Nacionalização forçada deixou marcas em colônias alemãs e italianas do RS

Medidas impostas por Getúlio Vargas no Estado Novo geraram transformações políticas, sociais e culturais profundas no Vale do Rio dos Sinos e na Serra

Beta Redação
Redação Beta

--

Edição de 1°/02/1942 do jornal A Nação, de Caxias do Sul (Imagem: Arquivo/Câmara Municipal de Caxias do Sul).

Por Gabriel Nunes e Victória Lima

Durante o Estado Novo, entre os anos de 1937 e 1945, o Brasil passou por uma extensa Campanha de Nacionalização, um processo de “abrasileiramento” das colônias de imigrantes e descendentes alemães, italianos e, em número menor, japoneses. O regime foi constituído pelo governo de Getúlio Vargas com o intuito de construir uma nacionalidade e identidade cultural uniforme para o país.

Para a operação da campanha, a principal ação era eliminar os chamados “quistos étnicos” do Brasil, ou seja, comunidades consideradas não integradas ou assimiladas ao conjunto da população brasileira. Esses locais criavam, na visão do Estado, um fator de desagregação para a emergente ideia de nacionalidade. O exercício da imprensa, que passava por importantes processos de desenvolvimento, também sofreu mudanças impostas pelo governo e foi peça marcante no período.

A Beta Redação conversou com especialistas sobre o assunto para relembrar as causas e consequências dessas medidas no Rio Grande do Sul, assim como a relação que a imprensa gaúcha mantinha com o governo ditatorial estadonovista. O estado é o berço da colônia alemã e segundo maior local de colonização italiana no país, atrás apenas de São Paulo.

A Era Vargas é objeto de extenso estudo entre pesquisadores e historiadores e desperta curiosidade até hoje, tanto pelas intensas mudanças ocorridas no Brasil, quanto pela figura enigmática de Getúlio Vargas. O jornalista e professor Nikão Duarte faz uma análise sucinta sobre o ex-presidente: “A mesma figura é um revolucionário em 1930, emprega avanços democráticos em 1934 e se torna um ditador em 1937”.

O professor afirma que o governo Vargas é “uma esfinge, ainda a ser decodificada na política brasileira”. No início de seu mandato, Getúlio era líder da Revolução de 30, que acabou com a República Velha. Em 1934, por pressão da Revolução Constitucionalista de São Paulo, Vargas instituiu uma nova Constituição, legislação que ele mesmo não seguiu ao assumir uma postura autoritária a partir de 1937, com a imposição do Estado Novo, de viés nacionalista e repressivo.

De acordo com o historiador e especialista em Era Vargas, imigração e nazismo no Brasil René Ernaini Gertz, com a revolução de 1930 e com a subida de Getúlio ao poder, os imigrantes italianos e alemães do estado não sofreram uma nacionalização imediata, como foi o caso de Santa Catarina. “O governo gaúcho foi entregue a José Antônio Flores da Cunha, que era considerado ‘amigo da colônia’, tanto alemã quanto italiana. Foi ele quem transformou o dia 25 de julho em feriado estadual, o ‘Dia do Colono’”, explica.

Porém, com a fuga de Flores da Cunha e a instituição do Estado Novo, em 1937, o processo de nacionalização começou a se tornar institucionalizado. O novo interventor, Oswaldo de Cordeiro Farias, tornaria prioridade a erradicação e nacionalização dos “quistos étnicos” nas colônias. “Essa guerra contra os colonos apresenta duas fases, uma no campo educacional e outra no campo policial”, destaca Gertz.

Inicialmente, ocorreu o fechamento das escolas privadas de língua não brasileira, no início do ano letivo de 1938. Porém, é a partir do início da Segunda Guerra Mundial, e com a entrada efetiva do Brasil no conflito, em 1942, que se iniciam medidas mais severas contra as colônias, principalmente as de origem alemã.

Conjunto de prédios que formavam a Escola Normal Evangélica de São Leopoldo, que evitou ser fechada porque se tornou uma escola técnica. Atualmente um dos prédios é a Câmara Municipal de São Leopoldo (Foto: Gabriel Nunes/Beta Redação)

Duarte conta que o mundo estava dividido entre Aliados e Eixo, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Vargas foi sinuoso em suas escolhas. “Aquele mesmo Getúlio que havia tido um flerte com a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini, ao aderir aos Aliados, passou a ver nos colonos e descendentes alemães e italianos, que haviam se instalado no Brasil desde o século XIX, alguns espaços de ameaça política e institucional”, explica.

Nas palavras do professor, isso originou um grande preconceito da sociedade brasileira em relação às colônias. “O cidadão era italiano e de repente achavam que tinha que ser fascista, se fosse alemão achavam que era nazista. Não que não houvesse pessoas adeptas de movimentos pró-Hitler ou Mussolini naquela época. Mas isso não quer dizer que a maioria dos italianos e alemães eram assim”, exemplifica.

Embora também tenha sofrido com as medidas nacionalizadoras, a colônia italiana, em comparação com a alemã, era avaliada com um olhar positivo pelas autoridades governamentais. A opinião do secretário de Educação gaúcho durante o Estado Novo, José Conceição Pereira de Souza, mostrada no livro O Estado Novo no Rio Grande do Sul, de René Gertz, reflete a posição que o governo estadual tinha em relação aos italianos do estado:

“Na colônia italiana, constituída de algumas dezenas de milhares de pessoas, o problema da nacionalização, em rigor, não existe. [Eles] Solicitam insistentemente novas escolas ao governo, [e] a instalação dos nossos estabelecimentos de ensino é ali recebida com festejos populares”.

Por outro lado, a desconfiança dos brasileiros em relação às colônias alemãs vinha desde a chegada dos primeiros imigrantes teutônicos, em 1824. De acordo com René Gertz, com a criação do Império Alemão, em 1871, o temor do “perigo alemão” se acentuou. “Esse novo império chegava tarde ao mercado de colônias fora da Europa, e muitos tinham o receio de que a Alemanha utilizasse os imigrantes que residiam no Brasil para conseguir controle sobre partes do território brasileiro, principalmente na região Sul”, explica.

Além disso, enquanto os italianos e descendentes seguiam o catolicismo, os colonos alemães eram divididos entre católicos e protestantes, esse último considerado “um corpo estranho e antinacional” na pátria. “O luteranismo e seu caráter germanista eram vistos como incompatíveis com o ‘verdadeiro’ Brasil”, afirma Gertz. Isso aliado ao fato de que algumas correntes fortes do nacionalismo defendiam a fé católica.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial (1918) e a derrocada da Alemanha, o medo de uma “anexação” imperialista se reduziu, mas as discussões sobre o “perigo alemão” continuaram. “Escolas privadas atuando livres, tanto em relação ao conteúdo ensinado às crianças quanto à língua em que isso era feito, sociedades recreativas, culturais, e mesmo econômicas que mantinham e divulgavam tradições alemãs, acabavam atraindo olhares de desconfiança do resto da população e do governo”, descreve Gertz.

Todos esses componentes facilitaram a implantação de uma Campanha de Nacionalização. De acordo com Duarte, o momento coincidiu com a iniciativa de Vargas de valorizar o nacional brasileiro dominante, branco, que falava língua portuguesa. “Também houve a valorização do Hino Nacional, além do culto à bandeira e aos símbolos brasileiros”, questões que enfatizavam a “brasilidade” dos habitantes do Brasil.

Gertz diz que o nacionalismo é um dos mais importantes meios psicológicos e motivacionais para tentar “juntar” pessoas. “Em qualquer país, é branco contra negro, homem contra mulher, pobre contra rico, entre outros exemplos. Tudo isso divide, então nada melhor do que dizer que, apesar das diferenças, todos têm uma mesma pátria. É uma forma de tentar conseguir esse ajuntamento, apresentando como antipatriótico, como fora de lei, como subversivo, aquele que não quer aderir”, analisa.

Repressão e nacionalização no Vale do Rio dos Sinos

Fotoarte de Hamburgo Velho, um dos primeiros pontos de colonização alemã (Foto: Arquivo Pessoal/Felipe Kuhn Braun).

A cidade de São Leopoldo é considerada o berço da colonização alemã no Brasil. Como já mencionado, os primeiros imigrantes da Alemanha chegaram ao estado em 1824, onde, hoje, fica a cidade de Campo Bom, no Vale do Rio dos Sinos. De acordo com o escritor e vereador de Novo Hamburgo Felipe Kuhn Braun (PDT), o Império brasileiro foi ineficiente no apoio aos imigrantes.

Autor de livros sobre a história hamburguense e imigração, Braun afirma que os “teuto-gaúchos aprenderam desde cedo a se virar sozinhos. O Império foi ineficiente na marcação das terras e ineficaz em prover aos imigrantes algum sistema digno de educação”. Por esse motivo, aulas eram ministradas nas próprias casas dos colonos e, por vezes, com apenas um pouco mais de instrução do que os demais.

Assim, a inserção luso-brasileira era praticamente nula em alguns pontos do Vale do Sinos. “Principalmente em municípios onde as escolas foram construídas por alemães, onde os poucos rádios sintonizavam estações da Alemanha e lia-se apenas periódicos em língua alemã”, explica Braun.

Recorte da edição do dia 1°/02/1942 do Jornal A Nação, de Caxias do Sul (Arquivo/Câmara de Vereadores de Caxias do Sul)

O primeiro impacto da nacionalização estatal atingiu diretamente as escolas particulares e comunitárias, nas quais as aulas passaram a ser obrigatoriamente em português. Professoras do “tipo nacionalização” eram enviadas às colônias, para lecionar aos “coloninhos”, conforme a pesquisa de Gertz. Os nomes de escolas também foram nacionalizados, e os professores deveriam ser brasileiros natos ou naturalizados, mas graduados no Brasil.

De acordo com o historiador, outra medida relacionada à nacionalização do ensino foi o deslocamento anual de centenas de alunos das regiões de imigração para Porto Alegre, durante a Semana da Pátria. “Fazia-se uma grande campanha através da imprensa para que essas crianças fossem hospedadas em casas de famílias da Capital, para que se convencessem da bondade dos ‘verdadeiros brasileiros’”, aponta.

A partir de 1939 foram proibidos os cultos e a imprensa em língua estrangeira. Um exemplo de repressão foi a mudança de nome do Deutsches Volksblatt, um dos principais jornais teuto-brasileiros da época, para A Nação, em 1941. O português passou a ser o único idioma permitido em público. Falar alemão ou italiano acarretava em multa ou, em alguns casos, prisão.

Cidades, localidades e monumentos tiveram os nomes “abrasileirados”. Em Novo Hamburgo, até o time de futebol da cidade teve o nome alterado para Floriano Peixoto. Braun conta que o monumento de homenagem ao centenário da imigração alemã da cidade foi mantido, mas as frases em alemão foram retiradas.

Monumento ao centenário da imigração alemã. A inscrição diz “100 anos de colonização alemã”. (Foto: Felipe Kuhn Braun/Arquivo Pessoal)
Mesmo monumento, com as inscrições em alemão apagadas, devido à Nacionalização (Arquivo Pessoal/Felipe Kuhn Braun)

Há diversas referências a perseguições policiais. Gertz relembra que, alguns meses antes da Segunda Guerra eclodir na Europa, tropas foram despachadas para as regiões a serem nacionalizadas. “Outra forma de perseguição se deu por meio da extorsão. Foram feitas diversas denúncias de que os colonos eram obrigados a comprar fotos de Getúlio Vargas a preços altíssimos”, completa.

Essas denúncias tinham fundamento, pois em 15 de setembro de 1942 o chefe de polícia gaúcho, coronel Aurélio da Silva Py, lançou a circular n°19, que “proibia a venda de retratos de personalidades do governo, álbuns, distintivos […] que envolvam, de qualquer modo, coação moral aos compradores”, conforme cita Gertz em O Estado Novo no Rio Grande do Sul.

O estado também teve seu “campo de concentração”, segundo o historiador. Construído no início do Estado Novo para abrigar presos comuns, foi transformado logo depois em prisão política. A Colônia Penal Daltro Filho, em Charqueadas, era inclusive exibida positivamente pela imprensa. De acordo com Gertz, a Revista do Globo a apresentava, em abril de 1942, como “um campo de concentração modelo, onde espiões nazistas sambam e plantam batatas”.

Devido à propaganda que se fazia sobre o estabelecimento, o tratamento aos detentos não foi dos piores. Porém, Gertz traz no livro a denúncia de pelo menos mais um campo de concentração, próximo a Santa Rosa, onde “muitos presos teriam sido torturados e conduzidos como porcos, em caminhões”.

Outro caso emblemático ocorreu em Novo Hamburgo. De acordo com o vereador Felipe Kuhn Braun, em 29 de agosto de 1942, o influente médico e ex-líder integralista Wolfram Metzler foi preso na Colônia Daltro Filho. Metzler, que hoje nomeia uma escola estadual em Novo Hamburgo, era acusado de estocar armas em sua chácara e portar passaporte escrito em alemão. Gertz também tem relatos sobre o caso. “O chacareiro de Metzler, Otto Franz, também foi preso, e acabou morrendo por causa das torturas a que foi submetido em Porto Alegre”, conta.

Wolfram Metzler foi um influente médico, jornalista e político teuto-brasileiro. Após a Segunda Guerra Mundial, chegou a ser eleito deputado federal e concorreu ao cargo de governador do Estado nas eleições de 1954. (Foto: Arquivo Pessoal/Felipe Kuhn Braun).

O momento de maior violência física simultânea contra as colônias alemãs ocorreu nos dias 18 e 19 de agosto de 1942, quando submarinos alemães afundaram o quarto navio brasileiro. As represálias por parte da população brasileira tiveram ao menos o “apoio não oficial” do Estado, pois o interventor Cordeiro de Farias se juntou aos protestos no dia 18 de agosto. Gertz conta que a Polícia Militar gaúcha também não tomou nenhuma medida para coibir as depredações. “Apenas no final do segundo dia que as manifestações pararam, pois o Exército interveio para pôr fim às depredações.”

Outro momento de violência contra os teuto-brasileiros foi a destruição do Monumento ao Imigrante, na Praça Centenário, em São Leopoldo, instalado durante as comemorações do centenário da imigração alemã. No dia 12 de março de 1942, a cabeça da estátua representando o imigrante foi arrancada por populares e o restante, atirado no Rio dos Sinos. O motivo da depredação foi o afundamento de diversos navios brasileiros, pelas mãos dos submarinos alemães.

Imprensa no Estado Novo

O Correio do Povo era o jornal dominante do período e geralmente tinha um viés favorável ao governo de Vargas (Imagem: Arquivo/Memorial Jesuítas Unisinos de Obras Raras e Coleções Especiais)

A imprensa também sofreu respingos dos danos culturais da época. No Rio Grande do Sul, o Correio do Povo era líder. No entanto, o interior do estado era dominado por uma comunicação bilíngue, que incluía a linguagem alemã e italiana, devido às colônias. Porém, com o estabelecimento do Estado Novo, “os jornais em língua estrangeira foram proibidos de circular. Ou fecharam, ou passaram para a língua portuguesa”, afirma Duarte.

Edição de 19/12/1939 do Jornal Deustches Volksblatt, que tinha trechos em alemão e português (Imagem: Arquivo/Memorial Jesuítas Unisinos de Obras Raras e Coleções Especiais).

Na sua relação com a imprensa, Getúlio Vargas procurou um trabalho servil por parte dos jornalistas. Para isso, apelou para a repressão, prendendo ou comprando os profissionais. O professor Nikão Duarte explica que o governo pagava para os jornalistas com a intenção de manter uma boa relação com eles. “Ele continuava trabalhando nos veículos, mas era grato ao governo, porque tinha lhe dado um emprego e uma renda, que no mais das vezes era superior ao que ele ganhava na rádio ou no jornal”, esclarece.

O rádio também foi um espaço explorado pelo ex-presidente. O período era de implantação da plataforma no Brasil e, na época, grande parte dos conteúdos consumidos pela população vinha de rádios internacionais. O pouco de transmissão radiofônica que era gerada no Rio Grande do Sul era em alemão ou italiano, prática que Getúlio extinguiu de forma violenta, principalmente, tratando-se de veículos que faziam oposição ao seu governo.

Um exemplo disso foi o grupo Diários Associados, formado pelo Diário de Notícias e a Rádio Farroupilha, entre outros, fundado por Assis Chateaubriand em 1943. Chateaubriand chegou a ser parceiro de Vargas durante a Revolução de 30, mas se tornou inimigo do governo a partir de sua postura autoritária, posicionamento que o fez ser preso e perder os veículos, expropriados por Getúlio, lembra Duarte.

Com toda a repreensão imposta sobre a mídia, Vargas explorou o desenvolvimento do rádio lançando a Rádio Nacional, transmitida com potência e usada para fazer diletantismo. Todo controle estabelecido sobre a imprensa em nome da nacionalização causou perdas irreparáveis em documentos históricos da época, da qual sobraram poucos. Registros marcados pela cultura dos colonos também foram perdidos.

Gertz explica que o impacto cultural sobre os imigrantes e, principalmente, seus descendentes, só começou a ser sanado após quase três décadas. “Após a Segunda Guerra Mundial e mesmo com o fim da Campanha de Nacionalização, era raro ver alguém falando alemão. Foi só com a aproximação dos 150 anos da imigração, em 1974, que os festejos germânicos começaram a ser realizados novamente, como Kerbs e Oktober Fests”, relembra.

O professor Nikão Duarte acredita que os governos mais autoritários sempre recorrem a nacionalidade ou nacionalismo para obter concentração de apoio. “Os ditadores vão educando gerações para obter apoio. Isso, num primeiro momento, é uma consequência artificial e negativa, pois não está sendo feito em nome do bem da nacionalidade, mas pensando no bem do regime vigente”, explica.

Duarte ressalta que, ao falar sobre Getúlio, estamos nos referindo à mais importante personagem histórica do Brasil contemporâneo. “Da república pra cá, ninguém superou Getúlio Vargas em importância no Brasil, para o bem e para o mal. Não é a toa que o Brasil de hoje ainda é herdeiro do getulismo”, afirma.

--

--

Beta Redação
Redação Beta

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias.