
O mundo da ilusão e a maquilhagem profissional
Hoje em dia o mundo da maquilhagem banalizou-se e foi retirada a devida importância desta área, devido à forma leviana como é apresentada às gerações vindoiras , assim basta abrirmos um vídeo no instagram, ou no youtube e todas são MUA, onde “ensinam” e educam erradamente o consumidor.
Por um lado, sinto-me feliz por existir uma consciência do que é a maquilhagem para o consumidor, e que este sente a necessidade de procurar marcas, compreender o que realmente lhe fica bem e que isto lhe aumente a sua autoestima, mas, por outro lado, temos o lado que mais me preocupa que é a sua banalização, ou seja qualquer pessoa que compre uma paleta… um batom é um maquilhador, e não um consumidor que compra maquilhagem e que se maquilha.
Assim temos uma pessoa que se apresenta como profissional aos olhos do público, e que sem bases nem estudos vai debitando conceitos completamente errados e desadequados.
Antes das redes sociais o consumidor apenas utilizava o seu produto e ia aprendendo, tentado depois replicar maquilhagens que via em revistas, hoje em dia este pública no imediato, como dado adquirido de conhecimento, sem bases e sem qualquer tipo de conhecimento. Não existe uma vontade de evolução e de aprendizagem, apenas um meio para alcançar fama e dinheiro, por ser um rosto bonito.
Para mim e para as minhas colegas do meio, a profissão de maquilhagem deveria ser regulamentada e devidamente certificada, onde teria de existir uma padronização de qualidade, em que cursos ditos de maquilhagem profissional não deveriam decorrer com cargas inferiores de 90 horas (para mim até deveria ser mais) todos os cursos com carga horária inferior não poderiam ser chamados de maquilhagem profissional e dada a certificação.
Se queremos formar profissionais de qualidade temos de fornecer-lhes ferramentas e espaço para que possam aprender e evoluir, certamente como em muitas áreas criativas a prática leva-nos à perfeição, com ela desenvolvemos novas capacidades e técnicas e sem dúvida que crescemos enquanto profissionais. É preciso bases e ensinar com rigor e exigência, como podemos formar um maquilhador sem lhe ensinar a teoria da cor? Sem que este perceba diferentes fisionomias de um rosto?
Esta geração de novos “maquilhadores” é a chamada do vale tudo, eles não têm bases, não percebem o essencial , nem sequer sabem o porquê de não poder usar unhas longas se for um maquilhador, por exemplo, mas o que vale é que tem jeitinho para a coisa e compram maquilhagem duvidosa, dita contrafeita, pois o que importa é ter o nome da última paleta e ter muito iluminador no nariz, é o sermos todos Kardashian porque está na moda, é desrespeitar colegas da profissão para conseguirem mais visualizações e mais likes….
O Maquilhador não é uma moda é uma profissão, nós enquanto profissionais estamos a lidar diretamente com a saúde e bem-estar do consumidor e é da nossa responsabilidade a sua segurança.

Quem está no meio sabe que existe cada vez mais (infelizmente) a proliferação de doenças contagiosas que poderiam ser facilmente evitadas, tais como herpes, alergias, bactérias, reações alérgicas, entre outras, porque muitos se desleixam e já não se preocupam em desinfetar, gostam de soprar para o pincel, rosto do cliente, o batom que foi agora utilizado diretamente na cliente vai de imediato para a boca de outra… Parece uma cena de terror, mas é a realidade, se não nos educarmos enquanto profissionais, então nunca seremos reconhecidos como tal.
Este tipo de procedimentos não são corretos nem éticos e mostra a leviandade com que esta profissão é levada, por estes ditos profissionais, assim se queremos que a maquilhagem profissional seja reconhecida em Portugal devemos limar estes problemas e ser cada vez mais responsáveis e rigorosos com os nossos comportamentos.
Educar o cliente
A educação do cliente também faz parte da profissão, cabe-nos educar corretamente e mostrar-lhe a forma correta de fazer/dizer, por exemplo, se o cliente menciona que usa rimmel, devemos o corrigir e mencionar então qual a sua máscara de pestanas, e só depois explicar que rimmel é um conceito errado, pois refere-se a uma marca e não ao produto em si. Quando os educarmos fazemos com que o consumidor também cresça e adopte bons comportamentos ao nível da maquilhagem.
O mundo em rede
O maquilhador deve estar ligado/conectado socialmente, é quase obrigatório que observemos o que se passa lá fora e cá dentro e perceber quais as próximas tendências.
Se me perguntarem quais são os youtubers/influencer que sigo, eu rio-me, porque de facto eu não os sigo, apenas estou atenta ao que dizem, porque sem sombra de dúvida eles não são profissionais da área, mas são líderes de opinião para o consumidor e este confia erradamente nos seus conselhos (como tudo há sempre bons e maus conselhos). Existem influencers que se preparam e recebem guiões da própria marca — tenham em mente que eles não falam para clientes, eles são produtos de marketing, com uma audiência segmentada, onde a sua função é falaram para aquele target trabalhando com marcas, em que estas fornecem os press kits para estes fazerem reviews, é sem dúvida um win win de ambos os lados. — Posto isto, sigo sim maquilhadores profissionais onde o trabalho que desenvolvem-me inspiram sejam portugueses ou internacionais, aqui dou relevância ao conteúdo, porque eles sabem do que falam e estão dentro do meio.
Não se esqueçam que maquilhadores profissionais e influencers são diferentes — em que o segmento, conteúdo e relevância não tem nada a ver.
Não nos devemos deixar influenciar por modas, mas sim antever as tendências e estar atualizados a novos produtos, materiais e técnicas. Isto sim vai acrescentar valor ao que eu sou enquanto profissional, outro aspeto importante é a interajuda entre profissionais, devemos sempre ajudar os nossos colegas maquilhadores, nunca caiam no erro de magoar e maldisser do outro, o mundo da maquilhagem é um meio pequeno e todos se conhecem e é lamentável que o façam.
Seguir o trabalho de maquilhadores profissionais é essencial, bem como ler e ver e estar constantemente atualizado.
Se estás a ler este texto e gostarias de ser maquilhador(a) profissional não vou mentir… é um caminho longo árduo e que depende da tua entrega enquanto artista, aqui neste mundo vivemos cheios de entrega, mas também de muito sacrifício… suor, lágrimas e muitas noites mal dormidas, mas como tudo na vida lutamos e batalhamos e festejamos as pequenas vitórias.
Não desanimem se tentaram fazer um tutorial e não ficou nada igual… é normal que isso aconteça a técnica tem de ser desenvolvida, temos de adaptar o que vemos à nossa fisionomia e características do nosso rosto.

