Desconstruindo o tabu da sexualidade feminina

Seja sexo, menstruação, orgasmo ou masturbação, a repressão sobre o assunto gera problemas no autoconhecimento

Com uma sociedade onde por muitos séculos a religião ainda fomenta a ideia de a mulher ser submissa e não ter poder sobre o seu próprio corpo, querer conhecê-lo é visto como errado. A reprodução desses discursos acabou influenciando diretamente no desenvolvimento da sexualidade feminina.

Na pesquisa Mosaico 2.0, da psiquiatra Carmita Abdo, da USP, publicada pela Veja/SP, foi constatado que 40% das mulheres nunca se masturbaram. Dados como esse acabam sendo reflexos de uma cultura repressora, que vai contra o conhecimento das mulheres sobre seu corpo, poder e direitos.

“Não é incomum uma menina que foi se tocar e foi pega. Alguém disse que era para tirar a mão porque é feio, ‘fecha as pernas porque é feio’, ‘não namora demais’, ‘olha o que aconteceu com a fulana’”, frisa a ginecologista, obstetra e sexóloga Sandra Scalco.

Segundo Sandra, a cultura sem dúvida influencia no desenvolvimento sexual das mulheres, sendo que grande parte delas nem se dá conta do quanto isso as afeta. “A gente às vezes carrega crenças tão intrínsecas que surgiram pelo meio no qual fomos criadas e que vão nos afetar em outras coisas, assim como também no desenvolvimento normal da sexualidade”, afirma.

No vídeo, reações de mulheres que estavam conhecendo suas vaginas pela primeira vez. (Vídeo: Davey Wavey/Youtube)

A estudante de Odontologia Nóila Kawine da Silva Pereira, 23 anos, sabe bem como é viver com essa ideia de que seria errado conhecer o corpo. “Minha mãe é religiosa, e isso fez com que meu entendimento sobre o meu corpo e sexualidade fosse quase nulo”, conta. Segundo ela, esse desconhecimento todo contribuiu para que tivesse vergonha do próprio corpo, que se culpasse por coisas que deveriam ser completamente normais.

“Esses discursos também contribuem para a normatização do assédio e da submissão da mulher perante o homem”, afirma Nóila.

Para pesquisadora do Núcleo de Antropologia do Corpo e da Saúde da UFRGS Bruna Kloppel, de uma forma geral, é difícil falarmos de tabus em torno dos corpos, sejam masculinos ou femininos nas sociedades ocidentais. “Movimentos às vezes contraditórios se dão simultaneamente. Então, se por um lado temos um aumento de um entendimento da sexualidade pautado pelas religiões, temos também um aumento da visibilidade da perspectiva feminista em relação aos corpos e à sexualidade.”

Mulheres estão cada vez se conhecendo mais. (Créditos: Big Mouth/Reprodução Netflix)

O desprendimento desses tabus

“A mulher precisaria ser mais protagonista da sua própria sexualidade”, diz Sandra Scalco. Segundo a sexóloga, só 10% (ou menos) das mulheres irão dizer com toda segurança que conseguem ter orgasmo todas as vezes que transam, e isso tudo é influência cultural. “Mesmo pegando pessoas com alta performance, como a gente chama de mulheres que tem três ou mais relações por semana e chegam ao orgasmo sete ou mais vezes em cada 10 relações. Todas ali com 1º grau completo, faixa etária de 40 anos, elas não têm tanta iniciativa. A cada 10 relações, são uma ou duas vezes. Tudo isso tem uma boa parcela de influência cultural, porque a mulher não se permite ainda tomar a iniciativa, acha que é o homem que deve. Isso é meio subliminar, está no inconsciente, mas ainda é um comportamento”, afirma.

Muito disso vem mudando nos últimos anos, o que em grande parte é resultado de movimentos que falam da questão do protagonismo feminino, outra bandeira que a sexóloga apoia.

“De uns anos para cá, o que começa a acontecer? A luta pelo parto normal, o engajamento, a atitude de poder decidir, de se impor mais. Era um absurdo de cesáreas que aconteciam sem que houvesse questionamento, e isso tá mudando, mas vai de um consciente coletivo, muita fala, muita atitude. A própria questão do aborto, muitas nem sabem os serviços de referência porque ainda fica tudo muito velado. Imagina tu sofrer um estupro e não saber que pode interromper (a gravidez)?”, questiona.

A dificuldade da informação está muito atrelada à repressão da sociedade sobre as mulheres, mas as redes sociais estão mudando essa visão.

Para Nóila, a internet e os movimentos sociais possuem um papel fundamental para seu autoconhecimento e percepção da situação atual da mulher perante a sociedade. “Com a internet eu pude me envolver em coletivos feministas, aprendi e ainda aprendo a me conhecer. Pude identificar discursos que de alguma forma possam sufocar as minhas vontades ou ditar leis sobre o meu corpo”, frisa.

É por causa desses movimentos que Sandra acredita que há o incentivo para uso do coletor menstrual, algo que necessita que a mulher conheça seu corpo. “As mulheres não se tocam direito, não sabem nem onde fica o clitóris. O clitóris não é só aquela glândula, é todo um entorno na vulva, a maioria só se excita com o clitóris. Essa história de se tocar, conhecer para colocar o coletor, acho que é mais uma coisa acontecendo dentro desse panorama que faz com que a mulher venha a se questionar mais, tenha mais destreza, se coloque melhor.”

Conforme aponta a pesquisadora Bruna, a perspectiva feminista associa o autoconhecimento à liberdade de escolha e ao direito ao prazer.

“Tal entendimento também ganha força porque vai ao encontro de uma nova forma de se pensar a saúde, na qual o autogerenciamento e a responsabilização individual são centrais, e a sexualidade também passa a ser pensada em relação à saúde. Novos entendimentos do corpo e da sexualidade têm a ver, portanto, com uma resistência das mulheres, mas também têm relação com a institucionalização de uma certa ideia de saúde, seja em organizações internacionais como a OMS ou no mercado de saúde”, afirma Bruna.

Nóila percebe uma diferença, mas acredita que a caminhada ainda é longa. “Não é raro ouvir, entre as minhas amigas, que elas acham comum homem ter nojo de fazer sexo oral. Enquanto elas se obrigam a fazer, deixam de transar no primeiro encontro com medo do que o homem vai pensar, fazem sexo sem vontade ou até mesmo são levadas à maternidade de forma compulsória”, explica.

Só que Sandra alerta que também existe a necessidade de individualizar, pois cada mulher responde de uma maneira ao uso da pílula, toques e decisões sobre seu corpo. “Tem mulher que usando a pílula se sente tão mais segura que acaba refletindo isso no sexo. É importante não ir ao extremo, é bem bom que se conheça, que se toque, mas cada uma com sua individualidade.”

“De qualquer forma, todas as coisas que envolvem a história do coletor, discussões sobre menstruação, sobre sexualidade e afins são formas de elas se informarem e serem protagonistas das suas vidas, inclusive sexual, a saúde sexual como um todo. Formas de ela poder não querer que alguém chegue e imponha algum método, que ela possa decidir, discutir junto, que ela possa se antenar sobre essas coisas”, diz a sexóloga.

Segundo Bruna, o aumento da liberdade e do direito ao prazer para as mulheres convive, portanto, com certa pressão para o autocuidado e autoaprimoramento constantes, que também recai principalmente sobre elas. “Principalmente no que tange aos padrões de beleza e de comportamento que, ainda que sejam diferentes dos esperados em outros contextos, também podem ser pesados”, completa.

Fazendo um recorte dos últimos 20 anos, as mulheres têm buscado mais ajuda, estão mais conscientes, informando-se e pedindo ajuda a seus médicos/psicólogos. “Eu acho isso tudo ótimo, mas acho que a gente ainda tem que melhorar bastante.”

Questões como dor na relação sexual, orgasmo e desejo são três grandes áreas sobre as quais, segundo Sandra, as mulheres têm ido atrás de informações. “São 30%, 40% das mulheres que possuem algum problema sexual, e isso é muita gente. Mas elas têm procurado informação, se questionado mais. Todo esse panorama está muito melhor, mas precisa ainda melhorar.”

“Enquanto o patriarcado ainda determinar o que é aceitável uma mulher fazer com o seu corpo, teremos muita luta pela frente”, finaliza Nóila.