Amanda Büneker
Mar 26 · 6 min read
Cresce o número de ciclistas amadoras e competidoras (Foto: Divulgação/Trilhas BR)

Muito além de um meio de transporte, a bicicleta tem se tornado uma forma de independência e libertação para muitas mulheres. Os dados mais recentes da pesquisa desenvolvida pela Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade), de março de 2016, definem que uma parcela mínima de brasileiras (14%) representam o total de ciclistas no país. Ainda assim, nos últimos anos, a situação começa a mudar e revela um perfil de mulheres em busca do seu espaço no esporte.

Um ótimo cenário para entender o crescimento da participação feminina nessa prática são os, cada vez mais populares, eventos e grupos de pedal nas regiões interioranas do Rio Grande do Sul. Com a criação de eventos como o Sul Bike Race, além de vários de proporção municipal, certas modalidades ganham reconhecimento ao explorar as particularidades geográficas da área rural. É o caso do Mountain Bike (MTB), ou Ciclismo de Montanha, cujo os trajetos são em terrenos fora de estrada e muitas vezes acidentados.

“O Mountain Bike tem uma particularidade apaixonante na minha opinião, que é o constante contato com a natureza, poder explorar qualquer lugar. Eu gosto do verde, do ar puro, das belezas naturais e dos desafios que a natureza nos proporciona com seus terrenos construídos de forma natural” explica Lisiane Boff Toneta, 31, campeã gaúcha de MTB em 2017.

Nesse mesmo ritmo, diversos grupos presenciais e on-line vem incentivando e reunindo mulheres que compartilham dessa paixão e cada vez mais se sentem seguras e estimuladas a pedalar. Como exemplo de grupos exclusivamente feminino há o Gurias do Pedal (Caxias do Sul) — no qual Lisiane participa — com mais de 200 integrantes, ou os menores e mais locais, como o Penélopes do Pedal (Estância Velha), com 15 meninas, e o Rainhas do Pedal (São Sebastião do Caí), com 14 participantes.

Ciclistas de São Sebatião do Caí se reúnem pelo amor ao esporte. (Foto: Arquivo Pessoal/Rainhas do Pedal).

Autonomia e superação

Em 2018, Lilidiane de Barros, 36, iniciou nas competições do Campeonato Gaúcho de MTB, no qual seria vencedora. Em sua primeira prova, em Nova Petrópolis, enfrentou dificuldades em virtude do nervosismo e da inexperiência, que a levaram a duas quedas graves ao longo do trajeto. “Na primeira me machuquei bastante, esfolei os braços e rasguei minha bermuda. Mas a vontade de continuar era tanta que esqueci da dor e segui em frente”, lembra.

A segunda queda ocorreu faltando apenas 10 quilômetros para o final da prova e resultou em um machucado no ombro, uma forte batida na cabeça e a roda dianteira da bicicleta entortada, tornando impossível pedalá-la ou empurrá-la. Em meio às adversidades, Lilidiane, que queria muito finalizar a prova, decidiu levantar e finalizar com a bicicleta nas costas. “Na hora chorei muito, de dor e de raiva, mas me apaixonei mais ainda pelo esporte, pelo incentivo que ganhei de pessoas que nem conhecia. Eu aprendi a força que tenho”, orgulha-se.

Lilidiane de Barros na Threerace Ultramarathon, em São Francisco de Paula. (Foto: Divulgação/Trilhas BR)

O episódio vivido pela campeã gaúcha de MTB de 2018 e líder do campeonato deste ano ilustra muito bem a relação de muitas ciclistas com o Mountain Bike. As sensações de independência, superação de desafios, empoderamento feminino, novas experiências, fortalecimento emocional, parceria e contato com a natureza são citadas por muitas atletas como o principal motivo de escolha desta modalidade.

É o caso de Aline de Oliveira, 44, do grupo Rainhas do Pedal, cujo vínculo com o ciclismo de montanhas surgiu como um remédio para superar uma forte depressão, quatro anos atrás. “É o tempo que eu paro, que eu penso e reflito. Para mim, pedalar é isso”, ela enfatiza, “tu se sente dona do mundo pedalando sozinha pelas estradas, é uma sensação muito boa, parece que tu faz parte de tudo que está ao teu lado”.

Pedal e maternidade

Outra grande superação é a quebra de velhos estigmas femininos. O que para muitos pode ser considerado como um obstáculo, para Carine Von Muhlen, 35, é uma oportunidade de explorar o mundo por meio de novas perspectivas. Ser mãe do pequeno Luiz, hoje com dois anos e sete meses, não a impede de praticar o esporte, pelo contrário, a oferece um parceiro em muitos dos trajetos de ciclismo. “A bike me proporciona momentos maravilhosos todas às vezes que saio para pedalar, sozinha ou com meu filho. Mas sem dúvida, o mais importante é ver a felicidade dele toda vez que saímos. Isso não tem preço”, relata.

Mãe e filho se aventuram juntos em percursos gaúchos do MTB. (Foto: Arquivo Pessoal/Carine Von Muhlen)

Com ele na garupa da bicicleta desde os 10 meses de idade, em sua cadeira de bebê, ambos começaram a percorrer uma média de mais de 15km após ele completar um ano. Em um dos primeiros pedais de longa duração, quando Luiz tinha apenas um ano e dois meses, enfrentaram a aventura de 24km de percurso. Hoje já chegam a uma média de 40km, com o máximo de 60km.

Em outros casos, o MTB também possibilita para muitas mulheres um momento de relaxamento da rotina materna, com a equidade de tarefas estimulada pelos grupos e casais de pedal. Um exemplo disso está no Rainhas do Pedal, no qual muitas mães se reúnem para pedalar enquanto os filhos permanecem aos cuidados dos pais, que, como parceiros de ciclismo, entendem a necessidade do tempo livre e da prática.

Competições e suas barreiras

Lisiane Toneta na Copa Soul RS, em São Leopoldo. (Fonte: Divulgação/Clic Run)

No âmbito das disputas de Mountain Bike, o investimento e o interesse cresce após a conquista do brasileiro Henrique Avancini, campeão do Campeonato Mundial Maratona MTB em Auronzo do Cadore, na Itália, em 2018.

Todavia, oquadro ainda se mostra desigual para as mulheres, que em muitas provas são limitadas a correr em trajetos mais curtos que os homens; a receber premiações com grandiosa diferença em comparação a categoria masculina; e a enfrentar dificuldades para arranjar patrocínio, tudo isso sob a justificação de baixa adesão do público feminino, o que muitas contestam.

“Historicamente a mulher foi muito discriminada na prática esportiva e batalhou muito para conseguir algum espaço no esporte. Mas, hoje em dia, ainda existe preconceito […]. A presença feminina é importantíssima, pois é mais uma forma de mostramos que as mulheres podem e devem ter as mesmas oportunidades e liberdades na sociedade que os homens”, coloca Lisiane Toneta.

Um indicativo da alta na presença feminina são os avanços apresentados pelo mercado do ciclismo nos últimos anos. Ainda assim, há muito para evoluir. “Hoje vemos as marcas de bicicleta, acessórios e vestuários se preocupando em oferecer linhas de produtos femininos, mas quando se tratam de produtos mais premium, geralmente acabamos tendo que partir para aquisição de produtos pensados para homens”, complementa a ex-campeã.

Mesmo com as dificuldades, todas apontam que é visível o crescimento de participantes mulheres a cada prova ou evento, com a inclusão em equipes ou até o surgimento de equipes exclusivamente femininas. Espaço pelo qual todas batalham em conjunto, como coloca a atual campeã Lilidiane. “Na hora de alinhar para largar somos adversárias, mas, acima de tudo, amigas. Uma torce pela outra”.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

Amanda Büneker

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