Empoderamento feminino nas quadras

Na Serra, meninas do time de futsal Gramadense conquistam lugar no esporte

Oito horas da manhã de sábado, e o ginásio da escola Nossa Senhora de Fátima, no bairro Várzea Grande, em Gramado, começa a receber as primeiras meninas para o treino de futsal. A rotina se repete semanalmente para o time feminino do Centro Esportivo Gramadense. Os encontros firmam o espaço das mulheres no esporte no município e no Estado.

Para as meninas do Gramadense, a luta vem desde muito cedo: as 42 jogadoras do time têm entre 12 e 20 anos. Elas enfrentam, por muitas vezes, a falta de reconhecimento e o machismo. Nada disso, contudo, ofusca a vontade de brilhar nas quadras e mudar de vida. O grupo é recente, com pouco mais de um ano de fundação, mas já mostra que lugar de mulher é, sim, nas quadras, no campo, com a bola nos pés.

Treinos também contam com trabalho direcionado às goleiras (Foto: Renata Garcia/Beta Redação)

O grupo treina durante o ano todo em busca de melhores resultados e aperfeiçoamento, mas o que falta são competições direcionadas à categoria feminina. Exemplo disso é que, no próprio município, são abertas exceções para que times de outras cidades integrem os jogos devido à baixa procura.

O Gramadense disputa, atualmente, dois campeonatos: o Gaúchão de Futsal e o Regional. A ideia é que, em 2019, os treinos contemplem a categoria de futebol de campo, já que a equipe já participa de jogos nessa modalidade.

Treinos servem como espaço de desenvolvimento e inclusão nos esportes (Vídeo: Renata Garcia/Beta Redação)

Parceiras na quadra e na vida

Além de proporcionar a inserção feminina no esporte, o objetivo do time é integrar as meninas. A treinadora da equipe, Carla Guarnieri Feijó, 42, relata que, muito mais que ocupar o espaço feminino no esporte, o importante é lembrar que as atletas formam uma família. “A união e a parceria que temos umas com as outras fazem com que nossas experiências só se fortaleçam”, ressalta.

As gurias do Gramadense vêm ganhando espaço em competições regionais (Foto: Reprodução Facebook)

A oportunidade de jogar exclusivamente com meninas não foi sempre a realidade da jogadora Tainá Mendonça, 19. Ela participa de aulas de futsal desde os 9 anos e já passou por diversos times, todos formados por turmas mistas. Para Tainá, ter a oportunidade de jogar somente com mulheres é um privilégio.

“Podemos agir e nos sentir mais confortáveis. As habilidades que desenvolvemos aqui são voltadas para nós, gurias. A gente sabe que, infelizmente, o tratamento para times masculinos é diferente, mas já é muito especial termos uma mulher como treinadora”, declara.

Em alguns casos, o incentivo e o amor pelas quadras vêm de casa. Essa é a história da jogadora Lia Trindade, 18. Lia joga há seis meses no Gramadense. Ela mora no município de Canela, cidade vizinha, e conta que estar em campo é algo que dá outro sentido à vida. “Meu pai joga futsal, na posição de goleiro, e sempre vi ele jogando. Por conta dos meus problemas respiratórios, acabei ocupando a mesma posição que ele”, comenta.

Para Lia, um fator que pesou na escolha do time foi a disponibilidade de treinos nos finais de semana. Com os horários do Gramadense, a jovem, que trabalha no período da noite, foi incentivada a continuar no esporte.

A ideia dos treinadores é de que, ainda este ano, mais horários sejam disponibilizados às atletas (Foto: Renata Garcia/Beta Redação)

A jogadora percebe que há muitos obstáculos para serem enfrentados pelas categorias femininas, mas considera o apoio das famílias e da comunidade essencial, pois é isso que motiva a busca de bons resultados.

“A equipe que nos acompanha é muito capacitada e preocupada em nos auxiliar e nos fazer crescer, não só como jogadoras, mas como pessoas”, afirma.
Lia acredita que, com incentivos na divulgação, as competições femininas seriam mais valorizadas (Foto: Renata Garcia/Beta Redação)

Oportunidades para as gurias

Entre os torneios que ocorrem na cidade, há a oportunidade de jogar em âmbito estadual. Isso confere às meninas a oportunidade de mostrar o seu talento para técnicos e preparadores de grandes times. “Nosso objetivo é fazer com que as gurias alcem voo. Algumas delas já estão participando de jogos por times de outras cidades, como Parobé. É o resultado do empenho e do talento de cada uma”, ressalta Carla.

Em outubro de 2017, a gramadense Michele Cardoso, 13, foi emprestada para defender as cores do Mundo Novo de Três Coroas. A participação foi no Torneio de Desenvolvimento de Futebol, na Granja Comary, em Teresópolis, no Rio de Janeiro, na categoria para futebol feminino, sub-14.

O empenho de Michele Cardoso rendeu frutos, levando-a para o Rio de Janeiro (Foto: Reprodução Facebook)