CRÍTICA: ”Wild Wild Country” é um relato da obscuridade entre polos culturais

Série documental sobre comunidade religiosa de origem indiana instalada no Oregon, durante os anos 1980, resgata o caos de uma história quase esquecida

O guru Osho alcançou milhares de seguidores ao redor do mundo. (Foto: Netflix/Divulgação)

Impossível seria negar a ficcionalidade que uma história como a da comunidade Rajneeshpuram carrega consigo. Em muitos momentos, como mero espectador, você se questionará a real magnitude desta trama, ainda mais se você for parte de uma geração que nasceu após o clímax da questão. É nesse ponto que se encontra a grande complexidade de Wild Wild Country, série documental produzida e lançada pela Netflix: como apresentar uma narrativa tão surreal, multifacetada e quase invisibilizada nesse formato?

A grande saída escolhida pelos diretores, os irmãos Maclain Way e Chapman Way, foi a de negar um foco em específico, ou seja, abdicar da tão preciosa voz do documentário — conceito apresentado pelo pesquisador Bill Nichols, que denomina a ótica escolhida pelo documentarista sobre o assunto documentado — e, assim, abrir espaço para uma estrutura mais ampla, onde, ao longo de seis capítulos, todos os personagens têm a voz e a vez de narrativa.

É exatamente nessa escolha que a série documental acerta em cheio, pois um ponto de vista em específico ofereceria ao público uma versão simplista do que na verdade foi um pandemônio de ações e reações, que incluem crimes, preconceitos, conspirações, fanatismo, a construção de uma cidade gigantesca no meio do deserto, milhões de dólares e muito drama sensacionalista da mídia americana no topo da popularidade dos programas de talk show e de notícias da década de 1980.

Não que a história não possua seus protagonistas ou determinados enfoques, até porque os entrevistados são as estrelas da narrativa. Uma das principais é Ma Anand Sheela, secretária pessoal de Bhagwan. Aquela que, em sua primeira aparição, nos recepciona com a impactante fala: “Toda coroa vem com sua guilhotina. Sem a guilhotina, você não pode usar a coroa. Era o meu destino”. Sem perceber, aprendemos a amá-la e odiá-la nas mais diversas e profundas emoções, que acabam deixando a questão: foi ela uma mártir ou uma mente maquiavélica? Ou ambos?

Sheela foi a polêmica porta-voz do líder espiritual, na época conhecido como Bhagwan Shree Rajneesh. (Foto: Netflix/Divulgação)

Acostume-se, os sentimentos contraditórios que a produção nos faz encarar e refletir colocam todos em uma verdadeira montanha-russa de percepções. A magia se encontra na realização das entrevistas e na edição de suas múltiplas falas, que ao longo do roteiro constantemente expõem novas concepções, revelando as pequenas hipocrisias de cada entrevistado e colocando muitas delas em xeque, sem que nenhuma fonte seja coagida ou confrontada.

Talvez, a melhor maneira de expressar o modo de execução do documentário seja a fala de Bill Nichols, retirada do livro Introdução ao Documentário: “o efeito corresponde menos a ‘veja isto desta forma’ do que a ‘veja por si mesmo’”. Definitivamente, nesta produção, o público é responsável por julgar e tirar suas conclusões sobre cada uma das atitudes e comportamentos, algo um tanto complexo se levarmos em conta as inúmeras reviravoltas que a história toma.

Nesse ponto a produção demonstra seu verdadeiro foco, que em nenhum momento é repassar as filosofias de Baghawn (muito menos, focar-se nele) ou relatar os acontecimentos da época de forma meramente informativa, algo notável pela falta de informações e dados históricos mais aprofundados (um dos poucos defeitos da produção). O objetivo, na verdade, é abordar as positividades e negatividades de ambos os lados, eliminando a velha premissa de que existe um lado certo e um errado, os bonzinhos e os vilões. Aprende-se, já no primeiro capítulo, que nada é preto no branco. Estamos em um ambiente cinza, onde ações levam a reações, e a sobrevivência (o instinto nato humano) toma lugar de qualquer moral.

Alguns temas que se destacam como cruciais nessa caminhada são os choques entre culturas, demonstrados fortemente através das atitudes dos moradores americanos da pequena cidade vizinha de Antelope, que julgam ter suas terras invadidas por estrangeiros, esquecendo-se que eles próprios estão em uma nação que originalmente foi brutalmente tomada por imigrantes (seus antecedentes, por sinal). Sem falar na visível intolerância religiosa, sobre a qual podemos questionar: seria “seita” a nomenclatura de qualquer religião fora dos padrões considerados normativos?

A construção da cidade com conceito de sustentável e moderna também levanta várias questões, desde uma reflexão sobre os formatos urbanos que vivemos hoje até o fator econômico que sustentou a epopeia que foi construir uma cidade do zero. Bom, se isso não levantar dúvidas sobre as economias da comunidade, os quase 20 Rolls Royces pertencentes a Bhagwan lhe instigarão a curiosidade.

Conceitos e narrativas à parte, também não se pode desmerecer o fator imagem, cujo destaque está na fotografia, que nos presenteia com filmagens desoladoras e de impacto do ambiente que um dia foi uma grande cidade de meditação, amor, conhecimento e muitos fatores que permanecerão eternamente debaixo dos panos. E nas imagens de arquivo, que foram escolhidas a dedo entre as múltiplas horas de gravação entregues aos diretores, com as mais diversas imagens que capturam de forma bem intimista parte da alma dos “seguidores das roupas alaranjadas e rosadas”.

Trailer de divulgação da série documental Wild Wild Country. (Vídeo: Netflix/Youtube)