Canoas ganha destaque na prática do judô
Apesar da falta de investimentos, cidade se tornou importante polo do esporte no Estado
Por Karine Dalla Valle e Victória Lima
N o mês de agosto, a comunidade judoca voltou seus olhares para a cidade de Canoas. Entre os dias 16 e 19, o município sediou dois dos maiores eventos de judô no Brasil, o Troféu Brasil e o Grand Prix Nacional, competições que reconhecem os atletas individualmente e por equipes, respectivamente.
Ver judocas competindo por medalhas no Ginásio La Salle, com direito a torcida e cobertura televisiva, é resultado de investimento e dedicação que tornaram Canoas polo do judô no Rio Grande do Sul.
Um dos personagens dessa história é a Kiai — Associação Canoense de Judô. Criada em 2003 pelo atleta Douglas Potrich, a entidade acompanha a trajetória de jovens atletas, por meio de suas escolas, e permite que eles participem de competições nacionais e internacionais. Em 15 anos de atuação, capacitou cerca de 1.060 judocas que conquistaram 530 títulos estaduais na categoria individual e 45 por equipes. Em competições nacionais, foram 30 títulos na modalidade individual, especificidade que é o forte da associação.
Em Canoas, a introdução ao judô inicia já no ensino fundamental. Por meio de dois clubes, o Centro de Ensino de Judô em Canoas (Cejuc) e a G2 Escolas de Judô, a Kiai participa da evolução dos judocas e trabalha para que se tornem medalhistas. A parceria com escolas públicas municipais possibilita que professores da G2 utilizem os espaços das escolas para treinar os alunos interessados pelo judô. Assim que a criança sai do ensino básico e evolui na prática do esporte, passa a receber aulas na Cejuc, onde tem a oportunidade de competir por meio da Kiai.
De acordo com ranking das equipes divulgado pela Federação Gaúcha de Judô (FGJ), a Kiai é a terceira associação com o melhor desempenho, atrás das porto-alegrenses União e Sogipa. Diferentemente da capital, em que os clubes têm grandes equipes e expressivo número de sócios, Canoas é reconhecida pelo histórico de atletas que se desenvolveram individualmente. O próprio Douglas é um exemplo de esforço individual: depois de ganhar diversos prêmios, alcançou o posto de técnico da Seleção Brasileira Masculina de Judô Sub-18.
O desafio
“Canoas é um celeiro de atletas. Muitos saíram daqui e foram para outros clubes”, reconhece Carlos Alberto Lemos, atual presidente da Kiai. “Só que falta incentivo. A prefeitura ajuda, mas podia ser bem mais. Não temos locais públicos para sediar competições, ou mesmo projetos para crianças carentes”, observa.

Políticas públicas tiveram impacto na inserção de crianças no judô em todo o Brasil. Segundo o diretor da FGJ, Luiz Bayard, 60% da Seleção Brasileira é formada por atletas beneficiados por projetos sociais. De acordo com Alvarez Góes, que fundou a Kiai ao lado de Potrich, o programa Atleta Cidadão do Futuro, que contou com edições em 2012, 2013 e 2015, permitiu a entrada de 500 novas crianças canoenses no esporte. Só nos primeiros dois anos foram realizados 45 mil atendimentos por meio do projeto, que financiava aulas oferecidas em escolas do ensino fundamental. “Muitas crianças hoje praticam o judô porque começaram com o Atleta Cidadão do Futuro”, destaca Alvarez. Com a troca de governos, em 2017, o projeto foi extinto.
Um investimento que pode concretizar a prática do judô em Canoas é o Complexo do CIE, que deve ser inaugurado ainda neste semestre pela prefeitura. Inicialmente, o Centro de Iniciação Esportiva se voltará para a ginástica, mas, segundo Tiez, também dará espaço para as lutas. Em relação à investimento, somente a Lei de Incentivo ao Esporte, de 2006, garante apoio público ao judô em Canoas. É por meio dessa lei que a prefeitura abre editais que devem custear projetos — às associações cabe elaborar ideias para levar seus atletas às competições.
Responsável por elaborar esses projetos dentro da Kiai, Alvarez ressalta que só o investimento no esporte fará com que Canoas continue se destacando no judô. Uma das dificuldades do atleta é justamente pagar pelos custos das competições. A Kiai, diz Alvarez, só consegue desenvolver o judoca, mas não cobrir os gastos individuais com viagens e hospedagens. “Condição técnica a gente tem, o que falta é permitir aos atletas que eles viajem”, lamenta.
Apesar dos atletas canoenses não terem conquistado medalhas nas competições em agosto, o fato de ter sido palco de dois grandes eventos do esporte é reconhecimento de que a cidade está no rumo. “É um pouco de retorno e reflexo dessa história que estamos construindo”, destaca o secretário de esporte e lazer de Canoas, Roberto Tietz.

