Amanda Büneker
Nov 1, 2018 · 5 min read
As viagens instigam o aprendizado da história e geografia da região de origem (Foto: Arquivo Pessoal / SK Idiomas)

Para Ariele Bauermann, 42, e Solage Kamphorst, 37, a ligação com o idioma e a tradição germânica é profunda e as acompanha desde a infância como herança de seus antepassados. Um tesouro cultural que ambas escolheram preservar através da educação. Assim, nasceu a empresa SK Idiomas e Intercâmbios, no ano de 2015, em São Leopoldo.

As empreendedoras se empenham para incentivar aqueles que buscam resgatar as raízes e sonham conhecer mais sobre o local onde viveram seus avós, bisavós e outros parentes. Um sentimento que elas, desde jovens, reconheceram em si mesmas e hoje buscam ofertar a toda uma comunidade.

Inspiração nas origens

Nascidas em cidades interioranas, Arroio do Meio e Iporã do Oeste, no berço de famílias com origem alemã, Ariele e Solange tiveram o dialeto alemão Hunsrünk como primeira língua, com o português elas só viriam a ter contato nos anos iniciais da escola. Ao passar dos anos, o idioma alemão formal, aprendido na escola, se apresentaria como uma forma de conseguir uma oportunidade profissional, algo frequente na cultura dos moradores da região.

Dentre cursos, graduações e diversas viagens à Alemanha, a linguagem se tornou profissão e bandeira de preservação dos costumes de um povo. Fator que instigou a criação de uma escola de idiomas, na qual o ensino não fosse desconexo do legado e dos aspectos emotivos carregados pelos alunos, que fosse além de um aprendizado por repetição. “A nossa escola tenta trazer esse lado afetivo ao aluno, para que ele aprenda por emoção, para que ele venha para cá e tenha esse aprendizado de forma prazerosa”, destaca Solange.

O método ultrapassa as questões didáticas e se encontra nas estruturas e atendimento da empresa: tornar o local propício para que o aluno se sinta aconchegado e assim sua vontade de aprender aflore. “Ele não só vem para ter aula, mas vem para viver o espaço”, explica Solange. Essa sensação é composta nos mínimos detalhes, muitas vezes imperceptíveis, como na escolha de cortinas de pano e um espaço de minicozinha disponível para o uso dos alunos.

Com total enfoque na experiência do cliente, as sócias também estão sempre abertas a conversas a fim de entender expectativas e sonhos dos seus alunos. Foi a partir dessas interações que surgiu a ideia do programa de intercâmbio Resgate de Origens ou Resgate Cultural, neste ano em sua segunda edição.

O programa tem como intuito ofertar aos descendentes de alemães o resgate histórico, geográfico e cultural da região de Hunsrück. Isso ocorre a partir de aulas e encontros prévios no Brasil e uma viagem de duas semanas, com roteiro pré-planejado, à Alemanha. Para desenvolver e aplicar essa ideia, as empreendedoras contam com a parceria da escola alemã TASI — Escola de Idiomas da cidade de Trier e de dois historiadores alemães.

Alunos na viagem realizada em Junho deste ano (Foto: Arquivo Pessoal / SK Idiomas)

As confraternizações no Brasil servem para unir o grupo e alinhar as intenções de cada um, pois elas buscam, sempre que possível, realizar os desejos mais específicos de seus alunos, como no último grupo, em junho deste ano, no qual um dos integrantes tinha o sonho de participar de uma maratona no exterior. “Esse cuidado a gente tem, pois queremos tornar essa uma das melhores viagens da vida da pessoa. Queremos ajudar a realizar aquele sonho que vem sendo carregado desde os antepassados”, fala Arieli.

Arieli junto com alunos que realizaram o sonho de uma maratona europeia (Foto: Arquivo Pessoal / SK Idiomas)

Por isso, parte do roteiro engloba conhecer como eram as casas, quais eram os costumes e como eram delimitados os países e as regiões, além da realização de visitas, entrevistas e coleta de dados, como no caso das consultas em arquivos da diocese por certidões de batismo e casamento. “Vai muito além do que eu e a Arieli podemos mensurar. Desde entrarem na casa onde o avô nasceu, de conhecer parentes ou mesmo de visitar a capelinha onde o avô foi batizado, esse momento de emoção nenhum dinheiro do mundo pagaria”, diz Solange.

Outro formato deste mesmo intercâmbio tem como destino o distrito de Luxemburgo, cuja principal finalidade é acompanhar aqueles que buscam o reconhecimento de cidadania. Um procedimento temporário, que exige visita ao país para a primeira fase de documentação e só poderá ser realizado até o final deste ano, conforme a lei. As empreendedoras destacam que muitas pessoas com sobrenomes considerados alemães podem ter o direito de cidadania luxemburguesa, pela migração de familiares de uma região que hoje é considerada parte do distrito.

Empreender para transformar

O empreendimento tornou-se possível no ano de 2015, a convite e com apoio do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, uma organização sem fins lucrativos, que buscava uma professora de alemão disposta a empreender e compor seu espaço. Solange Kamphorst abraçou a proposta e, dessa forma, em seu primeiro ano, a SK Idiomas e Intercâmbios teve como casa o Museu, até o espaço ficar pequeno. Mesmo não ocupando mais o local, a parceria entre escola e museu permanece e fomenta os valores da empresa. “Hoje o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo é uma preciosidade, pois ele guarda coisas que não existem em nenhum outro lugar”, ela enfatiza ao colocar a importância do acervo bibliográfico e documental sobre a imigração alemã presente no local.

Em uma nova casa, no ano de 2016, Arieli se juntaria como sócia, após voltar de um período na Alemanha, e comporia a empresa. As proprietárias relatam que o investimento inicial foi além do financeiro, com mais ênfase na força de trabalho das sócias. “No início nós éramos tudo dentro da escola, éramos as vendedoras, as professoras, as secretárias”, salienta Solange.

Mas o investimento financeiro fez-se necessário, com a mudança para o novo espaço cerca de 50 mil reais foram desembolsados, pelas empreendedoras, para aplicar na estrutura do empreendimento. Valor este, que pretendem recuperar até o ano de 2019, com o crescimento da empresa.

Atualmente, com diferentes ofertas de cursos e intercâmbios e cerca de 90 alunos matriculados, o negócio já conta com uma equipe de quatro professores e planeja novos passos para prosperar. “Ainda não é o ideal, o sonho do empreendedor. Falta bastante chão no sentido financeiro, mas sentimos que estamos no caminho certo”, diz Kamphorst.

O lucro efetivo ainda não é uma realidade da empresa, uma situação recorrente em período de crise econômica, cujo o efeito é o abandono de investimentos em educação por parte do consumidor. Algo que ambas sentem ao contarem os múltiplos casos de pessoas que comunicam a vontade de realizar um curso para aproveitar as oportunidades profissionais que a Alemanha está abrindo, como nos setores de informática e saúde, mas não têm como bancá-lo.

No entanto, a meta de crescimento mantém-se, tanto que o planejamento para o ano de 2019 já conta com um aumento na quantidade de intercâmbios, principalmente de Resgate Cultural, com uma média de quatro ou cinco ao ano. Pois, como coloca Solange, “o empreendimento hoje no Brasil está muito atrelado a coragem”, e elas não possuem medo de investir e se doar ao empreendimento e ao objetivo de preservar a cultura de origem.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

Amanda Büneker

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