O racismo no meio estudantil foi abordado em um dos atos. (Foto: Juliana Coin/Beta Redação)

CRÍTICA: Suba no palco e mude a cena, o que você faria nessa situação?

No Dante Barone, a 10ª Edição do Teatro de Fato se mostra visceral ao entregar situações de opressão

Juliana Coin
Nov 19, 2019 · 6 min read

No domingo, 17, no Teatro Dante Barone, os alunos do projeto Teatro de Fato fizeram a primeira apresentação de Histórias Recortadas. A peça é resultado de um curso de estudos teatrais, com duração de 4 meses, em que o grupo apresenta roteiros, personagens e trilha sonora criados por eles mesmos.

Destaque para o fato de que todos são atores amadores, que tiveram pouca ou nenhuma experiência em palco anteriormente. Teatro de Fato é um curso promovido pela Comparsaria das Façanhas, coletivo teatral da cidade de Guaíba, região metropolitana de Porto Alegre.

O grupo deste ano, denominado Bando Maruká, produziu em Histórias Recortadas uma peça baseada em situações reais experienciadas pelos estudantes. Entre os temas abordados, cenas violentas de racismo, violência de gênero, pedofilia e LGBTfobia são empurrados contra o espectador. E que bom que foram.

O apoio é algo que tenta ser estabelecido em várias cenas. (Foto: Juliana Coin/Beta Redação)

O Teatro de Fato é um projeto que ensina técnicas desenvolvidas por Augusto Boal, um teatrólogo brasileiro. O Teatro do Oprimido, desenvolvido por Boal, é um formato de fazer teatro que reúne exercícios, jogos e técnicas teatrais, que acompanham uma reflexão importante: a democratização dos meios de produção teatral, o acesso das camadas sociais menos favorecidas e a transformação da realidade através do diálogo.

O Teatro do Oprimido tem como proposta um sistema, em que o treinamento do ator segue uma série de proposições que podem ser aplicadas em conjunto ou separadamente. Este formato teatral possui vertentes, sendo elas o Teatro-Jornal, Teatro Imagem, Teatro Invisível, Teatro-Fórum, Arco-Íris do Desejo, Teatro Legislativo, Evolução: a Estética do Oprimido.

No curso que originou Histórias Recortadas é desenvolvido fundamentalmente o Teatro-Fórum. A função é causar revolta: os personagens oprimidos e opressores entram em conflito de forma objetiva na defesa de suas vontades. Quando há um confronto, o público é estimulado, e um facilitador do Teatro do Oprimido (conhecido como Coringa), incentiva o público a entrar em cena, substituir um dos personagens e buscar alternativas para resolver o problema encenado.

Em violência de gênero, os atores não pouparam a realidade da agressão física. (Foto: Juliana Coin/Beta Redação)

Este formato de teatro é político e crítico. É para fazer o espectador confrontar as pequenas problemáticas sociais que há em si e no seu meio. Ele requer empatia, já que você não quer ver um adolescente LGBT ser chicoteado pelo pai, um guasca de CTG, nem mesmo uma estudante negra perder seu direito de fala para uma colega branca que tem pais que financiam uma formatura. Então, ao final da peça, os Coringas perguntam: “tem alguma cena que você alteraria?”. E você vai sentir que deve alterar, sugere a cena e é convidado a subir ao palco.

Eu acompanho o Teatro de Fato desde a 6ª edição e posso garantir que Histórias Recortadas foi a melhor de todas. Os atores estavam viscerais, sofriam de verdade no palco. Não percebi grandes momentos de descontração, também, o que é um diferencial. Esta edição não teve um caráter tão cômico como as anteriores. Eles fisgaram o público pela intensidade do comum e infeliz, da trágica realidade.

Outra questão diferencial é que esta edição ressalta a realidade das cenas. Em peças anteriores, tínhamos ficção baseada em situações reais. Em Histórias Recortadas, depois das cenas, dados estatísticos das violências recém retratadas são reforçados pelos personagens. Cada ato inicia com os oprimidos correndo (provavelmente correndo pela sua vida), e no final, temos o resultado: dados exatos que retratam racismo estrutural, violência contra mulheres e assassinatos da população LGBT. Esta peça não é ficção.

O público não interferiu em algumas cenas de racismo. (Foto: Juliana Coin/Beta Redação)

Algo me chamou a atenção sobre o público: nenhuma pessoa nas macias e confortáveis poltronas do Dante Barone sugeriu prontamente alterações nas cenas de racismo. A violência doméstica, pedofilia e homofobia incomodaram mais do que mulheres negras em situações de sofrimento. O público, aquele dia, não pareceu tão chocado diante do preconceito de raça. O que isso fala de nós, que estávamos lá?

Os coringas, em determinado momento, provocam: “E nas cenas de racismo? Alguém?” E então, um homem levanta e altera uma cena. No ato sobre a formatura, sugere que ambas alunas dividam o púlpito para discursar. A mim, não satisfez a resolução. O lugar foi democraticamente determinado para a personagem negra. Já a personagem branca permaneceu por pressão que o poder aquisitivo da família possuía.

Eu interagi em uma cena. Subi no palco como o filho LGBT para enfrentar o pai gaudério. Tentando não dar mais spoilers, acabei desestruturando a família, mas não resolvi a questão de homofobia. Meus argumentos não venceram o pai. E, pior que isso, foi quando desci do palco e me questionei “mas essa mãe aceita o filho?”.

A lata de lixo é um dos elementos mais sutis e mais tenros da história. É um personagem que nunca sai de cena. Está no palco desde o abrir as cortinas até a música cantada ao final. A lata tinha os dizeres “VIDA LIXO” e, conforme as cenas iam acontecendo, parte das caracterizações dos personagens iam sendo depositadas ali.

A relação do morador de rua com os elementos das cenas demonstra empatia. (Foto: Juliana Coin/Beta Redação)

Um batom, um cachecol, uma bandeira. Pensei em duas alternativas para a subjetividade da lata de lixo. Na primeira, uma sensação de descaracterização como invisibilidade e silenciamento. Os oprimidos, conforme sofrem suas opressões, vão sendo colocados no lixo, se submetendo a situações e talvez não conseguindo enfrentar sempre a violência (o que os enfraquece, de certa forma). Assim, o oprimido e suas características são descartados, como fazemos com o que é residual.

A segunda opção é a que devemos colocar as situações de violência nessa lata de lixo. Precisamos nos desfazer das rotinas de opressão, precisamos colocar essas atitudes em um local que não em nós mesmos: fora.

Ao final, um morador de rua, que no início havia aparecido revirando essa mesma lata de lixo, encontra os pedaços dos figurinos que vimos ser descartados um a um ao longo dos atos. Abraça a boneca de uma menina que sofreu pedofilia, brinca com a bandeira colorida de arco-íris, passa o batom. Talvez, ao final de tudo, o morador de rua que buscava alimento revirando os restos das pessoas, fosse mais empático que o público que o assistia.

Esse morador de rua transforma a lata que possui a dor de cada cena em vaso de flor, talvez tentando dizer que algo vai crescer dali, que precisamos de esperança. Me lembrou, de certa forma, uma citação de Nietzche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Depois de tanto resíduo das situações opressoras, é preciso saber regar-se para que essa semente vire flor.

Saí da peça com a certeza que esse projeto pode mudar pontos de vista, formas de agir. Me mudou muito e eu tenho certeza que vai mudar a vida de pais, amigos, irmãos, e qualquer outro espectador. Por isso eu recomendo, reforço e insisto: assistam. Eles foram ovacionados. E mereceram isso.

Histórias Recortadas terá uma segunda apresentação, 24 de novembro, às 18h, no Sindicato de Papel e Papelão (SIMPACEL), Av. Bento Gonçalves, 304 , no centro de Guaíba. A entrada é franca.

Elenco:

Adriana Abreu dos Santos, Adriana Guglieri Caporal, Alice Oliveira de Oliveira, Anaí Antunes da Silva, Andriely Mambac Prieto, Ariane Silva Da Silva, Arthur José da Rosa Devit, Arthur Luiz Osório Corrêa, Arthur Manomics Machado, Bernardo Espitalher Dias, Crislaine Espitalher Dias, Daniela Tatsch Baptista, Ellen Cristina Gonçalves da Silva, Felipe Vicente Lopes, Gabriel Antônio da Silva Santos, Guilherme Machado Siqueira, Jamile Luginski das Neves, Jéssica Rosana Silva Perla, Joyce dos Santos Cardoso, Jorge Alberto de Macedo Acosta Junior, Karen Graciella Gonçalves da Silva, Leonardo Lima de Godoy, Lorena Teodora Fraga Longaray, Matheus Leites de Oliveira, Matheus Wurtzel Antunes, Mikael Segaspini Batista, Nikolas Pagarine Silva, Rafael Barboza dos Santos, Rafaella Brasil Barbosa, Renata Carvalho Pessoa, Stefanie Thais Loyola, Tielen Vasconcelos Michelon, Tífani Isabele de Fraga Medeiros, Thaís Santos Wurtzel, Vanessa Santos Gabrielli.

Encerramento com música composta pelo grupo Maruká. (Foto: Juliana Coin/Beta Redação)

Juliana Coin

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Tentando inserir um pouco de realidade num universo de fake news.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

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