Beisebol em Porto Alegre? Temos, sim senhor!

A modalidade só voltará aos Jogos Olímpicos em 2020, na cidade de Tóquio. Contudo, chegou ao Rio Grande do Sul há muito tempo

Naquela manhã de domingo, próximo ao estádio que proporcionou muitas glórias aos torcedores colorados, o Beira-Rio, a bola perseguida num campo improvisado do Parque Marinha do Brasil media pouco mais de sete centímetros de diâmetro. Ainda não era um jogo. Eram apenas cinco pessoas arremessando a bola uma para a outra a fim de treinar o esporte preferido: beisebol. Um desavisado poderia pensar que estava diante da refilmagem de um blockbuster americano, cujo tema seria superar os medos por meio do esporte. Entretanto, desta vez, os jogadores com suas luvas de couro e tacos de madeira eram, em sua maioria, brasileiros descendentes de japoneses.

O que ocorre no Marinha é um típico treino do Porto Alegre White Tigers Baseball, que existe há nove anos e é um time misto. Apesar do nome ser em língua inglesa, os fundadores e a maior parte do time são de origem japonesa. Segundo um dos jogadores mais antigos, Thiago Kajiwara, no início o time até tinha um nome japonês. “Para que os brasileiros não tivessem receio e se sentissem mais à vontade para fazer parte, o nome foi alterado”, destaca o atleta, que atua ao lado do irmão Lucas.

O time, que faz parte da Liga Gaúcha de Beisebol e tem apoio da Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol (CBBS), está treinando bastante para o campeonato nacional. A competição ainda não tem data definida, mas deve ocorrer entre novembro e dezembro deste ano. O Rio Grande do Sul sempre leva três times para o Nacional. Este ano, o White Tigers será um deles, bem como o Farrapos Beisebol Clube.

Amantes do taco

A estudante Ana Carolina Vasconcelos Machado tem 17 anos e um arremesso potente. Ela é integrante do time White Tigers, de Porto Alegre, há três anos, e, durante toda a entrevista, não largou sua luva de couro. Apesar de ter os cabelos longos e negros, ela não possui traços nipônicos como a maioria da equipe. Os óculos, pretos e de armação fina, não a atrapalham nem um pouco, tanto que arremessa com o olhar de quem está focada em um objetivo.

A desportista treina de olho no Campeonato Nacional (Foto: Tina Borba/Beta Redação)

Alto, de ombros e sorriso largos. Esse é Ederson Gonçalves, conhecido por todos como Dentinho. Ele é jogador do Farrapos, apaixonado pelo beisebol desde os nove anos, quando conheceu o esporte dentro da colônia japonesa de Maringá, no Paraná, uma das maiores do país. Dentinho veio para Porto Alegre, mas nunca deixou a paixão de lado, mesmo tendo que bancar as viagens e o equipamento do próprio bolso. “Este ano jogamos em Curitiba e ficamos em segundo lugar”, enfatiza, comentando que, na oportunidade, foi convidado para fazer uma seletiva para a seleção de softbol. O softbol é bem semelhante ao beisebol pois possuí regras parecidas. Porém é jogado com uma bola maior e mais macia, e em um campo menor.

Incentivo que vem de fora

Integrantes do time White Tigers treinam no Parque Marinha (Foto: Tina Borba/Beta Redação)

A situação de Dentinho é a mesma da maioria dos jogadores de beisebol no Estado. Eles não recebem salários ou incentivos, nem mesmo patrocínio. A CBBS coloca o seu centro de treinamentos à disposição, no entanto, ele se localiza em São Paulo, o que inviabiliza o uso. Conforme Ana Carolina, o único apoio que o time recebe é da Enkyo, que tem um campo em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre. Trata-se da Associação Nipo-Brasileira do Rio Grande do Sul, que tem por objetivo fomentar a cultura japonesa entre os descendentes. Eles recebem material usado de times do Japão e distribuem para os associados, além de promover campeonatos regularmente.

A CBBS é vinculada ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e presidida por Jorge Otsuka, de 70 anos. Há 27 ele dirige a entidade e enfrenta o desafio de difundir o esporte no Brasil sem amparo financeiro. “Não temos nada de recursos, nenhuma instituição nos fornece aporte financeiro. Só temos uma parceria com a Major League, que nos envia técnicos e mantêm eles aqui”, salienta o presidente. Ele explica que atualmente há três técnicos que já jogaram na liga americana e são bancados por ela para atuar na Confederação. Este ano, inclusive, até contrataram um jogador brasileiro, de 16 anos por US$1,4 milhão.

A Major League Baseball (MLB) é a liga americana e uma das principais referências em beisebol no mundo. A outra é a Nippon Professional Baseball (NPB), liga japonesa. O beisebol também tem espaço privilegiado no coração dos venezuelanos, porto-riquenhos e cubanos. A seleção brasileira masculina de beisebol está em 14º lugar no ranking mundial, desde o início do ano, conforme o site da World Baseball Softball Confederation. Lucas Kajiwara diz que ainda falta bastante para o esporte fazer parte da vida dos brasileiros, como o futebol. “É mais complicado, são muitas regras, é preciso trabalho em equipe e muita disciplina”, pondera. Para Jorge, o problema pode estar mais perto do que nunca de chegar ao fim. “O que falta são medalhas. Acho que quando o beisebol for um esporte medalhista vai aparecer mais na TV, as pessoas vão ver e querer jogar também”, comenta.

Passado e futuro, juntos a favor do beisebol

O Farrapos é a primeira equipe do Estado formada por não descendentes de japoneses e procura passar adiante o gosto pelo esporte. Na época da rede social Orkut, eles criaram uma comunidade para pessoas que admiravam o esporte e, por meio de depoimentos e comentários, marcaram um encontro. Foi assim que nasceu o time. Em 2014, a equipe conseguiu ficar em terceiro lugar no Campeonato Nacional. Todo ano, jogadores se reúnem em frente ao Shopping Praia de Belas, no Dia das Crianças, e tentam mostrar para os pequenos os princípios do esporte, deixando que eles arremessem e rebatam. “É um dia bem legal”, celebra Dentinho.

O White Tigers treina todos os domingos de manhã no Parque Marinha. Takayuki Uto, jogador do time, e tio de Thiago e Lucas, salienta que todos são bem-vindos: “Qualquer um pode jogar, não precisa saber nada e nem ter o equipamento. Tem que ter vontade e vir aos treinos. Aqui, aprende tudo”, conclui.

Time Porto Alegre White Tigers Baseball pratica arremessos domingo de manhã em campo improvisado. (Fotos: Tina Borba/Beta Redação)
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