Escolta gremista chega no Estádio Beira-Rio para o clássico Gre-Nal 417 (Foto: Thiago Greco/Beta Redação)

Até a pé nós iremos

Para manter a tradição, gremistas ignoram clube e vão a pé para o clássico Gre-Nal 417

Oitocentos. Esse foi o número de torcedores do Grêmio que dispensaram os ônibus disponibilizados pelo clube e percorreram o antigo trajeto, partindo a pé do Estádio Olímpico Monumental, sua antiga casa, até o Beira-Rio, para o último clássico Gre-Nal.

Churrasco sendo devidamente feito no asfalto (Foto: Thiago Greco/Beta Redação)

O tecnólogo em logística, Everton Luiz Kolling, 22, que é sócio e torcedor do Grêmio, resume o porquê de ir caminhando do Olímpico ao Beira-Rio antes dos clássicos. “Churrasco, trago e amizade. Toda junção. Mesmo que seja perigoso, parece que não deixa o velho casarão morrer”, explica. Everton refere o perigo, pois não haveria escolta da Brigada Militar, diferente dos ônibus com saída da Arena.

A junção começa cedo. A partida estava marcada para as 16h. Mas antes, bem antes, os gremistas já estavam presentes no entorno do Olímpico. O relógio não marcava nem nove horas e já se via as primeiras churrasqueiras sendo montadas.

O estudante, Murilo Ozório, 19, sócio e torcedor do Grêmio, era um dos que já estavam no chamado aquece logo nas primeiras horas da manhã. “Para mim, o jogo começou quando eu cheguei no Olímpico. Gre-Nal não é só mais uma partida do Campeonato Brasileiro, é muito mais do que isso”, fundamenta.

Ali mesmo, no asfalto das ruas do bairro da Azenha, eram colocados os carvões e lenhas para preparar o fogo do churrasco. Eram incontáveis as churrasqueiras. Mais de 20, menos de 800. Mesa, talheres, guardanapo, pratos, coolers com cerveja até não caber mais: estavam com todos os apetrechos, como se realmente estivessem no pátio de suas respectivas residências. Eram donos de casa, engenheiros, médicos, advogados, desempregados, ex-presidiários, estudantes, e muita gente vinda do interior do Rio Grande do Sul. Eram incontáveis os estilos de vida. Diferentes fora dali, porque, naquele momento, todos tinham o mesmo objetivo: o Grêmio.

Torcedores nos preparativos para o clássico logo cedo (Foto: Thiago Greco/Beta Redação)

A tradição da ida a pé para o Estádio Beira-Rio antes dos clássicos Gre-Nais se dá porque, antes da Arena, quando ainda era o Olímpico a casa oficial do Grêmio, era de lá que partia a escolta da Brigada Militar com todos os gremistas que se fariam presentes no estádio rival. Com a mudança da casa tricolor, em 2013, tentaram outras formas para a torcida gremista se encontrar antes dos jogos em que o Inter é mandante. Arena, canhão do Parque Marinha do Brasil, centro e, até mesmo, a sede da Secretaria de Segurança do Estado foram locais onde a concentração da torcida do Grêmio já foi testada. Quase todos sem sucesso.


A tropa de choque da BM chegou para fazer a escolta no Olímpico (Foto: Thiago Greco/Beta Redação)
Gremistas a caminho do Beira-Rio (Foto: Thiago Greco/Beta Redação)

São 3,8 km que separam o Estádio Olímpico do Estádio Beira-Rio. A caminhada gremista começou na esquina da Rua Afonso Pena com a Travessa Alexandrino Alencar. A escolta foi encontrada poucos metros à frente, na Rua Botafogo, na qual seguiram até chegar na Avenida Praia de Belas, na altura do parque de diversões atrás do shopping Praia de Belas.

O primeiro contato visual de gremistas e colorados se deu quando a escolta chegou na Avenida Padre Cacique, cada vez mais perto do Beira-Rio. Músicas em alusão a uma vitória no clássico eram entoadas pelos gremistas. “Hoje, é uma tarde especial. Você não pode perder: o Inter vai morrer. O Inter vai morrer”. Entre outras.

Distância entre os estádios Olímpico e Beira-Rio (Foto: Reprodução/Google Maps)

A parte mais tensa da caminhada foi quando chegaram no Parque Marinha do Brasil, costumeiro local de concentração de colorados pré-jogos do Inter. Não foi diferente desta vez. Centenas de colorados cercavam a escolta, que contava com cerca de dez policiais em motocicletas e quase o mesmo número a cavalo. Além, claro, de cerca de 20 brigadianos a pé e um camburão liderando o comboio.

Por sorte, pois não há outra palavra que impeça um confronto entre gremistas e colorados nessa ocasião, nada, além de agressões verbais, ocorreu com a escolta. Já na Avenida Edvaldo Pereira Paiva, a Beira-Rio, a uma quadra da entrada para o estádio, houve uma espera para assegurar a entrada das pessoas que estavam no fim da escolta. Com isso, todos os gremistas chegaram em único bloco no estádio.

Torcida do Grêmio lotou o espaço destinado a ela no Estádio Beira-Rio (Foto: Thiago Greco/Beta Redação)

Às 15h09, exatamente, os primeiros gremistas que foram a pé começaram a entrar no Estádio Beira-Rio e ocupar a arquibancada visitante, 51 minutos antes de a bola rolar. O setor só lotou mesmo com o início do clássico, às 16 horas, pois os últimos da fila, que estavam na escolta, tiveram dificuldades na entrada. Revista, identificação e passagem pela catraca com os ânimos acirrados por conta do tamanho do jogo atrasaram o processo.

Torcedores aguardam para sair do estádio (Foto: Thiago Greco/Beta Redação)

Não faltou apoio da torcida tricolor durante os 90 minutos, mesmo com o Inter vencendo o Grêmio pelo placar de 1 a 0. Foram cerca de 1.900 gremistas no setor exclusivo, 1.000 na torcida mista e mais 500 nos camarotes. Na área exclusiva, após 18 anos, a Geral do Grêmio não se fez presente em um Gre-Nal fora de seus domínios. “Em todos os clássicos disputados no Beira Rio, cumprimos todas as determinações dos órgãos de segurança. Mas, espantosamente, uma sequência de armadilhas vêm sendo construídas para gerar sucessivas punições para a torcida”, enfatizou a nota oficial da Geral do Grêmio.

A saída só se deu à noite, pois a torcida visitante tem de esperar a torcida mandante por 40 minutos após o término da partida, para não haver fluxo dos dois grupos ao mesmo tempo. A caminhada de volta ao Olímpico ocorreu por dentro do Parque Marinha do Brasil mais uma vez. A escolta levou os gremistas, dessa vez, apenas até a Avenida José de Alencar e, a partir dali, foi cada um por si.

De volta à Azenha, os tricolores se dirigiram aos seus carros para voltar, sãos e salvos, a suas casas, reencontrar suas famílias e aproveitar o tempo que sobrou do domingo de clássico Gre-Nal. Esperando ansiosamente pelo próximo.