Ecofeminismo: A conexão entre mulheres e meio ambiente

Você já se perguntou sobre o surgimento de métodos orgânicos e sustentáveis na vida das mulheres nos últimos anos? Existe um movimento que engloba isso e muito mais

(Arte: Franciele Arnold)

Bruna Monique Santos Ferreira, de 29 anos, formada em Publicidade e Propaganda. Ela é ativista ambiental, considera-se vegetariana com planos de se tornar vegana, utiliza o coletor menstrual, busca um consumo mais sustentável e planeja utilizar fraldas de pano quando tiver filhos. Mas o que ela e muitas não sabem é que essas ideias e éticas são parte de um movimento denominado ecofeminismo. Um termo ainda timidamente utilizado no território nacional, mas que engloba uma grande parcela de ações e ativismos.

É visível o crescimento de mulheres que procuram formas alternativas e ecológicas aos hábitos de seu dia a dia. De higiene feminina, cosméticos, alimentação, vestuário, lazer e economia a engajamento em ações sociais. É o repensar do papel feminino em relação ao cuidado com o meio ambiente.

Segundo Daniela Rosendo, doutora em Filosofia e pesquisadora do ecofeminismo, a área abrange as relações entre diferentes formas de opressão e a luta contra elas. É a interconexão entre feminismo, ambientalismo, animalismo e outras situações de vulnerabilidade. O ato de “perceber que por trás de todos esses ‘ismos’ há a mesma lógica de dominação decorrente de uma estrutura conceitual opressora”, complementa Rosendo.

O termo, segundo pesquisas da filósofa ecofeminista Karen J. Warren, tem origem durante o movimento da contracultura na década de 1970, pela feminista francesa Françoise d’Eaubonne. Ela, na época, utilizou a expressão “ecological feminisme” para indicar o potencial das mulheres em uma revolução ecológica. Durante esse mesmo período, o Movimento Chipko, na Índia, utilizou-se das mesmas éticas, tendo a mulher como protagonista na resistência pacífica em prol da preservação das florestas locais.

A causa além do individual e urbano

O ecofeminismo, assim como o feminismo, possui várias vertentes. Mas sua essência consiste em buscar um pensamento coletivo e realizar um exercício diário de reflexão. Conforme a frase de resistência utilizada pela Marcha Mundial das Mulheres, “é preciso mudar o mundo para mudar a vida das mulheres”. Segundo Cíntia Barenho, coordenadora executiva da MMM e do Centro de Estudos Ambientais, não adianta ter o seu corpo livre, libertar somente o eu, enquanto estamos explorando a natureza. E é necessário o cuidado de que o movimento não leve em consideração apenas os centros urbanos, mas também a realidade das mulheres do campo.

É preciso pensar em soberania alimentar, agroecologia, autonomia e cuidados com a terra e a água. Áreas onde as mulheres já demonstram um grande protagonismo e onde há a existência de movimentos como a Marcha das Margaridas, realizada por mulheres que trabalham em área rural. Porém, Cíntia acredita que esses pensamentos são coisas a serem ainda incorporadas pelos demais movimentos.

Precisamos falar sobre menstruação

A liberdade da menstruação ainda é um assunto tabu para a sociedade. O ecofeminismo se insere nesse contexto com o debate de diferentes métodos de lidar com o ciclo menstrual. Um exemplo é a substituição do absorvente descartável por formas mais ecológicas e que repensem questões de consumo e produção de lixo, como o coletor menstrual, existente desde a década de 1930; o absorvente de pano, que já havia sido repopularizado durante a década de 1970, pelo movimento da contracultura; a calcinha menstrual, tecnologia lançada nos últimos anos; e as esponjas naturais, a alternativa mais ecológica dentre todas. A partir dessas experiências, as mulheres também ganham a oportunidade de quebrar estigmas como o nojo.

“É uma nova perspectiva sobre o cheiro, sobre conhecer seu corpo”, diz Cíntia Barenho.

Na opinião de Bruna Ferreira, “muita gente tem preconceito e nojo. Acho que é o medo do desconhecido”. Ela optou por abandonar o absorvente descartável há três anos e já ouviu falas de preconceito por sua escolha.

Segundo Martina Maria Borrat, representante de marketing da marca de coletores Fleurity, houve um crescimento significativo de 1.000% nas vendas desde dos primeiros meses de 2016 até dezembro. O principal público se encontra na faixa etária de 18 a 30 anos, nas áreas sudeste (40%), nordeste (24%) e sul (19%).

Para Barenho, a possibilidade de verbalizar e retumbar ideias feministas nas redes sociais, somado ao fator de que alguns dos direitos conquistados pelas mulheres estão em perigo, é o que faz com que haja um sentimento maior de feminismo entre as mulheres. Além disso, “o movimento sempre existiu, mas agora ele ganha maior voz e visibilidade”, destaca Cíntia.