-horizontinas
Uma pequena coletânea de transformações coletivas
Beagá está longe de ser perfeita. Se há quem ache do que reclamar, eu diria que dá até para ser grato por essas imperfeições. Não é que problemas no trânsito ou casos de violência sejam para serem vistos com bons olhos — até Pollyanna tem seus limites para o jogo do contente. Mas como diz o ditado, é mesmo nos momentos de tempestade que conhecemos o bom marinheiro.
É que se tem gente que fica feliz cuspindo raiva e batendo panelas, tantas outras arregaçam as mangas e vão à luta para ser a transformação que desejam no mundo e na cidade. Daqueles que apontam pra onde querem chegar, vão remando e juntando pessoas pelo caminho. Se Belo Horizonte já arrasa com a inovação tecnológica das startups do San Pedro Valley, a inovação social por aqui não parece fazer por menos: e em todas as áreas imagináveis.
No quesito de interferência no espaço urbano, estamos brilhando. O Oásis Belo Horizonte, por exemplo, já está aqui desde 2009. O projeto funciona no formato de um jogo coletivo, que mobiliza pessoas para materializar sonhos nos espaços físicos utilizados pelas pessoas. Já rolou revitalização de escola, praças e até a escadaria atrás do metrô que leva até a rua Sapucaí.

O pessoal do Vestíveis Urbanos também transforma espaços envelopando árvores e mobiliário urbano com tramas de crochê. A ideia desse coletivo é usar essas técnicas artesanais para estimular os sentidos de quem interage diariamente com o cenário urbano e transformar as coisas comuns em experiências estéticas. E não dá para deixar de lado as intervenções do Mulambo Coletivo, que misturam expressões artísticas com uma pegada política.

Quando o assunto é valorização de artesanato e produção local, tem gente batalhando para mudar a forma como as pessoas se relacionam com o assunto. O Raízes estimula o desenvolvimento sustentável e um de seus muitos projetos é a organização de passeios turísticos para valorização de artesanato de outras comunidades, como as do Vale do Jequitinhonha. O Instituto Mani segue a mesma pegada, com produtos e serviços focados no empoderamento de comunidades de artesãos. E não dá para esquecer da De-Lá, a loja que reúne produtos artesanais de diversos cantos do estado e já recebeu homenagem do Beagá Cool.
Partindo para as mais variadas motivações, encontramos negócios como a Risu , plataforma de compras online que reverte parte do faturamento de cada compra para uma instituição social escolhida pelo comprador. Também tem a iniciativa da Fa.Vela, uma aceleradora de negócios que apoia moradores de comunidades de baixa renda em BH, um projeto financiado coletivamente.

O Business Jam também apoia sonhadores com metodologias de design de negócios, para transformar projetos em empreendimentos. Ainda tem a comunidade Global Shapers, que movimenta diversos projetos para fomentar mudanças sociais na nossa cidade. Uma das iniciativas deles é o Café Social, que promove bate papos para inspirar e conectar pessoas que acreditam no poder transformador.
Seria possível transformar essa pequena coletânea em um catálogo e as iniciativas transformadoras na cidade ainda não se esgotariam. Isso mostra o quanto estamos dando show quando o assunto é construir uma BH mais inclusiva, bonita e melhor. Então quando bater aquela tristeza porque alguma coisa podia ser melhor na nossa cidade, vale lembrar que a mudança que a gente deseja pode acontecer. Vale se juntar a qualquer um desses projetos, contribuir para um financiamento coletivo e — por que não? — começar um novo projeto transformador. A comunidade já está aí, é só se juntar a ela.
Depois desse pequeno passeio, dá para pensar que talvez uma cidade perfeita não tenha tanta graça. É com as imperfeições que temos a oportunidade de construir, em conjunto, nossas próprias utopias na forma de realidade.