Alta perfomance no esporte combina com alimentação vegana?
Atletas e especialistas explicam que se pode manter um alto nível esportivo sem alimentos de procedência animal na dieta
Com Lucas Lanzoni
A última pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) divulgou que os adeptos do veganismo e vegetarianismo no país totalizam 14% da população. Este número aumentou 7% nos últimos seis anos. Um dos motivos para esse aumento exponencial pode estar associado ao uso das plataformas Instagram e YouTube, que vêm possibilitando o acesso a informações, dicas e ações para expandir a cultura vegana no Brasil.
Recentemente, a youtuber Yovana Mendoza, mais conhecida por seu canal Rawvana, que tem mais de 3 milhões de seguidores e produz conteúdos sobre o estilo de vida vegano, foi pega comendo peixe na praia. Em vídeo de seu canal, Rawvana confessou que precisava do alimento para melhorar sua saúde, pois não estava resistindo à dieta vegana. Esse acontecimento abriu uma discussão entre os seguidores da influencer: é possível sobreviver somente com alimentação não-animal?
A ultramaratonista Ingrid Polini, de 24 anos, se tornou vegana há 4 anos e utiliza o Instagram para divulgar esse estilo de vida. Mesmo sendo vegana, ela afirma que é possível ter uma boa performance no esporte que pratica. “Eu tenho uma dieta super detalhada, feita por uma nutricionista especializada em atletas veganos. Só não a divulgo, pois é algo muito particular”, relata.
A alimentação vegana é diferente quando comparada com pessoas que consomem qualquer tipo de alimento. “Os cuidados são os mesmos, mas com algumas peculiaridades. O atleta precisa manter a dieta balanceada para que consiga atender às especificidades de cada corpo”, afirma.
O alto rendimento, para quem pratica um esporte como atletismo, é muito importante. E quando se é um atleta vegano, é comum que existam diferenças e comparações com os outros competidores. “É muito difícil fazer confrontações de um atleta com outro, visto que existem milhões de variáveis para a performance, mas tenho pessoas em meu círculo social que sentiram grande diferença positiva depois de aderir ao estilo de vida vegano”, finaliza Ingrid.
Veganas no esporte
Andrea Febrete e Emyli Barbosa são duas atletas veganas e fundadoras da página do Instagram Veganas no Esporte. Andrea tem 40 anos e pratica corrida de rua e musculação. Já Emyli tem 30 anos e é praticante de maratonas, trakking, bike e crossfit. “Nos tornamos veganas quase na mesma data, com um mês de diferença. Depois que cada uma optou pelo veganismo e começou a treinar para a primeira maratona, acabamos nos conhecendo graças ao grupo de atletas amadores veganos, chamado Grupo Força Vegana”, relata Andrea.

Ela também comenta que a falta de um conteúdo voltado para os adeptos ao veganismo foi o que levou ambas a pensarem na criação da página do Instagram. “Notamos que faltava um perfil de internet que falasse sobre o dia a dia de atletas veganos, o que comiam, o que treinavam, quais os esportes que praticavam. Após conversarmos, decidimos juntamente com outra amiga criar a página”, explica.
A alimentação é outro ponto importante para quem opta pelo veganismo, pois aderir a esse modo de vida faz com que a pessoa repense a sua dieta. Para quem é atleta, é ainda mais importante, pois a busca pelo alto rendimento no esporte vira rotina. “Nossa dieta é a mais natural possível. Usamos muitas leguminosas, frutas, castanhas, legumes e verduras no dia a dia. Abrimos exceções como alimentos industrializados, mas em geral a alimentação é o mais natural possível. O paladar mudou muito depois de nos tornarmos veganas. Hoje nos sentimos muito bem assim, e curtimos muito consumir alimentos crus”, afirma Andrea.
As atletas também afirmam que, após se tornarem veganas, seus rendimentos melhoraram visivelmente e os pódios nas provas transformaram-se em rotinas. “Sempre estamos entre os primeiros lugares, seja em qual for a categoria ou esporte. Temos uma infinidade de amigos veganos que podemos citar, além de nós mesmas. O rendimento melhora a cada dia com a alimentação vegana, não só durante as provas e treinos, mas também na recuperação pós prova”, afirma Emyli.

Cuidado dos atletas
A nutricionista Ana Paula Cavedon Spohr, 25 anos, atua na área há mais de 3 anos e comenta que é possível adotar uma alimentação vegana e praticar esporte de alto nível sem gerar riscos para o corpo. “Os cuidados e substituições variam muito de acordo com o objetivo, já que cada prática esportiva em si é muito ampla. Mas de forma geral, a base acaba sendo a inserção de whey veganos, receitas com mais consumo de carboidratos e alguns suplementos”, afirma.
Ana Paula ainda esclarece que, no caso da situação da youtuber Rawvana, a imunidade baixa pode ter decorrido de diferentes fatores. “Uma alimentação vegana equilibrada e com acompanhamento de uma nutricionista que se preocupa com o fechamento do consumo diário de micronutrientes, como vitaminas e minerais, não tem como ser a causadora de alguma doença”, finaliza a nutricionista.

