Deputados do MDB prometem oposição responsável ao governo Leite

Tiago Simon e Gabriel Souza avaliam nova postura do partido de Sartori, derrotado na eleição ao Piratini

Maior representação na casa em 2019 ao lado do PT, com oito deputados, o MDB, derrotado na eleição estadual, discute agora qual será sua postura perante a administração de Eduardo Leite (PSDB). Dois dos oito deputados eleitos, Gabriel Souza e Tiago Simon, afirmam que não farão uma oposição radical, colocando interesses do Estado acima de questões políticas.

Entrevistados pela Beta Redação, os deputados reeleitos para o seu segundo mandato dão mais detalhes de como será a postura do partido frente ao governo tucano, eleito numa eleição equilibrada contra o até então governador Sartori, em outubro deste ano.

Cadeiras do plenário da Assembleia Legislativa serão ocupadas por 28 novos nomes a partir de 2019. (Foto: Wilson Cardoso/Agência ALRS)

Líder de Sartori pretende “fiscalizar cumprimento de promessas”

Médico veterinário e pós-graduado em Gestão Pública, Gabriel Souza recebeu 52.953 votos no pleito deste ano. Com a expressiva votação, foi o mais votado do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Natural de Tramandaí, no Litoral Norte, o deputado, que tem 34 anos, divide seus dias entre a Assembleia Legislativa, o consultório veterinário e os municípios gaúchos.

Com uma vida partidária ativa desde a adolescência, logo no primeiro ano de mandato na Assembleia Gabriel foi indicado líder da bancada emedebista e presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). No entanto, desde o início de 2016, assumiu um compromisso mais importante: a liderança de governo. Nesse papel, Gabriel foi um dos mais jovens até hoje a assumir o cargo.

Deputado Gabriel Souza promete fiscalizar o trabalho do governador Eduardo Leite (Foto: Juliane Pimentel)

No entendimento do deputado, a experiência como líder proporcionou um maior preparo para, a partir do próximo ano, atuar desta vez não na base do governo, mas sim numa bancada independente. “Vamos fiscalizar o novo governo no cumprimento das suas promessas de campanha e, ao mesmo tempo, não impedindo que a nova administração execute as mudanças necessárias e com as quais eventualmente concordaremos”, salienta.

Desde que assumiu a função de líder do Governo, Gabriel é o principal articulador do Executivo para a aprovação em plenário de projetos como a Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual, as políticas de combate à sonegação fiscal e a diminuição do tamanho do Estado, com o apoio ao projeto de adesão ao Regime de Recuperação Fiscal.

Perguntado sobre a mudança de comando no Palácio Piratini e a postura do MDB a partir do próximo ano, Gabriel é enfático na resposta. “O PSDB, de Eduardo Leite, esteve no governo Sartori até o terceiro ano de mandato, portanto, ajudaram a aprovar projetos de ajuste fiscal”, explica. “A partir de 2019, seguiremos nosso trabalho na Assembleia, fiscalizando as ações do governo e trabalhando de forma independente e responsável”, acrescenta.

Para o deputado, Eduardo Leite concordava em grande parte com o projeto do governador Sartori, o que mostra que existia um alinhamento político. “Entendemos que teríamos o nosso projeto derrotado caso um dos grupos mais alinhados com a esquerda vencesse a eleição, como o PT, de Miguel Rossetto, e o PDT, de Jairo Jorge, o que não ocorreu”, salienta.

Em 2017, Gabriel acusou Eduardo Leite de ter se aliado com a esquerda e as corporações que “são contra o povo decidir sobre o futuro do Rio Grande do Sul”. Na época, o emedebista chegou a dizer que “assuntos inadiáveis devem ser tratados imediatamente, ainda mais quando viveremos um momento eleitoral em que a população irá cobrar posicionamentos claros e objetivos sobre as questões do Estado”.

Questionado sobre a postura a partir do próximo mandato, Gabriel revela que o objetivo do MDB é fazer uma oposição responsável, com independência para votar os projetos considerados importantes para o desenvolvimento do Estado. “Votaremos a favor quando os projetos enviados pelo futuro governo vão ao encontro daquilo que defendemos: um Estado no tamanho necessário e voltado para as áreas onde a população mais precisa, como saúde, segurança, educação e infraestrutura”, pontua.

Tiago Simon diz que partido buscará “coerência”

Filho de Pedro Simon, Tiago entende que tomada de decisões não será individual. (Foto: Juarez Júnior)

Filho do ex-governador e ex-senador Pedro Simon, Tiago Chanan Simon, 50 anos, natural de Porto Alegre, inicia em janeiro de 2019 seu segundo mandato na Assembleia Legislativa. Foi reeleito com 45.792 votos, mais de 13 mil a mais do que no primeiro pleito, quando obteve 32.717.

Após quatro anos de trabalho na situação, Tiago é cauteloso ao responder sobre a sua postura em relação aos projetos do governo de Eduardo Leite. “Isso será discutido oportunamente com a bancada, que se reunirá para tomar uma posição em relação aos projetos do novo governo”, revela. “Não haverá tomada de decisão de forma individual, mas certamente buscaremos a coerência que nos é peculiar”, acrescenta.

Desde a infância, Tiago acompanhou a trajetória política do pai, com quem, segundo ele, aprendeu a trilhar os caminhos da ética e da transparência. “Como deputado estadual, estou comprometido com uma política honesta que luta, incessantemente, pela melhoria das condições de vida da nossa gente”, destaca. “Na Assembleia Legislativa tenho trabalhado em prol da geração de empregos e do desenvolvimento econômico, articulando estratégias para facilitar a abertura de novos negócios, desburocratizando rotinas e catalisando ações para que a sociedade civil seja, cada vez mais, protagonista das transformações tão necessárias”, enfatiza.

Cientista político avalia risco de “vingança política”

No entendimento de Bruno Lima Rocha, cientista político, professor de Relações Internacionais e de Jornalismo da Unisinos, a troca de comando no governo aumenta o poder de barganha de quem foi derrotado. “As possíveis dificuldades do governador eleito para a aprovação de projetos poderão ser fatores para que ocorra uma ‘vingança política’ por parte da base emedebista”, argumenta Bruno. “Assim como o partido de Sartori perdeu o apoio do PSDB durante o governo, os deputados do MDB poderão fazer o mesmo agora”, explica.

Bruno acredita que o partido que está encerrando seu mandato à frente do governo não irá se atirar de cara para a oposição, pois as ideias não estão alinhadas com o PT. “Além disso, se juntar ao PSDB logo no início do governo, descartaria a ideia de um plano B do partido para o próximo pleito”, pontua.