(Foto: Divulgação HBO)

Efeito reverso: vazamentos de dados sobre séries e novelas não abalam o interesse do telespectador

Prática considerada comum no Brasil e que alcançou os canais pagos estrangeiros divide opiniões e, em alguns casos, contribui para a divulgação da atração de TV

“O caos é uma escada.” A frase, dita pela primeira vez pelo personagem Petyr Baelish, também conhecido como Mindinho, na terceira temporada de Game of Thrones, reflete o momento atual do canal produtor da série. A empresa norte-americana HBO demonstrou o quanto a segurança de seus dados requer mais atenção.

Vazamentos, invasões de hackers e descuidos da própria empresa repercutiram em sites de notícias e redes sociais. Mas, ainda assim, isso não impediu que a emissora alcançasse milhões de telespectadores na exibição desta sétima temporada da série inspirada nos livros de George R. R. Martin.

Mesmo com roteiros e episódios sendo disponibilizados na íntegra na internet antes da veiculação pelo canal, o interesse do público não foi abalado. O caso do quarto episódio, The Spoils of War, da temporada atual, vazado três dias antes da data oficial de transmissão, é um dos exemplos. O vazamento aconteceu por meio do canal Star India, um dos parceiros internacionais da HBO.

De acordo com a revista Entertainment Weekly, o episódio foi assistido por 10,2 milhões de pessoas durante a exibição original nos Estados Unidos. Apenas o episódio de estreia, intitulado Dragonstone, havia registrado um índice de audiência tão expressivo, alcançando 10,1 milhões de espectadores.

Desta forma, a teoria — da conspiração — que surge é de que o canal de TV por assinatura reverteu todas essas ações invasivas a seu favor como uma grande estratégia de marketing. E, por isso, as palavras ditas por Mindinho, um personagem que se mostrou nada confiável durante a série, permitem interpretar que o caos instalado pela falta de segurança do sistema de programação da HBO leva à constante subida ao sucesso.

Interpretado pelo ator Aidan Gillen, Mindinho é um personagem enigmático que está por trás da Guerra dos Cinco Reis. (Foto: Divulgação HBO)

Vazamento à brasileira

Lançada em 1995, a obra era uma trama policial em que o suspense era imprescindível. Dessa forma, o autor solicitou à emissora que os resumos semanais não fossem veiculados, resultando em um mal-estar com a imprensa, conforme conta Fábio Costa em seu livro Novela — A obra aberta e seus problemas.

As páginas escritas por Costa ainda revelam quem eram os responsáveis por disponibilizar à imprensa — contra a vontade de Abreu — os roteiros da novela. “Após muitos furos de jornais e revistas sobre vítimas, possíveis assassinos a revelar e outros acontecimentos do desenrolar da trama, descobriu-se que quatro funcionários do departamento de xerox da emissora vendiam para a imprensa cópias dos roteiros que recebiam para que fossem copiados e distribuídos ao elenco e à produção da novela.”

Mesmo sem a divulgação do capítulo pela emissora, a revista Contigo bancava a morte de um dos protagonistas de “A Próxima Vítima” na edição Nº 1.047, veiculada em 10/10/1995 (Foto: Blog Revista Amiga e Novelas)

Assim como Silvio de Abreu, o autor Benedito Ruy Barbosa, que escreveu a novela Rei do Gado, em 1996, também sofreu com o vazamento de informações dos capítulos de suas novelas. O dramaturgo desabafou com o apresentador Silvio Santos durante a entrega do Troféu Imprensa em 1998.

Os arquitetos dos vazamentos

“Um técnico com mais de uma década de empresa relata que repassa os roteiros há cinco anos. Segundo ele, não é difícil, mas deu muito medo na primeira vez que fez” — trecho da matéria veiculada pela Folha de S. Paulo em 2015.

O colunista da seção TV & Famosos do UOL Ricardo Feltrin afirma que o vazamento de capítulos de novelas se tornou uma prática comum no país. Em sua opinião, as emissoras poderiam coibir tais distribuições e divulgações ilegais. “Acredito firmemente que a Globo hoje se beneficia (com divulgação) do vazamento de capítulos de suas novelas. Virou propaganda para ela, pois a emissora sabe que não é porque uma cena aqui e ali vazou que as pessoas que adoram novelas vão deixar de assisti-las. Pelo contrário, elas querem assistir para confirmar o que leram”, aponta Feltrin.

O repórter do Observatório dos Famosos do UOL Gabriel Vaquer cita mais um caso que envolve vazamentos de capítulos ocorrido com a Globo. “Acho que o caso mais forte e recente foi o da novela Verdades Secretas. A produção teve seu final todo antecipado pela imprensa, fazendo a trama perder um pouco do impacto”, relembra Vaquer.

De fato, a obra escrita por Walcyr Carrasco e dirigida por Mauro Mendonça Filho não suportou a forte especulação dos veículos de comunicação. Conteúdos dos últimos capítulos da novela foram divulgados na internet cerca de 20 dias antes da exibição final. O vazamento resultou em alterações na trama que envolveram uma grande expectativa tanto do público quanto do elenco de atores que, na época, gravaram as cenas dos desfechos somente dois dias antes da última transmissão da novela.

Assim como o vazamento de dados antecipa acontecimentos de novelas e séries, as grandes redações de revistas semanais voltadas à divulgação de roteiros também atuam com precedência, principalmente em relação às novelas do horário nobre. “São duas, até três semanas de antecedência, dependendo do ritmo de gravações ou, ainda, a fase em que ela (novela) se encontra. Se é mais para o final, a emissora (Globo) já dificulta esse vazamento para não divulgarmos nada sobre os capítulos”, revela André Rezende, jornalista e editor-chefe das revistas Conta Mais e TV Brasil.

A lógica de vazamentos em canais de assinatura já é diferente, conforme Krishna Mahon, que traz sua experiência como apresentadora do canal no YouTube Imprensa Mahon. “No caso de TV paga, o mais comum é que o vazamento aconteça através das produtoras, já que trabalham muito com profissionais terceirizados, sem tanto compromisso com o canal”, explica. “As produções originais do History, por exemplo, já tiveram notícias vazadas na imprensa enquanto ocorria a gravação”, complementa a apresentadora. Segundo Krishna, o grupo sempre pede sigilo até a data mais próxima do lançamento, tanto que houve alguns problemas, como o caso de entrevistados que desistiram de participar por ver o impacto e alcance do programa.

Prejuízo ou divulgação?

Da mesma forma, o colunista do UOL Ricardo Feltrin também considera os danos legais e financeiros. “Todo e qualquer ato de pirataria promove prejuízos, não só para os estúdios e produtores, mas para uma infinidade de profissionais que trabalham e vivem da dramaturgia. A pirataria não paga direitos autorais, musicais ou conexos”, afirma.

Já o trato diário com vazamentos e divulgação de roteiros de novelas possibilita ao jornalista André Rezende avaliar com outros olhos. “Acredito que tais vazamentos são todos programados, digamos assim, com o objetivo de aguçar a curiosidade e expectativa em torno de um produto audiovisual, causando assim um aumento de audiência em um primeiro instante.”

O ponto de vista do repórter Gabriel Vaquer reforça a ideia de que, dependendo da produção audiovisual, o vazamento de dados mais contribui para a divulgação do que causa prejuízos aos autores e ao público. “No caso de Game of Thrones, que pra mim é a série mais bem produzida do mundo, é um prejuízo enorme, porque a graça da série é ser surpreendido”, argumenta. “Mas, num exemplo mais diferenciado, o vazamento de um filme, para mim, não gera tantos prejuízos”, analisa, relembrando o vazamento de Tropa de Elite, em 2007, que segundo ele mais ajudou o filme do que atrapalhou.

Estraga-prazeres do século XXI

Inicialmente um ato inconsciente em meio a uma roda de conversa, o spoiler ganhou o conceito de profissão a partir da criação de sites especializados em relatar cenas de séries e filmes. Além disso, alcançou as redes sociais, resultando em perfis e páginas voltados somente a publicações reveladoras, reforçando a ideia de que o ineditismo e a surpresa já não são mais garantidos quando se acompanha televisão.

Porém, atualmente, o fato é que ter conhecimento sobre o desenrolar da trama a partir de um spoiler, do vazamento de dados ou da ação de hackers não indica a perda expressiva de audiência. Ainda mais se o público se mantém fiel a cada novo capítulo da novela ou episódio da série. “Todo mundo sabe a história dos Dez Mandamentos, todo mundo sabia como terminava Titanic, e veja o tamanho da audiência”, observa Krishna Mahon, que também atua como diretora de conteúdo original do History, A&E, Lifetime e H2.

Retornando ao exemplo de Game of Thrones, o caso que motivou a escrita desta matéria, nem mesmo os spoilers que circularam na internet, graças à trapalhada da HBO Espanha, estremeceu o entusiasmo dos fãs dos demais países. O canal espanhol exibiu, acidentalmente, o sexto e penúltimo episódio da temporada atual uma semana antes da data oficial, resultando em mais um vazamento para a cota da empresa.

Um dos mais esperados pelo público, o penúltimo episódio da sétima temporada registrou uma leve queda de público de 4% se comparado a Eastwatch, capítulo cinco, de acordo com o site Deadline. Mesmo assim, empata com o quarto episódio pelo título de segunda maior audiência em toda a série e comprova que, apesar dos spoilers, invasões de hackers e vazamentos de dados, o interesse do telespectador não é abalado, seja ele consumidor de séries ou novelas.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

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Júlia Ramona Michel

Written by

- Estudante de Jornalismo

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A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

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