Cenário cultural de BH encontra fôlego com o crowdfunding

Alguns artistas já optam pelo modelo de financiamento coletivo frente aos empecilhos da área

Banner da campanha de financiamento coletivo da Djalma Não Entende de Política

O modelo coletivo de financiamento de projetos vem ascendendo no Brasil, e, falando em projetos culturais, Belo Horizonte está dentro de um cenário promissor desse avanço. Fatores como a escassez de incentivos estatais, a regulação e a baixa valorização da cultura apontam como principais na demanda, por parte dos artistas, pelo crowdfunding. O modelo surge, então, como válvula de escape para a produção cultural mineira nos últimos anos.

Falando de maneira bem simplificada, o financiamento coletivo nada mais é do que uma ‘vaquinha’, como conhecemos à brasileira — juntar um tanto de dinheiro coletivamente para um propósito comum. A diferença é que agora a prática está evoluída: há plataformas virtuais que aproximam o financiador do realizador do projeto, possibilitam o conhecimento de diferentes projetos e facilitam a contribuição; há uma meta à qual o realizador precisa alcançar; há uma enorme campanha de divulgação; e há brindes de recompensa quando alguma quantia é doada.

De um modo geral, em um cenário de gradual mudança de modelos econômicos, diversos projetos têm encontrado o crowdfunding como alternativa viável para seus lançamentos. De acordo com uma pesquisa feita pela Catarse, uma das maiores plataformas de financiamento coletivo do Brasil, a identificação com a causa do projeto é o principal fator que importa para os doadores na hora do financiamento. Alguns casos, como o do refugiado sírio que queria ajuda para abrir restaurante em São Paulo (SP), ficaram famosos no que se refere a esse apoio.

Manoela Folador, 20, estudante de Comunicação Social, é um exemplo disso. Ela financiou duas vezes a revista feminista online AzMina e explica o porquê: “A parte que eu ajudei a financiar eram bolsas de reportagem para jornalistas mulheres que escrevem para o site. Sendo da área, a gente sabe o quanto é sofrido tentar empreender um projeto desses.”

O crowdfunding e a cultura

A área das artes é, segundo a pesquisa da Catarse, a ocupação profissional de 22% dos realizadores de financiamento coletivo. Essa é a área de maior percentagem da categoria, seguida da produção cultural, compondo a profissão de 11% dos realizadores de crowdfunding. A mesma pesquisa ressalta que projetos artísticos e culturais independentes são os que 52% das pessoas mais têm interesse em financiar. Esse cenário evidencia os projetos culturais como protagonistas do financiamento coletivo no Brasil.

Por que a cultura? A situação da produção cultural brasileira tem passado, por anos, por certa crise, causada por leis de incentivo extremamente escassas, burocráticas e que não privilegiam pequenos artistas; pela regulação social e empresarial da arte, que impede que esta seja produzida em sua completude; e pela baixa valorização cultural que faz parte da tradição brasileira.

Essas adversidades são, em grande parte, eliminadas no financiamento coletivo por excluir mediadores: o crowdfunding possibilita o contato direto entre apoiadores e realizadores, trazendo a independência para o artista em seus lançamentos. A partir daí, cria-se uma produção artística completa, com mais apoio de público e menos amarras.

Os artistas LGBT são uns dos que mais sofrem resistência no meio tradicional de produção cultural — mediado por empresas, editoras, gravadoras, etc. — quando planejam realizar algum projeto que envolva a temática. Por uma foto no Instagram, Gui Poulain, escritor, culinário e dono do blog Moldando Afeto, conta a regulação que teria que sofrer ao publicar um novo livro: “aos 28 [anos], uma editora disse que só publicaria o @cartasamarelas se eu retirasse qualquer conteúdo gay do livro.” Na mesma legenda, completa o desfecho após o financiamento coletivo: “aos 29, publiquei-o sem editora, na íntegra.”

Esses empecilhos foram o principal fator que fizeram Thayse Menezes, 23, física e estudante de Comunicação Social, contribuir com a publicação do livro de Gui — aliado, também, a seus gostos pessoais. “Gosto muito de livros, especialmente de culinária. Então, ajudar aquele projeto uniu, para mim, o útil ao agradável”, explica.

O Chicos, um projeto declaradamente gay que mescla o audiovisual nu a histórias pessoais, também nem cogitou a procura de uma editora formal para o lançamento de seu livro. Rodrigo Ladeira e Fábio Lamounier, idealizadores do projeto, dizem que duvidam “que alguém ia querer lançar um livro com um monte de homem pelado”. Conseguiram, pelo crowdfunding, arrecadar 33 mil reais e lançar o livro independentemente. O lançamento, inclusive, foi no dia 31 de agosto em Belo Horizonte, na Benfeitoria, e, em São Paulo, está marcado para o dia 10 de outubro, no Elevado.

Além da independência, uma das vantagens que o financiamento coletivo tem trazido é a aquisição de novos públicos durante a campanha de divulgação. Marcelo Veronez, mineiro que está lançando coletivamente seu primeiro álbum solo, ‘Narciso deu um grito’, conta que “gente de São Paulo, do Amapá, de Brasília, de Salvador, do interior do Maranhão, do Pará veio mandar mensagem falando que contribuiu com o projeto”.

O crowdfunding em Belo Horizonte

A cidade de Belo Horizonte está inserida no sudeste, região do país onde estão 63% dos financiadores. Em relação ao financiamento cultural, duas plataformas belo-horizontinas são específicas para o caso: a Variável5 e a Evoé Cultural. Uma maior abrangência de projetos de cunho artístico pode, então, ser abordada com especialidade no financiamento coletivo.

67 projetos culturais de Belo Horizonte optaram pelo financiamento coletivo mediado pela plataforma da Variável5. Desses projetos, 39% são de música. Veronez faz parte dessa percentagem e, para ele, falar de crowdfunding cultural é falar de política: “enquanto o financiamento público governamental não funcionar direito, temos que financiar nossos próprios projetos.” O cantor excedeu sua meta de 35 mil em 2,6 mil reais.

A banda Djalma Não Entende de Política também abriu, pela segunda vez, o financiamento coletivo de um novo projeto. Carol Abreu, percussionista, falou sobre a opção da banda pela Variável5 na produção do CD ‘Apesar da crise’: “Sabemos que a Catarse é a mais famosa e que pode dar maior visibilidade ao projeto, que a Benfeitoria [que não é o galpão de BH] tem uma cobrança de hospedagem flexível, mas optamos pela Variável por valorizar BH; são pessoas que estão lutando como nós, no mesmo cenário em que nós estamos”.

Em um rápido balanço feito pela Variável5, desde sua fundação em 2012,

67 projetos entraram na plataforma;
39% dos projetos são de música;
23% dos projetos são de teatro;
14% dos projetos são de publicações;
11% dos projetos são de espaços culturais;
5% dos projetos são de fotografia;
3% dos projetos são de cinema;
76% dos projetos alcançaram a meta estabelecida;
R$596 mil reais foram arrecadados.

Desafios do crowdfunding

Para Jussara Vieira, responsável pela Comunicação da Variável5, “incentivar e ampliar a cultura do financiamento coletivo é muito importante e o maior desafio”. Sobre isso, Carol, da Djalma, diz que “Belo Horizonte especificamente ainda carrega uma questão de conflitos de gerações e tradicionalismo que impendem a rápida expansão do crowdfunding”. Rodrigo, do Chicos, menciona o mesmo fato, ressaltando a tarefa árdua e diária que era a divulgação na época da campanha.

A pesquisa da Catarse fortalece a ideia da dificuldade de ampliação de público. Ela mostra que a maior parte dos financiadores tem, com percentagens discrepantes, de 25 a 30 anos, ensino superior completo, renda mensal de 3 a 6 mil reais mensais e atua nas áreas de Comunicação & Jornalismo, Administração & Negócios, Web & Tecnologia e Artes. Ou seja, ainda há uma restrição de públicos — o que Carol denominou precisamente de ‘bolha’ — que evidencia a necessidade de expansão do conhecimento sobre o crowdfunding.

Em relação aos realizadores, Jussara atenta que “é preciso incentivá-los a se prepararem da melhor forma possível para realizar a gestão da campanha de seus projetos”. A Djalma, por exemplo, aposta no estilo debochado, característico da banda, para lançamento de vídeos pontuais nas redes sociais. Além disso, antes mesmo de lançar o projeto, a banda se reuniu com diferentes perfis que a apoiam para discutir a campanha e ver diferentes opiniões. “Isso até fez com que a gente acrescentasse uma recompensa”, disse Carol. Já os Chicos tinham um trabalho diário nas redes sociais, lembrando seu público que ele ainda podia contribuir com o projeto.

Na visão de Bruno Fonseca, jornalista que já realizou um financiamento coletivo pela Agência Pública de reportagem e jornalismo investigativo, tais inovações nas campanhas podem ser o principal meio de fazer o crowdfunding se perpetuar como forma de financiamento. “Já que está relativamente comum, acho que será cada vez mas difícil convencer as pessoas a doarem e vamos precisar de pensar em novas formas de recompensas e de marketing das campanhas”, observa.

Mesmo com os desafios, uma opinião comum é que o financiamento coletivo facilita o lançamento de projetos e só tende a crescer se realizado de boa maneira. O crowdfunding é uma nova forma de economia que ainda está nascendo, mas que, especialmente na área cultural, já tem sua importância. Jussara Vieira observa: “existe uma efervescência cultural que sempre foi e sempre será constante em BH e região metropolitana; isso fica ainda mais forte, acredito, a cada vez que o público se envolve para apoiá-la.”

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Texto escrito em colaboração para o blog da benfs.

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