Exposição ressalta a importância da prevenção ao suicídio

Amor à fotografia e necessidade de alerta faz artista retratar e discutir a realidade de quem sofre silenciosamente

Atitude de introspecção e de solidão são sintomas de quem sofre de depressão. (Foto: Maris Strege)

Falar sobre suicídio é delicado. O tema é cercado de medos, incertezas e de um silêncio profundo por quem passa por períodos difíceis. Por esses motivos, no mês internacional de prevenção do suicídio, a fotógrafa Maris Strege, 38, lançou a exposição O Silêncio em MIM, em alusão ao Setembro Amarelo. “A arte sempre esteve a serviço da vida e nada mais justo que usar minha arte fotográfica para chamar atenção a este apelo pela vida”, comenta a fotógrafa. As imagens produzidas pela artista estarão expostas durante todo o mês de setembro na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), no campus de Guaíba. A exposição se constitui como uma forma de abordar o suicídio através da arte.

Para dar visibilidade ao “silêncio através das lentes”, Maris revela que uniu o prazer e o amor à fotografia para promover um assunto que precisa ser discutido. “Sempre estou atenta a cenas inusitadas, que me chamem a atenção por algum motivo. Fui guardando fotos, organizadas por categorias, que remetem às mais diversas impressões ou sensações”, relata. As imagens retratadas na exposição, que tem o apoio da psicóloga Vanessa Rauter, curadora do projeto, e da psiquiatra Luciana Bridi, curadora adjunta, foram compiladas ao longo de dois anos. “Considerei oportuno organizá-las nessa exposição, pois as considero em acordo com o tema e as necessidades do momento, além de colaborar com a campanha de prevenção do suicídio”, complementa.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o Brasil é o oitavo país em números de suicídios no mundo. As principais vítimas são jovens entre 15 e 29 anos. Para a psiquiatra Luciana Bridi, é preciso apenas estar disposto para que as pessoas que sofrem de depressão ou ideação suicida possam se abrir e falar sobre o que estão sentindo. “Muitas vezes as pessoas não falam diretamente sobre a intenção suicida, mas falam de uma maneira indireta, de que a vida não tem mais jeito, ou de que não tem solução, de que não tem esperança de que nada se resolva. Então a gente também precisa escutar o silêncio que está sendo revelado de uma outra maneira”, afirma.

Ainda de acordo com a OMS, 90% dos casos de indícios de suicídio podem ser prevenidos. Segundo a organização, a maioria das mortes está ligada a transtornos mentais, como depressão e uso de drogas. Profissionais especializados podem colaborar na superação às crises. É comum que pacientes rejeitem a ajuda médica por preconceito ou por falta de conhecimento acerca da doença. “Ainda há bastante preconceito quando se fala em procurar um psiquiatra, mas acho sempre muito importante a gente ressaltar a ideia de que o psiquiatra é o médico de quem sofre, de quem está com algum grau de sofrimento por qualquer razão que seja, com motivo ou sem motivo”, explica Luciana.

Um dos cliques da fotógrafa Maris Strege para a exposição “O Silêncio em MIM”. (Foto: Maris Strege)

O cozinheiro John Vareira, 28, é um dos modelos fotografados para a exposição. Devido a problemas pessoais e profissionais, ele começou a se angustiar e a enxergar a vida de forma desesperançosa. John relata que nunca acreditou estar com depressão, mas que já apresentava sintomas da doença, como a falta de motivação para realizar atividades do dia a dia. “Eu realmente tive um contato bem profundo com a depressão, de uns dois anos pra cá. Tive crise de ansiedade, queda de cabelo e estresse, e isso foi crucial na minha vida”, relata.

Para John, a depressão foi uma experiência dolorosa, mas ao mesmo tempo gratificante. “Através de tudo que passei pude dar valor à vida e ver as pessoas que me ajudaram após tentar suicídio três vezes, devido a todos estes problemas. Emagreci 10 quilos, sem perceber, pois não me alimentava direito”, complementa.

John destaca que encontrou um caminho a partir da retomada de atividades que praticava anteriormente. “Tive algumas recaídas, com vontade de largar tudo, mas meus amigos me apoiaram muito durante esse processo de mudança. Na primeira vez que tentei me suicidar, eles invadiram meu apartamento e, a partir disso, começaram a ficar mais comigo, cuidando de mim. Meu lema de vida hoje é gratidão, pelas pessoas, pelos amigos, pela família e pela vida”, enaltece.

Para a psicóloga Vanessa Rauter, os casos ligados ao suicídio são múltiplos, mas, na maioria das vezes, estão relacionados a não aceitação da sociedade em algum grupo de pertencimento. “Participei de uma roda de conversa, em julho, sobre suicídio e muito se falou sobre sofrimento relacionado ao preconceito. Alguns jovens relataram que seus amigos teriam cometido suicídio, pois a família não aceitava a orientação sexual”, declara.

A exposição busca chamar a atenção para as dores silenciadas, para os pedidos de ajuda, que vem de diversas formas, que não podem ser negados. (Foto: Maris Strege)

Ainda, segunda a psicóloga, pode-se incluir, como situações de risco, términos de relacionamentos e desemprego. “Os jovens hoje são cobrados de diversas formas. Cobramos que eles estudem, façam um programa de aprendizagem e, se estes não conseguem, ficam à margem do desemprego. Em comunidades mais vulneráveis, onde trabalhei com adolescentes, muitos deles buscavam um programa de aprendizagem para auxiliar com as despesas da casa e para poder comprar roupas, para serem aceitos em seu grupo por estarem com as vestimentas adequadas”, relata.

Durante a abertura da exposição, realizada na segunda-feira, 3 de setembro, estavam presentes amigos das idealizadoras do projeto, apoiadores e a comunidade universitária. Para ressaltar a importância do tema, John contou sua história e desenvolveu uma dinâmica que consistia em formar duplas, ficar de frente um ao outro, dar as mãos e ficar olhando dentro dos olhos do colega de dupla, para evidenciar a importância de dar atenção ao próximo. “Precisamos deixar de lado nosso individualismo, pois ninguém está ileso de passar por dificuldades da vida. Não podemos fechar os nossos olhos para as pessoas que passam dificuldades, principalmente quanto a questão do suicídio. Precisamos estender a mão ao próximo”, enfatizou o diretor da Ulbra, Marcelo Muller, na abertura.

(Foto: Maris Strege)

O suicídio no cotidiano universitário

Professora e coordenadora acadêmica da Ulbra, Adriana Gallert, 46, conta que a universidade já teve casos de suicídio e que a preocupação com os jovens é cada vez maior. “Uma exposição como essa e toda a discussão que se tem em torno do Setembro Amarelo é muito importante realmente por isso, pela geração, que é uma geração que precisa ter um olhar especial. Uma geração que tem muito acesso a informação, muito acesso a conhecimentos e, às vezes, tudo isso parece não fazer sentido”, salienta.

Adriana acredita que os jovens precisam de projetos de vida, pois isso é importante quando se trata da juventude. “Quando um jovem não tem isso, esse obstáculo se torna muito grande. Então esse enfrentamento, muitas vezes, é difícil e a solução é sumir, é desaparecer”, afirmou.

A internet também pode contribuir de forma positiva ou negativa, dependendo da situação. Pesquisa divulgada em setembro de 2017 pela GSMA aponta o Brasil como o país com mais smartphones conectados na América Latina. Para Vanessa, as relações físicas e reais ainda são muito importantes para a sociedade. “As pessoas têm passado muito tempo em seus smartphones, com as cabeças baixas, sem olhar ao redor, olhar para o outro e, às vezes, olhar para si mesmo. Será que aquele rosto sorrindo nas redes sociais está feliz? Será que não esconde sofrimento? Por isso, as fotos e poemas da exposição trazem esse debate, para nos chamar atenção, para fazer um convite ao ‘olhar não visto’”, destaca.

Maris destaca que a mensagem principal da exposição é quebrar o silêncio e dar atenção a detalhes que passam despercebidos. Ela enfatiza que o cuidado e a atenção com o outro são fundamentais e podem salvar vidas. Segundo Maris é fundamental ouvir o que a pessoa que está próxima a nós diz, prestar atenção e dar importância a qualquer sinal que aponte para mudanças de comportamento. “Quando sabemos que a pessoa sofre de depressão, temos que ficar mais atentos ainda”, finaliza.

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