Abordagens de gênero e sexualidade em novelas pautam discussões na sociedade

Entenda o que são essas temáticas e como são exploradas no campo da comunicação, sobretudo em telenovelas

Personagem Ivan, da novela A Força do Querer. (Foto: TV Globo)

A telenovela da Globo A Força do Querer ganhou notoriedade devido a temáticas até então pouco abordadas na televisão brasileira: gênero e sexualidade. Atualmente exibida em horário nobre, a produção narra a história de Ivan, homem transexual que percorreu um caminho de autoconhecimento para a aceitação.

Interpretado pela atriz Carol Duarte, Ivan iniciou a narrativa como Ivana — uma jovem que não entendia seus sentimentos, porque não se encaixava nos padrões sociais. No decorrer da história, Ivan compreendeu que não era uma pessoa cissexual — designação dada a quem se identifica com o gênero de nascimento.

É a primeira vez que um homem transexual é retratado em uma telenovela brasileira global. O tema surge em um contexto social marcado por movimentos feministas e LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) e pela militância em favor da garantia de direitos e equidade. Principalmente nos últimos anos, essas temáticas foram impulsionadas pela internet e redes sociais.

Apesar disso, ideias antagônicas também surgiram na esfera política. Em 2015, foi levantado na Câmara um projeto polêmico para definir o conceito de família como homem, mulher e filhos. Já em 2016, debates em torno da abordagem de questões de gênero e sexualidade nas escolas tomaram o campo midiático, com projetos contrários à inclusão dos temas.

A abordagem de gênero na ficção

Retratar pessoas LGBT na ficção requer conhecimento sobre gênero e sexualidade para a construção da narrativa. Diretora de teatro e roteirista, Nina Rosa Sá acredita que sempre é mais positivo do que negativo incluir esse público. No caso de Ivan, não é diferente. Para ela, o personagem presta serviço à comunidade com informação, mostrando, por exemplo, a diferença entre gênero e sexualidade. Além disso, ela pontua que Ivan está sendo bem representado com a atuação de Carol Duarte.

Como aspecto negativo, a diretora acredita que a abordagem de gênero na ficção poderia ser mais enriquecedora. Conforme ela, a performance de gênero ganha mais destaque do que propriamente o gênero, podendo causar confusão entre quem acompanha a narrativa. Isso aconteceria, por exemplo, se o público não enxergasse a diferença entre um homem trans e uma mulher cis lésbica mais masculina (conhecida como lésbica butch).

Jornalista, pesquisadora e integrante do coletivo GEMIS (Gênero, Mídia e Sexualidade), Fernanda Nascimento crê que é importante visibilizar a pauta trans. Para ela, a história de Ivan em A Força do Querer está sendo bem construída. O problema, na visão dela, são as relações que o envolvem. Em um momento da narrativa, por exemplo, outro personagem define travesti e transexual de maneira problemática.

Com o crescimento dos debates acerca de gênero nos últimos anos, seja por meio da mídia, da televisão, de militâncias ou de debates políticos, o assunto ganhou força na sociedade. A jornalista e integrante do coletivo GEMIS Pâmela Stocker lembra que, em 2015, os movimentos e o ativismo de grupos feministas deram origem ao que foi chamado de “Primavera Feminista”, ou “Primavera das Mulheres”.

Devido a esse cenário, a mídia também foi atingida. Para a pesquisadora, a visibilidade e as brechas que estão sendo abertas pela mídia hegemônica são positivas. Entretanto, ela pondera: muitas vezes, as representações não são feitas de forma ideal.

Representatividade na mídia

Fernanda acredita que toda visibilidade é positiva, mesmo quando há erros. Isso porque provoca debate e pode gerar melhorias. Para ela, por mais que “a visibilidade seja uma faca de dois gumes”, as novelas são espaços importantes por meio dos quais os assuntos chegam à sociedade.

Já Nina distingue os termos representação e representatividade. Segundo a diretora, a representação é algo externo, que é visto pelas pessoas — como a trama de Ivan em A Força do Querer. Já a representatividade se dá internamente, com a equipe de profissionais que produzem a novela, por exemplo.

Para a roteirista, a representatividade tem extrema importância em uma produção. “Você não pode apenas falar sobre ela, você precisa ter na sua equipe criativa pessoas que entendam do que está sendo abordado, que façam parte desse universo, tenham essa vivência. Senão, a gente acaba errando e, para a gente errar menos, é importante a presença da representatividade”, salienta.

De acordo com Pâmela, no campo midiático, “a representatividade é muito importante, na medida em que entendemos a mídia como construtora da realidade. É na televisão, no jornal, nas revistas, na telenovela que aprendemos todos os dias aquilo que é normal e anormal, desejável ou indesejável, certo ou errado”, pontua a jornalista.

Representação LGBT em telenovelas

Autora do livro Bicha nem tão má: LGBTs em telenovelas, Fernanda analisou novelas da Rede Globo de 1970 a 2013. Com personagens sendo predominantemente homens homossexuais, há um dado alarmante: nos 43 anos mapeados, apenas quatro personagens são negros. Segundo ela, o universo das novelas ainda é muito pautado pela letra “G” da sigla. Contudo, ela ressalta que quatro anos se passaram, e a representação de outras parcelas da sociedade aumentou.

Para Nina, as representações de LGBTs nas telenovelas são pequenas. Não há protagonismo, e as atuações são majoritariamente feitas por homens. O caso mais marcante, de acordo com a roteirista, é a do personagem Félix, personagem homossexual da novela Amor À Vida. Ele iniciou como vilão, mas, devido à aprovação do público, houve uma reviravolta na trama, e ele passou a ser retratado como uma pessoa melhor.

De acordo com Nina, bissexuais são os mais invisibilizados na ficção, já que os personagens geralmente são vistos como homossexuais ou heterossexuais, mesmo quando alguém se relaciona com homens e mulheres. E lésbicas são coadjuvantes normalmente mal construídas. “O espaço para mulheres é sempre menor. Não é diferente quando falamos de lésbicas e bissexuais”, avalia.

A influência de seriados

Assim como na dramaturgia, os seriados tratam questões de gênero e sexualidade. É o caso de séries de comédia dos anos 90 que tratam homossexuais como piada e gays como algo cômico, trazendo à tona o “afeminado engraçado”.

Atualmente, o crescimento de serviços de streaming, como a Netflix, colaboram para que as séries abordem temáticas de gênero e sexualidade. Várias delas são conhecidas mundialmente. É o caso de Game Of Thrones (GOT) e Orange is the New Black (OITNB), por exemplo. A primeira ficou conhecida por retratar o gênero como algo ruim. Nas primeiras temporadas, estupros e violência contra a mulher foram realizados, o que gerou a ira dos fãs. Conforme Nina, a série se redimiu na sexta temporada (2016), ao construir personagens femininas fortes e ao parar de mostrar cenas estupros com intuito de reforçar a masculinidade dos homens.

Já OITNB é uma série mais diversificada. Por tratar do sistema carcerário feminino norte-americano, há diferentes etnias, sexualidades e o predomínio do elenco feminino. Mesmo com toda essa diversidade, a quarta temporada (2016) foi alvo de protestos ao matar uma personagem querida para o público, que era mulher, negra e lésbica. Para Nina, a série derrapou ao fazer isso. Ela lembra, inclusive, sobre o que algumas séries norte-americanas começaram a fazer: assumir o compromisso de parar de matar personagens LGBT.

Os desafios das lutas sociais

Conforme Fernanda, dois pontos são importantes para pensar em juventude e movimentos sociais. O primeiro é a coalizão de lutas. O segundo diz respeito à necessidade de as pessoas saírem do campo das experiências pessoais para perceberem que as estruturas perpassam por toda a sociedade.

Para a jornalista, as lutas precisam se unir, mesmo quando uma pessoa não faça parte dela pela vivência. Além disso, devem entender que as opressões não fazem parte de uma individualidade, mas de uma estrutura que é machista, racista e lgbtfóbica.

“A importância dos movimentos sociais e da juventude, que está engajada na internet ou nas ruas, é justamente manter-se em vigilância, para que os retrocessos não aconteçam. O desafio dessa nova militância reside em conseguir sair da esfera do senso comum, do ‘achismo’ e da opinião. É preciso estudar e conhecer a história dos movimentos, lutas e conquistas”, constata Pâmela.

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