(Foto: Helen Appelt/Beta Redação)

Crônica da descoberta do violão clássico

Estilo menos conhecido do instrumento revela lindas notas e melodias de músicas eruditas

Helen Appelt
Aug 31, 2018 · 4 min read

Do lado de fora, a cor rosa já desbotada do prédio não é das mais atrativas para quem passa pela Rua Doutor Flores, no Centro de Porto Alegre. Porém, esta semana é possível perceber olhares curiosos em direção ao Instituto de Artes da UFRGS, enquanto os sons de violinos e violões se misturam e penetram nos ouvidos de quem passa pela calçada. No local, está acontecendo o 10º Festival de Violão, até o dia 2 de setembro. Embora o festival traga como assunto geral o violão, a versão clássica do instrumento, também conhecida como erudita, ganha destaque.

Em frente às catracas de acesso ao saguão principal, uma porta grande de madeira estava fechada. Faltava um bom tempo para a entrevista com os violonistas. Logo chega por mensagem o convite para assistir à palestra com Fernando Araújo, da Universidade Federal de Minas Gerais, intitulada “Os manuscritos de Francisco Mignone”. Ao abrir a porta, encontra-se o auditório de teto côncavo, paredes brancas e assentos de madeira que tornam o local convidativo. Os bancos rangem quando alguém recém chega para se acomodar. O palco emoldurado por um arco dá destaque à clássica cortina vermelha ao fundo. Neste novo mundo, foi possível descobrir mais sobre música.

Fernando Araújo palestrando no X Festival de Violão da UFRGS. (Foto: Helen Appelt/Beta Redação)

Encerrada a palestra, o músico e professor Daniel Wolff abre um sorriso e se propõe a explicar melhor o estilo clássico, ao lado dos violonistas Fernando Araújo e Celso Faria. O tempo era curto. Cercado por paredes brancas com quadros coloridos e janelas enormes que iluminavam o ambiente, Fernando explica que entender a diferença entre o violão clássico e o popular é uma tarefa complexa. Este estilo tem algumas distinções, como unir a melodia e o acompanhamento pelo fato de ser o único instrumento. Já no popular, geralmente a melodia está acompanhada de outros instrumentos e da voz. Mas isso não é regra.

Embora a explicação seja válida, não quer dizer que é verdadeira por completo. Com meio sorriso, Fernando relata: “Essa diferença entre clássico e popular é complexa na área musical também. Diferenciar o popular do clássico é instintivo quando se escuta. Tem muito mais a ver com o repertório que é tocado do que com a técnica”. Para o músico, o clássico não é diferente das demais canções: “É como o funk, que tem sua batida diferenciada do hip hop, ou do molejo do samba, e por aí vai”. Fernando acrescenta que o clássico tem vários estilos. Pode ser clássico de concerto, jazz, blues.

Com a mochila nas costas, ouvindo e participando atentamente da conversa, Celso diz que para ele o violão clássico é uma forma de expressão diferenciada, pois permite que a pessoa escolha a época e até mesmo a tonalidade que a música será tocada. “Para mim, o violão clássico é uma forma de comunicação que eu tenho com um determinado público”, diz Celso, “como qualquer outra música”, complementa Fernando. Daniel salienta: “Tudo é uma questão de afinidade. Você escuta uma música em situação de nervosismo, por exemplo, e outra quando tranquilo”.

A tonalidade do violão clássico, conforme Celso, se dá através das técnicas e do próprio material utilizado. As cordas variam de tom e permitem um resultado que vai do suave do náilon até o vibrante das cordas de aço. O dedilhado, ou o modo arrastado, como se diz quando os dedos deslizam em todas as cordas, também faz a diferença. A técnica do toque é de acordo com o estilo. O flamenco, por exemplo, é tocado de maneira arrastada, enquanto o dedilhado é mais utilizado em choro.

Após apertos de mãos e agradecimentos, Celso seguiu para dentro do auditório com Daniel para a próxima palestra e Fernando seguiu para o hotel. Enquanto anotava algumas palavras-chaves, o som de um violão acompanhado de risadas chamou a atenção. O aluno Jean Lopes, de 24 anos, conversava com um amigo. Animado e simpático, como violonista e fã de música, o jovem opinou sobre a forma como a sociedade pode conhecer o estilo clássico. “O ideal para a população conhecer esse outro lado do violão é levá-lo para os lugares que não têm acesso a esse tipo de cultura, mostrá-lo através de apresentações em escolas e espaços públicos”, sugeriu. Segundo Jean, as apresentações de concerto raramente ocorrem fora das regiões centrais.

Jean Lopes tocando o instrumento com seu amigo Eduardo no saguão do Instituto de Artes da UFRGS (Foto: Helen Appelt/Beta Redação)

O violão clássico pode levar a outro nível de conhecimento na cultura musical. Descobrir que um instrumento usado para música popular também serve para lindas notas e melodias de músicas eruditas é como descobrir uma nova poesia. É descobrir novos nomes, sentimentos e biografias.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

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