Como estimular o desenvolvimento de crianças autistas
Famílias relatam experiências na busca por qualidade de vida para os filhos
Durante a gravidez, o que os futuros pais mais desejam é que o bebê nasça com saúde. Quando algo inesperado ocorre, como a descoberta de algum distúrbio ou síndrome, é comum que muitos questionamentos e receios surjam. Receber a notícia que um filho é autista, por exemplo, indica aos pais que eles lidarão com uma outra realidade, o que não significa, necessariamente, algo ruim, mas uma forma diferente de encarar o desenvolvimento da criança.
O Transtorno do Espectro Autista é um distúrbio psiquiátrico que pode se desenvolver por causa genética e hereditária, fatores ambientais, devido à alimentação da mãe, alterações bioquímicas do organismo e anormalidade cromossômica. As primeiras particularidades podem ser percebidas já no primeiro ano da criança, por isso, quanto mais cedo for identificado, mais chance a criança tem ter uma vida plena, com menos dificuldades de desenvolvimento. É importante que os pais observem a interação social, a alteração comportamental e as falhas na comunicação da criança, que são as comuns nesse tipo de transtorno.
A cabeleireira Natalie Carolina Daleiro Affonso, 35, é mãe da pequena Alice, de 2 anos e 10 meses, diagnosticada com autismo. Dona do projeto Brincar + Estimular = Amar e de um canal no Youtube, ela incentiva outros pais a desenvolverem brincadeiras para estimularem nas crianças a coordenação motora, os sentidos e o contato com texturas e sons. Natalie conta que até os dois anos, Alice não havia falado ainda, não mantinha contato visual e não respondia aos comandos, mas hoje, com os estímulos diários, já pronuncia muitas palavras e interage com mais facilidade.

O momento do diagnóstico da Alice, que ainda está em fase de análise, foi difícil para a família, como relata Natalie. “Tu desconfia, mas sempre tem esperança que não seja autismo. Em todo esse tempo que antecedeu o diagnóstico ela tinha melhorado bastante sobre os ruídos, frequentar ambientes públicos. Quando descobrimos entramos em estado de choque. Ficamos uns dois dias sem dormir, só lendo conteúdos sobre autismo. O que é horrível, pois tu já começa a pensar no que ainda nem aconteceu. Então tu começa a se questionar em como será o futuro, quem vai cuidar dela, se vai ter amigos, como vão tratar ela na escola e assim por diante”, comenta a mãe.
Raquel Cordeiro Panizzutti é mãe do Bruno, de 11 anos, que tem autismo moderado. Professora do Ensino Infantil, ela sempre incentivou o filho nas atividades e, com dois anos de idade, Raquel já inseriu Bruno em terapias. O diagnóstico foi feito quando ele tinha cerca de 3 anos, após consultas com neurologistas, fonoaudiólogos e psicólogos. A união de diversos especialistas é um dos pontos mais importantes para um bom desenvolvimento da criança com autismo.

Medos e dúvidas fazem parte da vida dos pais, de maneira geral, mas quando se tem um filho autista esses sentimentos aumentam. “Por falta de informação na época, nós ficamos horrorizados com o futuro dele. Não havia tantos tutoriais e fácil acesso às informações, o que podia ter auxiliado mais o Bruno. Com dúvidas gigantes, não sabíamos o que o futuro nos reservava. Esse era nosso maior medo. Mas, por ser professora, sempre estimulei muito ele na questão da música, nos jogos e levava livros nos restaurantes que íamos”, conta Raquel.
Quando chega a fase adulta, outras questões são levantadas sobre o comportamento e a aceitação da sociedade que preocupam as famílias. Márcia Rita Rocha de Souza, bióloga e especialista em Neuroaprendizagem, é mãe do Eduardo, 32, diagnosticado com autismo severo. “Eu olho para trás e vejo tudo que ele conseguiu superar e fico muito tranquila. Tem umas fases em que ele fica mais teimoso, agitado, mas já é muito independente dentro de casa, tem sua autonomia no espaço dele, é querido por todos. Como ele não fala, tem a questão do cuidado, mas o Dudu se expressa bem melhor atualmente”, comenta Márcia.

Sobre a questão da inclusão, Márcia contesta a palavra e como ela é utilizada:
Eu penso que o termo inclusão já exclui, pois se estamos oferecendo igualdade de espaço e aprendizagem não tem porque dizer ‘incluir’. Incluir quem? Todos somos diferentes, então não deveria ser uma inclusão e sim ser normal. Os professores devem se atualizar, sair da zona de conforto, buscar conhecimentos sobre os alunos que tem em sala de aula.
Brincar e aprender
É comum que pessoas autistas percam o foco e a concentração com facilidade, por isso, inserir no dia a dia delas atividades com esse propósito são necessárias. Fazer as atividades no tempo delas, observar se a criança está feliz com aquela brincadeira, elogiar quando cumprir ou acertar uma atividade é extremante necessário quando se trata de autistas.
Foi pensando nessa forma de interagir com autistas que Natalie criou o canal no Youtube, justamente para ensinar as brincadeiras e atividades que pratica com a filha Alice, além de compartilhar os conhecimentos sobre o autismo. Ela acredita que quanto mais precoce for a intervenção, maior será a qualidade de vida do autista. Para ela,é imprescindível o apoio de um terapeuta ocupacional. A mãe também utiliza aplicativos, jogos online e atividades sensoriais para ir dessensibilizando a parte tática.
Além das técnicas utilizadas por Natalie, outras atividades podem auxiliar na coordenação motora e no desenvolvimentos dos autistas. É o caso da natação, dos jogos de quebra-cabeças e da terapia com cavalos. “Os pais têm que ver o que os filhos mais gostam de fazer, se tem facilidade para música, matemática. O Bruno sempre gostou de cores, formas, computador, então sempre estimulamos com essas ferramentas, com joguinhos, vídeos no Youtube em inglês. Tudo isso foi estimulando a aprendizagem dele”, enfatiza Raquel.
Ela também relata como foi a inserção do filho na escola. Com um ano e oito meses Bruno começou a frequentar uma escola de Ensino Infantil em São Leopoldo. Voltada para uma educação com base na natureza, nas artes e na música, a adaptação foi tranquila. Quando chegou à idade escolar, problemas começaram a surgir pela falta de preparo e treinamento dos educadores. “Os professores até tinham boa vontade, mas não sabiam lidar. Ainda há um caminho muito longo a ser percorrido na educação em relação a todas as deficiências comportamentais. Muitos professores acham que ele não deveria estar ali, eu percebo isso e é muito triste. Ele precisa ser estimulado no ambiente da escola e não ficar isolado”, comenta a mãe.
Aprender e trocar experiências com outros pais ou familiares de autistas é uma das formas de adquirir informações e auxílio. Pensando nisso, há três anos Raquel criou um grupo de acolhimento para pais, que realiza encontros regularmente, onde são convidados profissionais e discutidos temas relacionados ao autismo. Para Raquel, o grupo serve para as famílias desabafarem, trocarem informações e descobrirem que não estão sozinhos.
Onde buscar ajuda?
Cidade: CACHOEIRA DO SUL
Associação de Familiares e Amigos Autistas de Cachoeira do Sul
Tel.: (51)8483–9449
Cidade: CACHOEIRINHA
Associação de Pais e Amigos dos Autistas de Cachoeirinha — Associação Pais e Amor
Tel.: (51)3300–6409
Cidade: ERECHIM
Associação Aquarela Pró-Autista de Erechim
Tel.: (54)3712–3005
Cidade: FARROUPILHA
Associação de Pais e Amigos do Autista de Farroupilha — AMAFA
Tel.: (54)3412–2192
Cidade: PORTO ALEGRE
Associação de Pais e Amigos do Autista do Rio Grande do Sul — AMARS
Tel.: (51)2103–4686
Cidade: RIO GRANDE
Associação de Pais e Amigos dos Autistas do Rio Grande — AMAR
Tel.: (53)3233–1294
Cidade: SANTA MARIA
Associação de Pais e Amigos do Autista de Santa Maria — QUIRON — Centro de Excelência em Desenvolvimento Humano
Tel.: (55)3028–2626
Cidade: SÃO LEOPOLDO
Associação Mantenedora Pandorga
Tel.: (51)3588–7799
*Fonte: Associação Brasileira de Autismo
