Mais da metade do eleitorado de São Leopoldo não possui ensino médio completo
Porcentagem é maior do que do país. Outra característica é o envelhecimento dos eleitores, também mais representativo
Cerca de 67,7% dos 166.292 mil eleitores de São Leopoldo não concluíram todas as etapas da educação básica brasileira. O eleitorado do município é marcado pelas mesmas características que percorrem o Brasil: baixo grau de escolaridade e eleitores com cada vez mais idade. Apesar disso, São Leopoldo apresenta evolução nas taxas de escolaridade em comparação a 2008.

Conforme números de 2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 32,8% dos eleitores leopoldenses não possuem ensino fundamental completo, 9,54% têm só o ensino fundamental completo, 20,14% apresentam ensino médio incompleto, 3,16% declararam saber ler e escrever e 2,06% são analfabetos. Somados, esses números alcançam 67,7% e representam a parcela do eleitorado que não concluiu o ensino médio.

No eleitorado nacional, o grau de escolaridade dos eleitores é maior do que em São Leopoldo. Ao todo, 60,02% dos brasileiros aptos a votar não finalizaram todas as etapas da educação básica. Em 2008, entretanto, a taxa era muito maior. A porcentagem de eleitores brasileiros que não haviam encerrado o ensino médio ficava em 81,68%.
No mesmo período, 2,62% dos eleitores de São Leopoldo eram analfabetos, 5,72% declaravam saber ler e escrever, 42,55% possuíam ensino fundamental incompleto, 10,25% tinham ensino fundamental completo e 18,04% não possuíam ensino médio completo. Esses dados totalizavam 79,18% do eleitorado em 2008. Comparado com a atual porcentagem de 67,70%, pode-se observar um aumento no nível de escolaridade.
Segundo análise da mestre em Sociologia Cláucia Piccoli Faganello, a evolução nos números demonstra um leve avanço nas políticas educacionais brasileiras. “Isso reflete o incentivo ao estudo da população socialmente excluída e a tentativa do Brasil de reduzir os graus de analfabetismo e alcançar os índices de formação propostos internacionalmente. Porém, tal incentivo só garante o ensino fundamental e médio para a população, ainda tendo entraves significativos para a chegada ao nível superior”, comenta.
Para o doutor em Sociologia Marcelo Rubin, os dados não reverberam diretamente na intenção de voto dos eleitores, mas significam um problema estrutural ainda maior. “Esses números refletem a característica brasileira de não acompanhar os números das economias que concorrem com a nossa. Esses números refletem um horror, que é o atraso estrutural do nosso país”, salienta.
Rubin ressalta que não é possível prever um perfil de voto dos eleitores com base no índice de escolaridade, visto que os motivos que levam ao voto são muito variados. “Você pode votar em alguém porque falta um prato de comida, asfalto ou educação. Mas você pode votar em alguém que é parecido com você, alguém que compartilha dos mesmos ideais, um gremista, sindicalista ou padre”, comenta.

Cláucia, por sua vez, completa que alguns motivos de escolha na hora do voto são mais acentuados na realidade de pessoas com baixo grau de escolaridade. “Alguns elementos que levam os cidadãos a escolherem os seus candidatos são a simpatia, o contraponto ao posto como política vigente e as soluções milagrosas propostas, ou seja, elementos que trazem esperança em cenários de total abandono e extrema vulnerabilidade social, nos quais vivem a maioria dos cidadãos com menor grau de instrução”, afirma.
Eleitores cada vez mais velhos
Seguindo o mesmo ritmo que a pirâmide etária brasileira, os eleitores de São Leopoldo tendem a se tornar, em maioria, mais velhos.

Atualmente, pessoas de 45 a 69 anos representam 37,81% do eleitorado, enquanto jovens de 18 a 20 anos somam apenas 4,28%.
Em 2008, 6,56% tinham de 18 a 20 anos, já a parcela de eleitores entre 45 e 69 anos chegava a 32,85%.
Em nível nacional, a realidade é semelhante. Jovens de 18 a 20 anos representam 5,21% das pessoas aptas ao voto. Eleitores de 45 a 69 anos, por sua vez, somam 35,45%. Assim como em São Leopoldo, a porcentagem nacional de jovens também era maior em 2008, chegando em 6,92%. Já a de pessoas com mais idade era um pouco menor, atingindo 30,08%.

Cláucia explica que o fato de o eleitorado estar cada vez mais velho pode refletir na escolha dos candidatos. “É no eleitorado com mais idade que encontramos resistência a pautas identitárias que vêm ganhando um espaço significativo no início do século XXI. Tal resistência foi elemento determinante para a eleição do Trump nos Estados Unidos e do Bolsonaro no Brasil. Ademais, o eleitorado mais velho também é o mais afetado pela rápida inserção da tecnologia como principal meio de comunicação e informação, visto que ainda possuem pouca adesão aos meios não hegemônicos e tendem a não conseguir identificar a origem das informações que recebem”, ressalta.
Para Rubin, entretanto, o fato de o eleitorado se tornar cada vez mais velho não significa uma ausência de renovação na política. Para ele, tanto os mais jovens quando pessoas de mais idade já estão reivindicando novas alternativas. “Vivemos uma profunda renovação dos centros de poder, dos partidos em especial”, destaca.
Diante do perfil do eleitorado atual, Rubin pensa que as próximas eleições devem ser marcadas pela pulverização dos partidos políticos. “Acredito que a maior tendência é a fragmentação dos votos e dos partidos vencedores. Acho que o PSOL e o PCdoB devem crescer no campo da esquerda. Na direita, haverá uma fragmentação, e ao centro, os partidos MDB, PT e PSDB devem perder terreno”, projeta.
Já Cláucia aposta em uma tendência direcionada aos partidos mais centrais. “O ciclo brasileiro à direita foi um dos últimos a começar e, vendo o atual cenário da América Latina, acredito ser possível que essa guinada à direita seja mais curta do que prevíamos. Nesse cenário, a minha aposta para as eleições de 2020 é que o eleitorado brasileiro tenda a repensar esse ciclo à direita, que na minha opinião não trouxe os avanços prometidos, e tenda a votar em candidatos mais ao centro”, finaliza.

