Amanda Büneker
Apr 29 · 5 min read
Divas busca mostrar que o voleibol LGBT+ também possui competência e habilidade. (Foto: Arquivo Pessoal / Divas do Vale)

A quadra de vôlei é a mesma, mas há algo de diferente. Entre saques, levantamentos e ataques, o jogo se transforma com passos de dança, espacates, celebrações, “afrontas” e, principalmente, muita alegria. Esse é o cenário dos jogos das Divas do Vale, uma das muitas equipes gaúchas LGBT+ (sigla que representa lésbicas, gays , bissexuais, transgêneros, transsexuais, travestis, intersexuais e não-binários).

“A equipe é formada por vários amigos e nossa essência é a diversão e a competitividade”, descreve um dos idealizadores da equipe, Leonardo Barbosa Lima, 23 anos, que ocupa a posição de central em quadra. Juntamente com Patrick Moraes e Jémerson Santos Natal, ele convidou outros atletas conhecidos de competições mistas para um jogo amistoso. Assim, um tempo depois, em setembro de 2018, nasceu oficialmente a Divas do Vale.

Reunindo atletas de cidades dos vales do Rio dos Sinos, Caí, Taquari e Rio Pardo, o nome da equipe foi inspirado justamente nestas regiões do Rio Grande do Sul, assim como, na expressão da cultura queer “vale dos homossexuais”. Já o ‘divas’ representa as personalidades da cultura pop, como Madonna e Beyoncé, da mesma forma que traduz a presença dos atletas em quadra.

Histórico de vitórias

Em menos de um ano, as Divas já conquistaram três medalhas em competições. (Foto: Amanda Büneker / Beta Redação)

Com menos de seis meses de história, o curto período não se compara às grandes conquistas já alcançadas pela Divas do Vale. A equipe já levou para casa o vice-campeonato nos Jogos de Verão da Diversidade, na Orla do Guaíba; o terceiro lugar na Copa Magia, disputada em Porto Alegre; e o almejado título na 1ª edição da Copa Sul Gay de Voleibol, realizada em Florianópolis.

Devido à distância, a equipe realiza somente um treino por mês, totalizando três horas. Ainda assim, eles se preparam para duas competições importantes. A primeira é a Super Liga LGBT+ gaúcha, que inicia no sábado, 4 de maio, em Porto Alegre, e conta com 12 equipes. A segunda é a Gayprix, que será disputada entre 20 e 23 de junho, no Rio de Janeiro.

Para a primeira disputa a equipe conta com a assistência do SESC Navegantes, de Porto Alegre, que oferece suporte técnico e disponibiliza sua quadra e materiais esportivos para os treinos de todas as equipes inscritas na competição.

Para a Gayprix, que reunirá 20 times nacionais e internacionais, incluindo dois argentinos e um uruguaio, o apoio econômico para custear as inscrições e a estadia durante o período na capital carioca virá da venda de rifas.

Tal e qual uma família

Para o levantador do Divas, Jémerson, “o esporte é como uma segunda casa”. Nascido em Aracaju, Sergipe, ele encontrou aos 12 anos, na escola, a paixão pelo esporte. Aos 16 anos tornou-se jogador da seleção de vôlei sergipana juvenil e nunca mais abandonou a prática, mesmo durante os períodos de foco na carreira profissional em cidades como Salvador e São Paulo. “Às vezes, me passa um filme na cabeça, de tudo que vivi”, responde ao descrever a sensação ao entrar em quadra.

Morando atualmente em Canoas, ele conta que retornou ao Rio Grande do Sul, onde já havia vivido na infância. Aqui encontrou parceiros de esporte que se tornaram sua família local. Junto com “suas meninas” — como chama os atletas do Divas do Vale — sente-se mais poderoso em quadra. “Estamos sempre nos apoiando para não perder o gingado”, comenta.

Inspirados no lema “ninguém solta a mão de ninguém”, as Divas se estão sempre abertas para acolher quem for, tendo como principal objetivo eliminar a visão negativa que muitos atrelam à causa LGBT+.

Esporte LGBT+

Jogos demonstram perfil animado da equipe. (Foto: Arquivo Pessoal / Divas do Vale)

Com características à parte, o voleibol LGBT+ se destaca pelos elementos da cultura queer integrados ao jogo, sempre com performances muito animadas. “Não é a torcida que nos anima, mas somos nós que animamos a torcida”, explica Jémerson. Tanto que, muitas vezes, antes das competições, os times realizam apresentações temáticas. Um exemplo disso é a apresentação da música Vogue, da cantora Madonna, realizada pelas Divas do Vale na Copa Sul Gay de Voleibol.

As rixas também estão fortemente presentes neste meio, com os embates e o famoso afronte, termo popularmente utilizado para designar provocações entre os times. “É bastante competitivo, pela raça LGBT e as personalidades fortes. Todos dão o sangue”, frisa o levantador das Divas. Para ele, os enfrentamentos diários dos LGBTs e a atitude de nunca abaixar a cabeça criam um ambiente de apoio e de força de vontade, o que eleva a rivalidade, porém, sempre com respeito.

Respeito que nem sempre encontram no esporte em geral. Com pouco espaço, os atletas LGBT+ enfrentam barreiras para construir uma carreira esportiva e, ao mesmo tempo, assumir sua sexualidade. O que demonstra, para Leonardo Barbosa, a importância das equipes LGBT+. “Para muitos, estamos criando mais uma desculpa de exclusão. Mas o voleibol LGBT é uma das formas de mostrarmos que, sim, somos capazes e temos competência para qualquer coisa”, pontua.

O central do Divas do Vale lembra que todos os atletas do time já enfrentaram situações discriminatórias. “A maior parte dos preconceitos visam ‘anular’ o jogador, não colocando ele para jogar por ser gay. Isso me aconteceu na infância e foi muito triste, pois sabia a capacidade dos outros jogadores e me via em quadra”, relatou.

Equipe utiliza o esporte como meio de diminuir o preconceito. (Foto: Arquivo Pessoal / Divas do Vale)

Mesmo assim, os atletas acreditam no esporte como uma ferramenta para diminuir essas situações. “O esporte tem o poder de mudar as pessoas”, declara Jémerson. Ou seja, a prática esportiva pode abrir portas para diversidade, além de aprofundar as relações humanas. “Vi que o esporte pode transformar e ajudar muitos jovens. Hoje tenho os melhores amigos através do Voleibol. Esse esporte já me trouxe diversos sentimentos, tanto de alegria quanto de tristeza, mas nunca desisti”, complementa Leonardo.

Cenário gaúcho

Na visão de Jémerson, o sul é uma das regiões com o maior número de equipes LGBT+. Um exemplo disso é o PampaCats, primeira equipe poliesportiva gay do sul do país. Entre os times que disputarão a Super Liga do Rio Grande do Sul, além do Divas, estão: Thunders Sport Club (Novo Hamburgo), Battel Force (Canoas), Maragatos (Porto Alegre), POCs (Caxias do Sul), Magia (Porto Alegre), PampaCats (Porto Alegre), Fireballs (Porto Alegre) e Avalon (Porto Alegre).

Jémerson espera que um dia a Federação Gaúcha apoie as equipes LGBT+ da mesma forma que sonha com um calendário oficial de competições nacionais.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

Amanda Büneker

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