A obsessão do maestro
Filme sobre João Carlos Martins apresenta qualidade técnica e casos pontuais da vida do músico
Não é à toa que João, O Maestro abriu o 45º Festival de Cinema de Gramado na última semana. Fora da competição, mas escolhido como filme de abertura, o longa do diretor Mauro Lima é rico em suas qualidades técnicas.

É perceptível o extremo cuidado de direção, fotografia, som, edição e montagem. A trilha sonora é composta por gravações do próprio João Carlos Martins, o biografado do longa, referência mundial como pianista que registrou as obras de Johann Sebastian Bach.
O músico acompanhou as gravações das cenas musicais para garantir a perfeita sincronização com sua trilha. Este é apenas um dos detalhes técnicos que faz de João, O Maestro, um filme visual e sonoramente interessante. Assisti-lo no cinema é uma grande experiência de imersão.
No dia seguinte à exibição no Festival, questionei Mauro Lima sobre essa imersão, pois vivemos em uma era de crescimento de serviços de streaming de filmes em que o público, muitas vezes, vê as produções em seus dispositivos móveis.

“Assistir na tela grande é uma experiência. Você pensa determinados tipos de filmes para determinadas experiências. Meus filmes sempre foram pensados para ser uma experiência de tela grande, de sala. Não quer dizer que se você assistir em casa isso vá ser ruim, mas será uma experiência diminuída”, explicou Mauro Lima.
Apesar desta declaração, ele não condena os serviços de streaming como Netflix e não descarta trabalhos para essas mídias. “Este tipo de serviço é o futuro, não há como evitar. Sobre comparações entre filmes feitos para cinema e filmes feitos diretamente para streaming competirem lado a lado em festivais, ainda não tenho uma opinião”, pontuou.
Na sequência da exibição de João, O Maestro aconteceu a exibição do filme O Matador, de Marcelo Galvão, primeiro filme brasileiro original Netflix. A não ser pela exibição em Gramado, o longa estreará apenas na plataforma online — ainda sem data definida. Mesma situação que aconteceu este ano no 70º Festival de Cannes: pela primeira vez filmes feitos para streaming entraram na competição, causando polêmica.

Paula Barreto, produtora do filme sobre João Carlos Martins, também comentou a discussão: “O nosso filme foi feito para a tela grande. É um filme com 14 números musicais. A maioria das pessoas que assistiram previamente numa tela pequena gostou mais quando viu no cinema”. Porém, assim como Mauro, ela acredita que os serviços de streaming são um futuro e precisam ser levados em consideração. “Fazer cinema é caro. Se você optar por projetos mais baratos, eles vão diretamente para o streaming.”
Se por um lado a qualidade técnica e a experiência de assistir ao filme em um cinema impressionam, a narrativa não chega ao mesmo nível. João Carlos Martins possui uma trajetória repleta de histórias: já realizou 23 cirurgias nas mãos e se envolveu em um escândalo de doações ilegais à empresa Paubrasil Engenharia. A trajetória do pianista na política não aparece no filme, poucas cirurgias são mostradas e diversas outras contendas não são mencionadas.
O longa acaba por adaptar apenas alguns momentos pontuais da vida do maestro. Mauro Lima escolheu retratar Martins através de sua obsessão com a música e, como já confirmado pelo próprio músico, as demais partes do filme são apenas “baseadas” na vida dele, ou seja, compõem um quadro muito ficcional. Essa ficção acaba não sendo construída de uma maneira interessante, e a narrativa é previsível. O filme segue o padrão da maioria dos longas biográficos: narra a história do protagonista em ordem cronológica, apresenta problemas e os resolve facilmente. Nada fora do comum.
A obsessão de João Carlos Martins é interpretada por Davi Campolongo, Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero em diferentes fases da vida. As esposas do maestro são interpretadas por Fernanda Nobre e Alinne Moraes, e Caco Ciocler vive o professor dele. Um elenco de peso que entrega ótimas atuações.
João, O Maestro tinha tudo para ser um filme excelente em todos os aspectos. A qualidade técnica e o elenco estão impecáveis, porém, a história fragmentada e previsível o torna mediano.
SERVIÇO
João, O Maestro — disponível nos cinemas desde o dia 17 de agosto.
O Matador — ainda sem data de estreia na Netflix.

