É um longo caminho até o topo (se você quer ser um político)

O “nascimento” de candidatos e suas trajetórias de sucesso ou fracasso na tentativa de serem eleitos

*Com colaboração de Lucas Girardi Ott

A cada dois anos, novos e antigos nomes tomam a mídia e as ruas em campanhas eleitorais. Celebridades da televisão, ex-jogadores de futebol, jornalistas, médicos, advogados, professores, empresários e os mais variados profissionais e não-profissionais tentam concorrer a vagas de cargos políticos. Será que é fácil se candidatar? Segundo a Constituição Brasileira, há apenas seis exigências, confira:

Fonte: Constituição da República Federativa do Brasil — Art. 14 § 3º.

Enquadrando-se nestas condições, o passo seguinte é informar ao partido filiado que você deseja se lançar candidato. O processo básico é este.

Edson Portilho, filiado ao PT desde 1987 e atualmente presidente do partido na cidade de Sapucaia do Sul, explica que o processo para se lançar candidato requer trabalho. “Não basta apenas chegar aqui, filiar-se e começar a campanha. São necessárias várias reuniões para conhecer a pessoa e suas ideias.”

Portilho afirma que muito antes do período de campanha é preciso mostrar-se ao partido. “Anos antes da eleição a pessoa precisa militar, engajar-se com os problemas da comunidade e principalmente estudar e aceitar as lutas do partido. Há uma equipe que avalia a participação e a trajetória do indivíduo”.

Todo este processo é necessário, pois, segundo Portilho, há muita gente que após ser eleita, esquece da política da sigla. “Durante o processo de aprovação de candidatos, o mais importante é conhecê-lo e colocá-lo de acordo com a linha partidária para que ele não vire as costas para seus eleitores depois”, salienta.

Enfim, cada partido possui suas peculiaridades e sua candidatura depende da aprovação de comissões. É preciso entrar em contato com seu partido e negociar sua campanha, respeitando normas internas.


Estratégias de campanha

Cargos de presidente, governador, senador e prefeito ganha quem tiver mais votos. Porém, as vagas de deputados e vereadores são calculadas através do sistema proporcional. A cada eleição varia o número de vagas para os partidos. O site do Tribunal Superior Eleitoral ensina como calcular o quociente eleitoral.

Este sistema resulta em um cenário em que há diversos representantes de um partido e poucos — ou às vezes nenhum — de outros partidos. Por exemplo, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, há 55 deputados estaduais. Destes, 11 são do Partido dos Trabalhadores (PT). Já os partidos REDE, Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Verde (PV), Partido Pátria Livre (PPL), Partido da República (PR), Partido Republicano Brasileiro (PRB), Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Popular Socialista (PPS) possuem um representante cada um. Veja a relação completa no site da Assembleia aqui.

O deputado João Reinelli é médico e possui uma carreira dedicada à saúde e defesa das causas ambientais. (Foto: Assessoria de Comunicação e Marketing do Deputado João Reinelli / Divulgação).

O deputado estadual João Reinelli, do PV, candidato eleito com menos votos na última eleição, comenta como chegou à vitória: “Durante a última campanha, fizemos a estratégia de ter todas as vagas a candidaturas possíveis preenchidas. Assim, com quase noventa candidatos, conseguimos ultrapassar o quociente eleitoral assegurando uma cadeira para mim com apenas 9.098 votos”.

Na época, o quociente eleitoral era de 111.078 votos e a coligação União Verde Ecológica Cristã, entre Partido Social Cristão (PSC), Partido Ecológico Nacional (PEN) e Partido Verde (PV), somou 112.409 votos no total. Isto garantiu que o candidato mais votado entre esses partidos fosse eleito, no caso, Reinelli. Segundo ele, para as eleições de 2018, o PV pretende utilizar esta mesma estratégia de campanha.

Por ser o único de seu partido na Assembleia, Reinelli diz que a dificuldade é não ter nenhum representante na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) . “Isso dificulta muito a tramitação dos projetos de lei de minha autoria. A forma de remediar este inconveniente é manter uma boa relação com os colegas deputados, não entrando em disputas desnecessárias, para que, com diálogo, consiga apoio”.

Outra estratégia comum que alguns partidos utilizam para atingir vagas nas câmaras e assembleias é lançar políticos “puxadores de votos”, ou seja, pessoas famosas e já conhecidas da população que conseguem muitos votos. Estas personalidades são eleitas e acabam possibilitando que outros candidatos do partido, com menos votos, sejam eleitos também.


O aprendizado da derrota nas urnas — A Beta entrevista André Machado

André Machado foi candidato a deputado federal nas eleições de 2014 pelo PCdoB. (Foto: Anderson Guerreiro).

O jornalista André Machado afirma que quem deseja ser candidato precisa estar preparado para enfrentar inúmeras dificuldades ao longo da campanha política. A organização da campanha, segundo ele, é um processo difícil que se aprende ao longo do caminho. “Quem pretende disputar um cargo público precisa estar ciente que vai sofrer e se decepcionar, mas ao mesmo tempo vai crescer muito se decidir fazer uma campanha limpa e realmente ouvir o que as pessoas têm a dizer”, destaca.

Para Machado, os candidatos possuem autonomia para organizar as ações de suas campanhas, ainda que a verba disponível interfira diretamente. “Minha campanha arrecadou pouco menos de 300 mil reais, o que é relativamente pouco se comparado a outras que conseguiram mais de um milhão, por isso deixei de ter um pouco da autonomia”, salienta.

O processo de transformação que o Brasil atravessava antes mesmo das eleições de 2014 foi a maior motivação para André deixar o jornalismo e dedicar-se à política. “Sempre gostei muito da política e tive vontade de participar do processo político, especialmente depois que ganhei o título de honra ao mérito da Câmara de Vereadores de Porto Alegre”. Em 2012, houve o convite do próprio PCdoB e do PDT para concorrer a vereador, que na época fora rejeitado.

Na período que antecedeu as eleições de 2014, André Machado foi procurado por diversos partidos. No final a escolha ficou entre o PDT e o PCdoB. O lançamento da candidatura ao senado pelo PDT do também jornalista Lasier Martins, defensor de pautas mais conservadoras, aliado à simpatia pelo trabalho desenvolvido na Câmara Federal por Manuela D’Avila foram preponderantes para optar pelo segundo.

Manuela D’Avila e André Machado em campanha eleitoral em 2014. (Foto: Anderson Guerreiro).

A decisão em concorrer a deputado federal veio no final de outubro de 2013. “Após a Manuela me falar que se lançaria para estadual, acabei aceitando o convite que ela me fez, abrindo assim espaço para o partido me apoiar para federal. Ela acabou me convencendo do projeto do PCdoB e da minha oportunidade em obter êxito nas eleições concorrendo pelo partido”, revela.

Apesar de na época a opção pelo PCdoB parecer mais adequada, Machado assinala a escolha como um dos fatores determinantes para não ganhar um lugar na câmara dos deputados. Ele observa que ingressou em um partido que imaginava ideológico, mas que trabalhou com um enorme pragmatismo, não concretizando muito do que havia sido conversado sobre sua candidatura. Se pudesse fazer algo diferente do que fez, não teria concorrido pelo PCdoB. “ Não pela sigla em si, mas muito mais pelo preconceito que as pessoas tem pelo partido que carrega a foice e martelo na bandeira. De alguma maneira, por isso minha candidatura foi rejeitada por uma parcela considerável do eleitorado”, avalia. Machado diz que as pessoas não olham a plataforma, não observam as propostas e o discurso e se prendem a estereótipos. “Era como se quem está lá fosse defensor de coisas historicamente reprováveis. Tenho o ideal de uma sociedade mais justa, é por isso que havia escolhido o PCdoB assim como poderia ter escolhido outro partido”, conclui.

Ao ser questionado sobre as relações pessoais que se criam quando se está envolvido na política, o jornalista aponta semelhanças com os demais setores da sociedade, “Como em tudo na vida, convivi na política com pessoas muito bacanas, pessoas interesseiras, pessoas que depois se transformaram em amigos e pessoas que pareciam ser minhas amigas mas que na verdade estavam defendendo seus próprios interesses. Creio que isso é uma síntese do que acontece também fora da política, não algo exclusivo do meio”.

Apesar da derrota nas urnas, Machado não se arrepende de ter se lançado candidato. (Foto: Anderson Guerreiro).

Hoje, Machado se diz tranquilo em não fazer parte de um Congresso Nacional marcado por escândalos recorrentes de corrupção. “Cresci demais nesse processo. Ter tido a possibilidade de disputar uma eleição, discutir pautas e estar nas mesas de debate com pessoas importantes do estado do Rio Grande do Sul me fez muito bem. Nem sempre não ser eleito significa de fato uma derrota. Ter feito quase 30 mil votos pelo partido que concorri e nas condições que fiz foi um grande ganho”, avalia.


Novos rumos de candidaturas políticas

Segundo matérias da Beta Redação, debates avançam sobre candidaturas avulsas (sem partido), além do surgimento de novos partidos políticos e da repaginação dos já conhecidos. Também busca-se uma renovação da discussão política através das frentes políticas, que estimulam ativismo na internet.

O partido NOVO possui alguns diferenciais para lançar seus candidatos. Registrado no TSE no final de 2015, é o único a não utilizar a verba do Fundo Partidário nas campanhas. Segundo o site da legenda, o montante é aplicado em uma conta no Banco do Brasil enquanto procuram uma maneira de devolver ao Tesouro Nacional. A campanha é custeada pelas mensalidades dos filiados e por meio de doações. Para lançar uma candidatura pelo partido, depois da filiação é necessário passar por um processo seletivo que envolve prova para checar a compatibilidade de ideias do candidato com o partido, um vídeo de apresentação, entrevista e análise de currículo. O candidato também precisa pagar uma taxa que serve para custear esse processo.

Logotipo do Partido NOVO. (Foto: NOVO / Divulgação).

Outros diferenciais são: a independência dos suplentes e vices, que são escolhidos em convenção de modo separado da candidatura ao cargo principal; a contribuição partidária mínima que é igual para filiados e candidatos eleitos; a proibição da candidatura para mais de uma reeleição consecutiva, além do comprometimento do candidato com um termo de compromisso de atuação legislativa prevendo metas a serem cumpridas.

Felipe Camozzato em sessão na Câmara. ( Foto: Henrique Ferreira Bregão/CMPA).

Eleito vereador em Porto Alegre na primeira disputa tanto dele quanto do partido à câmara municipal com 10.488 votos, o administrador Felipe Camozzato (NOVO) é co-fundador do partido na capital gaúcha. Ele diz que a ideia do NOVO é lançar cidadãos comuns, mas, por ter passado apenas por uma eleição, acha difícil colocar isso como uma sistemática. “O fato de sermos todos comuns e iniciantes na política fez com que fizéssemos a campanha em time. Fazíamos eventos em conjunto, quando abordávamos alguém que já ia votar no Novo mas em outro candidato, em vez de tentar convencer, agradecíamos pela preferência, já que o político do Novo é somente um canal por onde as ideias de liberdade se expressam e não acreditamos em salvador da pátria”, pontua.

Para Camozzato, o mais difícil da campanha política foi aprender a pedir votos. “Nunca imaginei fazer isso na minha vida”, admite. O vereador destaca também o companheirismo de seus apoiadores, que na maioria dos casos também eram doadores e voluntários na campanha, ajudando a espalhar o conteúdo nas redes e participando das ações de panfletagem. “Mesmo nos momentos de dificuldade, nos divertíamos enfrentando os desafios e descobrindo esse mundo das campanhas políticas”, lembra.

Segundo Felipe Camozzato, o Partido Novo deve ter candidato ao governo do Rio Grande do Sul nas eleições do ano que vem. O nome mais indicado é Mateus Bandeira, que foi CEO da Falconi (considerada a maior empresa de consultoria em gestão do Brasil), possuindo MBA em Wharton (EUA). “Apostamos na renovação total, as pessoas estão cansadas dos velhos partidos e dos velhos políticos”, conclui.

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