A Linha do Equador passa na Arena nesta quinta-feira

Equatorianos contam suas expectativas para o jogo desta quinta-feira, contra o time de Tite, na Arena do Grêmio

Na quinta-feira (31), eles pegarão a amarelinha e irão para a Arena. A seleção está em Porto Alegre, e a torcida se mobiliza para ver os grandes craques do seu país. O maior deles? A resposta é unânime: Antonio Valencia, jogador do Manchester United. A camisa amarelinha desses torcedores é outra, e a seleção não é a canarinho, comandada por Tite. Trata-se do Equador, que enfrenta o Brasil pelas eliminatórias para a Copa da Rússia no dia 31. Enquanto a data não chega, a torcida equatoriana já garantiu o seu grito na arquibancada.

Natural de Cuenca, no Equador, e hoje morador de Capão da Canoa, Joel Atiencia tem o ingresso na mão. Aos 19 anos, ele já passou por vários países da América Latina, trabalhando com fotografia, mas veio para o Brasil se profissionalizar. “O país é muito lindo, as pessoas, as gaúchas. Uma coisa da qual não gosto é que tem muita burocracia”, diz. Comparando as duas seleções, Joel vê que o Brasil tem muito mais trajetória no futebol e que o Equador enfrenta uma fase complicada. “Está melhorando, mas o técnico está fazendo um trabalho ruim. A gente lá do Equador não gosta dele”, opina.

A torcida feminina equatoriana também estará representada na Arena do Grêmio na quinta-feira. Rebeca Lucero é de Quito, capital do Equador, mas veio estudar Medicina em Porto Alegre — cidade do jogador que, para ela, foi a referência da Seleção Brasileira em uma fase melhor do que a atual. “O melhor jogador, para mim, foi o Ronaldinho Gaúcho. Todo mundo admirava ele no Equador. Hoje, é o Neymar”, observa. Ela conta que, antes de vir para a capital gaúcha, a equipe brasileira dava mais medo aos equatorianos. “O timaço que eu conhecia antes de vir era muito mais respeitado do que na atualidade, o que mudou principalmente depois da Copa de 2014”, comenta.

Karen e Rebeca estão com o coração dividido, mas vão torcer para o Equador. Foto: Arquivo Pessoal

Colega de curso de Rebeca, Karen Lizeth Puma Lliguin, 24 anos, discorda. Ela também veio de Quito para morar em Porto Alegre. Para a estudante, a Seleção Brasileira ainda é uma das grandes forças. “O Brasil é uma das melhores seleções pelo seu ‘joga bonito’”, define. Mesmo tendo saudade das paisagens andinas do Equador, ela deixou seu país de origem para conhecer outra cultura. “Escolhi o Brasil porque tenho a sensação de que o país é um pequeno mundo que tem tudo”, diz.

Karen joga futebol desde os cinco anos, mas teve que pendurar as chuteiras para se dedicar aos estudos. “Agora, tento assistir à maioria dos jogos dos meus times favoritos. Além da seleção equatoriana, torço pela LDU, pelo Internacional de Porto Alegre e pelo Real Madrid”.

Os três jovens equatorianos assistirão ao jogo. Rebeca e Joel vão ao estádio; Karen não conseguirá porque trabalha durante o dia, mas acompanhará pela televisão. Apesar de viverem no Brasil e gostarem do país, nenhum deles duvida sobre para quem vai a torcida. “Vou torcer pelo meu Equador. Gosto mais do Brasil, mas sou do Equador”, revela Joel. Mesmo com o coração dividido, Rebeca não vacila. “Onde eu for, sempre torcerei por meu país, como uma boa compatriota”, define. “Desde que estou aqui, torço pelo Brasil também. Mas, nesse jogo, não. Quero gritar ‘Ecuador, si se puede’”, encerra Karen.

De cima do muro, Efendy espera jogaço

Nem brasileiro, nem equatoriano. “Equobrasileiro” é como Efendy Maldonado naturaliza a si mesmo. O sotaque entrega o país de origem, mas o brilho no olho quando fala do futebol da Seleção Brasileira é claro. Nascido em Quito e morando no Brasil há 26 anos, o professor da pós-graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos vai ao estádio assistir ao confronto de Brasil e Equador pela quarta vez. E, entre o time que admira desde criança e o patriotismo, não há indecisão na torcida. Pelo contrário. Ele está muito decidido. Torcerá pelos dois.

A referência das crianças equatorianas no futebol, segundo Efendy, era o Brasil. Apesar de o Equador ter bons times infantis e de o esporte ser muito querido pelo povo, a seleção não era organizada o suficiente para atingir um bom nível. Foi quando tinha oito anos que Efendy começou a trocar de amarelinha. Na época, em meados da década de 60, não existia transmissão de jogos de futebol pela televisão, e o Santos foi a Quito para um amistoso contra a LDU. Acompanhado do tio, o pequeno torcedor da Liga Deportiva Universitária de Quito foi ao estádio Olímpico Atahualpa e viu Pelé. “Fiquei maravilhado que aquilo existisse. Foi uma goleada do Santos. Ali, virei torcedor brasileiro”, conta.

Efendy já garantiu o seu lugar na Arena do Grêmio. Foto: Vinícius Bühler/Beta Redação

Não bastasse ter visto Edson Arantes do Nascimento, Efendy teria mais uma boa razão para torcer pelo Brasil. Em maio de 1970, a preparação da Seleção Brasileira para a Copa do México foi em Quito, no estádio da Universidad Central do Ecuador, que ficava exatamente do lado da sua casa. “Eles treinavam duas vezes por dia, e eu observava-os nos treinamentos, via toda a preparação”, lembra. O Equador não jogou aquela Copa, e o Brasil, com a torcida de Efendy, foi campeão ao vencer a Itália por 4 a 1. “Naquela Copa, o Brasil jogava e depois a gente brigava para ver quem seria quem: uns queriam ser o Pelé, outros o Rivellino.”

Desde então, Efendy já viu Brasil e Equador duelarem em três ocasiões. Foi ao estádio nas eliminatórias para as Copas de 82 e 94 e pela Copa América de 83. Nesse último, no Olímpico Atahualpa, ele viu a seleção brasileira estrear com vitória de 1 a 0 sobre o Equador. “Vi de perto o gol do Roberto Dinamite.” Vivendo no Brasil, o amante do futebol também ia a outros jogos da Seleção Brasileira. Chegou a encarar quase um dia de viagem de ônibus de Porto Alegre a São Paulo para ver Brasil e Argentina. “Foram 18 horas com ar condicionado em cima de mim. Fui para o estádio com pneumonia”, recorda. Ele também foi ao Maracanã na Copa de 2014 para ver Equador e França. “Os franceses pensavam que seria uma goleada histórica. Deu empate com o Valencia expulso. Foi heroico.”

Por essas circunstâncias do destino, a Seleção Brasileira se apresentou a Efendy. Hoje, ele diz que conhece mais a seleção de Tite do que a de Gustavo Quinteros. “Eu fico feliz e triste pelas duas. Tem gente que fala que não se pode ter dois amores. Eu sou a prova de que não é assim. Nesse sentido, eu sou multiamor”, brinca. O professor espera um grande jogo, em que o Brasil jogue todo o seu futebol e o Equador faça um jogo defensivo e intenso nos contra-ataques. “O resultado só me afeta se jogarem mal, se houver jogadas desleais e se os dois times forem retrancados”, pondera. Sobre o placar, ele não arrisca. “O futebol é como a vida, nada está dito. O Equador pode complicar, porque, se não for bem nesse jogo, fica difícil ir para a Copa. É vida ou morte.”

Bola rolando para unir os países

Nas eliminatórias latino-americanas para a Copa da Rússia, o Brasil é líder e já está classificado, com 33 pontos, enquanto o Equador tem apenas 20 pontos e está fora da zona de classificação. Pela fase que as duas seleções vivem, os equatorianos têm uma missão difícil na Arena do Grêmio — quase tão difícil quanto a de aproximar um país de pouco mais de 250 mil quilômetros quadrados a outra de dimensão continental. E é justamente essa a missão de Fernando Quintana Díaz, cônsul do Equador no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Natural de Quito, formado em Biologia pela Unisinos e há 20 anos no Brasil, é dele a tarefa de criar e apoiar relações comerciais e manter contato cultural entre os países. “Lamentavelmente, estamos um pouco separados, um pouco de costas. Essa aproximação tem custado bastante”, conta.

Uma das principais formas de unir culturas diferentes, segundo Díaz, são as manifestações culturais, como uma partida de futebol, por exemplo. “O futebol é uma manifestação cultural e, como qualquer outra, tem seu impacto. Percebemos isso muito claramente na Copa do Mundo”, coloca. Em 2014, a seleção equatoriana se hospedou no Rio Grande do Sul, em um resort na cidade de Viamão. De acordo com o cônsul, foi um momento especial de compartilhamento da cultura equatoriana, com palestras em escolas e instituições e recepção calorosa dos gaúchos. “Os ônibus de Viamão tinham o nome do Equador, e eu era recebido em escolas da periferia com os estudantes me entregando trabalhos de pesquisa, bandeiras desenhadas pelos pequeninhos. Foi um processo didático, que seria muito difícil de fazer se não houvesse um evento importante como a Copa”, relata.

Hoje, Díaz percebe que, com o futebol, o intercâmbio comercial em termos de cifras é positivo entre os dois países e os aproxima. “Temos o Bolaños aqui, que custou mais de US$ 5 milhões. Temos cinco jogadores equatorianos no Brasil, 13 jogando no exterior”, comemora.

Todo esse contato rendeu e, com o jogo de quinta-feira, já começou a reaparecer. A delegação equatoriana chegou ao Brasil no domingo (27) e foi mais uma vez para o resort em Viamão. “O dono me ligou e disse que lá era a casa do Equador. Então, aí se cria uma vinculação que é difícil fazer em outra situação. O futebol ajuda muito a criar uma união e depois a trabalhar em cima dela”, enfatiza.

Se os equatorianos mais novos admiram Neymar e Ronaldinho Gaúcho, Fernando admirava outro craque quando pequeno. “Eu me criei com o Pelé como ídolo. Nunca vi ele jogar, mas não havia um que não queria ser ele. Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, foi referência para muitas gerações, não só do Brasil, mas da América Latina”, recorda.

Fernando e Joel vão ao estádio juntos. Foto: Arquivo Pessoal.

Feliz com o jogo e com a possibilidade de, mais uma vez, mostrar as culturas do seu país, o cônsul acompanhará a partida de perto. Aliás, irá ao estádio com amigo Joel Atiencia. Juntos, torcerão para o seu país de origem. Contudo, Díaz garante que, se houvesse uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina, ele e todos os equatorianos torceriam para o Brasil. Sobre o resultado, não arrisca o placar, mas acha que vai dar Brasil. “Lamentavelmente, o Equador não tem chance”, brinca.

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