Fanpage alerta sobre problemas de saúde mental enfrentados por alunos da UFRGS

Página “Previamente Hígido” acolhe relatos anônimos de estudantes de medicina

Página no Facebook oferece suporte e espaço seguro para os estudantes contarem os abusos sofridos durante a graduação (Foto: Paula Ferreira/Beta Redação)

Ansiedade. Desespero. Falta de esperança. Pensamentos suicidas. Estes são pontos em comum nos relatos postados na página “Previamente Hígido”. Criada em julho deste ano, no site de relacionamento Facebook, a fanpage conta com mais de 4 mil seguidores e já tem 32 publicações em formato de depoimentos anônimos que expõem problemas de saúde mental enfrentados pelos universitários.

Voltada para os alunos de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a fanpage tornou-se um espaço seguro de fala em que a intolerância não é permitida. De acordo com os criadores da página, que pediram para não serem identificados, somente são publicados relatos que preservem o anonimato dos envolvidos. Eles orientam também que os depoimentos não tenham teor “apelativo”, pois querem tratar o assunto com a devida importância e seriedade.

Além do apoio psicológico, quem entra em contato com a fanpage também é apresentado ao trabalho desenvolvido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), através do telefone 188. “O centro presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. A ligação é gratuita”, diz o aviso postado na página.

Saúde mental em discussão

Engana-se quem pensa que os relatos da “Previamente Hígido” representam um caso isolado. De acordo com um estudo mundial publicado em 2016 no Journal of the American Medical Association, envolvendo 43 países, mais de um quarto dos estudantes de medicina sofrem de depressão ou têm sintomas da doença.

O estudo aponta ainda que esse índice é superior ao da população de mesma faixa etária que não é estudante (Ilustração: Paula Ferreira/Beta Redação)

Para a cientista social Rosângela Werlang, doutora em Psicologia Social, os problemas de saúde mental têm afetado a área médica e áreas mais restritas como pós-graduação (mestrados e doutorados), devido à grande competição nestes setores. “Há pouca acolhida, pouco compartilhamento de conhecimento. Isso, me parece, já inicia quando se opta pelo curso de medicina e as pessoas quase ‘se matam’ de tanto estudar para entrar na universidade”, explica. Rosângela ressalta que ao, entrar no curso, o aluno se depara com um sistema individualista.

“É uma correria por boas notas, para ser o melhor, para publicar a qualquer custo. O sistema em que estes alunos estão inseridos é desumano, desgastante e, por que não dizer, perverso”, enfatiza.

De acordo com a psicóloga e mestre em psicologia pela PUCRS, Pâmela de Freitas Machado, um dos fatores que agrava os problemas de saúde mental, de forma geral, é a centralidade do mundo do trabalho. “A gente vive muito em função do trabalho e não tem mais uma separação entre público e privado. Nos anos 70, por exemplo, se trabalhava de 8 a 10 horas, mas você ia para tua casa e o trabalho acabava ali. Hoje, já não tem mais essa essa divisão do que é o campo do trabalho e o campo do lazer ou da família”, explica.

Pâmela alerta sobre a pressão por desempenho. “Afinal, a medicina é um dos cursos que exige muita dedicação. Tem um status social muito grande e tem cobrança por desempenho, por ser um papel social muito forte e a centralidade do trabalho muito importante”, ressalta. A psicóloga salienta que os cuidados com a saúde mental na área médica precisam ser redobrados, pois “não tem como cuidar do outro se a tua saúde mental está completamente desorganizada”.

Prevenção

Um dos caminhos para reduzir casos de depressão e ideação ao suicídio é trabalhar a prevenção e abordar temas diversos relacionados à saúde mental, ressalta a psicóloga Pâmela. A especialista ainda destaca que isso é responsabilidade de todos, tanto do setor público quanto privado.

“A gente precisa começar a falar de saúde mental e criar espaços de diálogo com as pessoas. Desmistificar o atendimento psicológico e psiquiátrico. É preciso construir ambientes de amparo, de cuidado, e isso é prevenção em saúde mental”, aponta.

A cientista social Rosângela defende também que a discussão acerca do tema deva ser ampliada e fazer parte não apenas das áreas relacionadas à saúde, mas de todas as áreas que se preocupam com o humano. “Unir áreas, somar esforços é o que precisamos, pois há mais de 20 anos as nossas taxas de mortalidade-suicídio não mudam. Temos que trabalhar mais e cada vez melhor para a redução deste fenômeno que insiste em nos desafiar”, afirma.

No setor universitário, Pâmela acredita que as faculdades precisam ter espaços de discussão formados não só pelos próprios estudantes, mas também por professores e por profissionais da psicologia e da psiquiatria.

Já para Rosângela, as universidades precisam alterar seus procedimentos, sua forma de pensar e conceber o ensino, tornando o espaço de aprendizagem menos nocivo, mais acolhedor e mais solidário. “É preciso trabalhar com os professores que, não raras vezes, fomentam a concorrência entre os alunos. É preciso também trabalhar com os estudantes para que tenham maior noção do cuidado de si e do cuidado com o próximo”, conclui.

Sobre a prevenção do suicídio para os alunos de medicina, até o fechamento desta matéria, a UFRGS não havia se pronunciado.