Calorão no inverno traz alerta para mudanças climáticas

Alterações no clima afetam saúde, agricultura, comércio e rotina das pessoas

A capital dos gaúchos registrou, no dia 28 de agosto, temperatura de 33,4ºC em pleno inverno. A medição foi do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e representa um recorde para a estação. O calor fora de época levanta o alerta às alterações climáticas do nosso planeta e também traz consequências nas atividades cotidianas.

Na casa de Nina, o aquecedor já voltou para o seu lugar no armário. (Foto: Denis Machado/Beta Redação)

Na casa da comerciária aposentada Nina Rosa da Motta, a diferença foi sentida nos hábitos. “Eu gosto de inverno. Daquele ritual de me esquentar com o aquecedor, colocar o fogão a lenha em uso, tomar um vinho. Quase não deu pra fazer nada disso este ano”, brinca. Ela conta que o aquecedor, tão usado em anos anteriores, figurou em poucas datas nesta estação. “Tem o lado da luz, que a gente não gasta tanto. Mas dá até um pouco de medo ver o clima desse jeito. Não é normal.”

“Sempre teve uns calorzinhos fora de época, mas a gente percebe que, com o passar do tempo, isso tem se acentuado bastante”, comenta o extensionista rural do escritório da Emater no município de Montenegro, Valmir Michels. Em seu trabalho, ele pôde acompanhar as influências que essas alterações têm trazido na produção agrícola da localidade.

“Nós temos a bergamota montenegrina, por exemplo, que costuma estar dando frutos em julho e agosto, e acaba sofrendo com doenças fúngicas que têm, no calor, ambiente propício para se proliferar”, relata. Ele exemplifica com o fungo conhecido como “pinta-preta”, grande inimigo dos produtores de citrus. A doença ataca os frutos, deixando-os manchados e podendo ocasionar queda prematura. O fruto perde, assim, o seu valor para venda in natura, trazendo prejuízos ao produtor.

Produção de citrus pode acabar sofrendo as consequências das mudanças climáticas. (Foto: Nuno Mourão/Flickr)

Com o calor na região, seguiu-se um aumento na incidência de radiação solar, que afetou também algumas plantas mais sensíveis, como as hortaliças. Valmir explica que essas temperaturas elevadas em um momento em que, naturalmente, elas não são esperadas alteram completamente o ciclo de algumas espécies. “O aquecimento acaba mexendo com a fisiologia de plantas e frutos. Em muitos casos, a florada é antecipada e há amadurecimento acelerado”, aponta.

Foi o que aconteceu com a produção do aposentado Dirceu Machado, que planta em sua propriedade apenas para consumo próprio. “Parece até que a primavera chegou mais cedo por aqui”, aponta. Grande foi sua surpresa quando, ainda em julho, um pé de butiá deu cacho, meses antes do que seria normal. “Eu fiquei surpreso, mas cuidei dele para que vingasse.” O cacho, hoje, já está aberto, e os frutos estão começando a aparecer. No pé de azaleia que tem, Dirceu também viu o desabrochar das flores bem mais cedo que de costume.

Percepção na agricultura é geral

Recentes estudos da Rede Brasileira de Pesquisa e Mudanças Climáticas Globais apontaram que culturas como feijão, soja, trigo e milho serão diretamente afetadas pelas alterações no clima. Tomando como base os hectares cultivados em 2009, projetados para 2030, a redução da área de cultivo do feijão pode chegar a 54,5%. A da soja, 15%.

As projeções vão ao encontro do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que, numa linha de pensamento parecida, concluiu que “no mínimo, as mudanças climáticas vão causar modificações consideráveis na distribuição das plantações, rompendo com o modo de vida de milhões de pequenos produtores”. A preocupação com o café, que precisa de áreas mais amenas para desenvolver os grãos, também é grande.

Haja sistema imunológico!

É consenso entre cientistas que o clima está diretamente ligado à saúde e ao bem-estar. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) testou a influência dessas mudanças em pacientes com rinite alérgica. Foi comprovado que, expostos às alterações climáticas, seus sintomas respiratórios e oculares são agravados.

Em entrevista para o Portal Minha Vida, o pneumologista Hassan Ahmed Yassine Neto apontou o que muita gente já observa na prática: as mudanças de temperatura acabam levando, em muitos casos, a processos alérgicos e resfriados. “Quem mais sofre com as mudanças bruscas na temperatura são crianças e idosos, extremos de idade que têm em comum a imunidade baixa e um sistema respiratório frágil”, complementa.

Roupas de inverno perdem espaço nas lojas

O Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e Malharias da Região Nordeste do Rio Grande do Sul (Fitemasul) divulgou, já no mês de julho, uma projeção de redução de 20% a 30% nas vendas do setor no período. As roupas de frio, que foram sucesso de venda em 2016, com um inverno mais rigoroso, tiveram redução na procura devido ao calor.

Na loja de malhas em que é coordenadora, em Montenegro, Maria Leci de Souza precisou dividir o espaço em dois para abarcar a procura dos clientes. “Separamos um lado para o inverno e outro para o verão”, conta. Ela diz que a equipe teve que improvisar com as sobras da coleção anterior para poder ofertar os artigos para dias quentes.

Na percepção de Maria, a mudança climática, aliada à crise econômica, levou o consumidor a não procurar tanto os itens de inverno, por não serem de primeira necessidade. “Tivemos, então, que antecipar nossa liquidação. Os descontos, que em outros anos eram de 30%, já chegam a 50%. E, mesmo assim, quase não há saída das roupas quentes”, relata.

Na malharia coordenada por Maria Leci, a liquidação não foi suficiente para impulsionar as vendas durante o inverno quente. (Foto: Denis Machado/Beta Redação)

Calor recente é causado por bloqueios atmosféricos

Bloqueios atmosféricos formados por sistema de alta pressão no centro do país estão impedindo que as frentes frias do inverno avancem para o sul. A explicação é do meteorologista Rogério Rezende, da estação porto-alegrense do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Ele indica que esses bloqueios não são fora do comum, mas, usualmente, sofrem influência dos fenômenos El Niño e La Niña, os quais alteram sua formação.

“Esses fenômenos têm apresentado um status de neutralidade neste momento, impedindo os avanços das frentes frias”, explica. El Niño e La Niña são eventos climáticos ocasionados por alterações de temperatura nas águas do Oceano Pacífico, que provocam efeitos em várias partes do mundo. Em estado de neutralidade, eles não agem sobre o sistema de alta pressão, nem sobre os bloqueios atmosféricos, mantendo o tempo quente.

Entenda mais sobre as mudanças climáticas

A Rede Brasileira de Pesquisa e Mudanças Climáticas Globais produziu um vídeo tratando das mudanças climáticas, no qual aborda temas como aquecimento global, efeito estufa e energias renováveis. Confira abaixo:

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