Gênero em debate na sala de aula

Alinhado a uma perspectiva de Direitos Humanos, projeto da Escola Chico Xavier discute o empoderamento feminino

Maria Eduarda e Zilma Diala promovendo a discussão de gênero (Foto: Arquivo Pessoal/Melissa Wonghon)

Uma instituição de ensino idealizada por professores. Foi assim que nasceu, há cinco anos, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Chico Xavier, na região nordeste de São Leopoldo. Os profissionais atuavam como supervisores pedagógicos na Secretaria de Educação e, entre uma visita e outra nos ambientes educacionais, surgiam ideias. Essas novidades eram sugeridas pelo grupo, mas, na maioria das vezes, não eram acatadas. O desejo de pôr em prática os planos criados fez com que começassem a elaborar um Projeto Político Pedagógico (PPP). Aos poucos, a proposta saiu do papel com a construção do colégio.

De acordo com a diretora da escola, Jussara Dias Bueno, houve um movimento, no qual os profissionais da educação fizeram visitas e entrevistas no bairro, a fim de levantar um diagnóstico. “O diagnóstico do bairro já nos alertava para a questão da vulnerabilidade e a negação de direitos. Quando a escola iniciou, já se começou a pensar o PPP dentro de uma perspectiva de direitos humanos”, relata Jussara.

Hoje a escola, que funciona em tempo integral, aborda questões como inclusão, mediação de conflitos, construção de uma cultura de paz, educação antirracista e discussão sobre gênero e sexualidade. Jussara comenta que os dois últimos foram eleitos como o carro-chefe deste ano. “O projeto de gênero e sexualidade está engatinhando e é um grande desafio para nós. A nossa comunidade tem muito forte a questão do homem tomar as decisões, de dizer o que pode menino e o que pode menina”.

Em trabalho na escola, meninos fazem as unhas, integrando as atividades atribuídas a gêneros distintos (Foto: Arquivo Pessoal/Melissa Wonghon)

A necessidade de abordar questões de gênero se deu através de manifestações dos alunos. Com a intenção de provocar uma desconstrução dessas “coisas de menino e coisas de menina”, a escola fez as primeiras camisetas do uniforme na cor rosa. A repercussão foi polêmica, entre pais e alunos que não aceitavam a decisão, mas a instituição manteve-se firme e, com o tempo, o traje foi aceito.

Mas não foi essa a situação que mais causou desconforto. Em um acampamento com os nonos anos, depois da refeição, surgiu a discussão para decidir quem lava a louça. As professoras sugeriram que cada um lavasse as suas, mas os guris não aceitaram. A partir desse dia, a rotina do almoço foi alterada, depois comer cada um era responsável por limpar seu prato e talheres. Alguns pais chegaram a buscar os filhos para comer em casa, por entenderem que lavar louça é coisa de mulher. “Os pais aqui da comunidade sabem que eles entram aqui bem brabos e a gente vai escutar e deixar eles falarem, mas quando eles entendem que o que filho deles está estudando é projeto pedagógico, a gente continua sem maiores problemas”.

Empodera

Dentro da perspectiva de gênero e sexualidade nasceu o projeto Empodera, que aborda a situação da mulher na sociedade atual. A professora Melissa Wonghon contou que o Empodera, em seu formato atual, começou no ano passado. Antes a turma trabalhava diversidades em geral e era aberta também aos meninos. Atualmente funciona com 18 meninas, que discutem feminismo, sociedade patriarcal, cultura de estupro, direitos das mulheres, sororidade, mulheres referências, entre outros assuntos.

Para participar das reuniões basta sentir vontade. As alunas Carolina Giuliana Escobar Souza e Maria Eduarda Vitória da Silva, ambas de 15 anos, não sabiam muito sobre feminismo quando entraram e resolveram ir pela companhia das amigas e convite da professora. Agora são as duas meninas que divulgam o projeto para outras.

Maria disse que, até pouco tempo, o grupo não fazia muito sentido para ela, mas uma adversidade da vida fez com ela enxergasse de um modo diferente. “Eu morava com minha mãe e meu irmão. Meu pai viajava bastante. Daí, quando minha mãe faleceu no finalzinho do ano passado, eu comecei a morar com ele. E agora eu moro com dois homens e eles são extremamente machistas”, desabafa. Ela acredita que tinha algo dizendo para ela entrar no Empodera, “eu não o que seria de mim”.

Carolina conta que começam a debater os assuntos a partir de um filme ou uma pesquisa. “A gente vai contando acontecimentos que foram gerados ao nosso redor e as gurias já vão se sentindo confortáveis. Nós somos amigas, daí tá rolando uma conversa de boas para a gente falar o que realmente acontece, né”. Maria Eduarda relatou que não sai mais sozinha. Um dia, na falta de amigos para acompanhá-la, levou o irmão, que se surpreendeu. “Eu passava na rua, os carros começavam a buzinar. Ele disse: quando tu falava, eu achava que era exagero”.

Para apresentar um projeto na Feira Aprendendo e Pesquisando na Iniciação Científica da Chico — FAPICC, as alunas Maria e Carolina utilizaram o tema cultura de estupro, levantado pela repercussão que o estupro de uma colega, da Educação de Jovens e Adultos — EJA, causou. “A mãe dela perguntou por que tava andando na rua sozinha, por que tava de shortinho, perguntou se ela tinha provocado ele”, contou Maria.

A pesquisa iniciou por livros e vídeos, depois as meninas criaram um questionário e disponibilizaram na internet. Com o resultado, produziram gráficos e perceberam que a maioria das respostas foram de mulheres. Por isso, para a próxima feira, resolveram mudar o método e aplicar a pesquisa dentro da escola.

A pesquisa foi apresentada na Mostra de Tecnologia e Informação com Ciências — Motic e, mesmo não atingindo a classificação desejada, as meninas acreditam ter cumprido seu objetivo. “Como a gente chegou lá na Unisinos, para a Motic, a gente percebeu que mesmo se a gente não passasse a gente ia germinar a sementinha na cabeça das pessoas”, fala Carolina. Agora elas se preparam para a Mostratec, que acontece em Novo Hamburgo.

Na sala de aula, as meninas fazem intervenções quando percebem um comportamento machista. E por acreditarem que precisam integrar os meninos nos debates, decidiram abrir o grupo para eles no ano que vem. Carolina explica que é necessário oportunizar espaços de aprendizagem sobre o tema para os meninos. “No caso do empoderamento, se não tiver o conhecimento, se ninguém falar pra ti o que são esses enfrentamentos, essas barreiras, não tem como tu se colocar à frente, tu não vai ter uma opinião própria para enfrentar essas questões”.

Impacto na comunidade escolar

Os meninos não são tão engajados na causa quanto as mulheres. Alessandro Ribeiro Castilho e Henrique Augusto Siqueira, de 10 anos, e Gustavo Fagundes de Souza, 12 anos, precisaram de uns minutos para lembrar o que é feminismo. “Ah a professora comentou sobre isso na aula de gênero e sexualidade, mas eu não lembro”, relatou Gustavo.

A opinião sobre as roupas das meninas ficou dividida, dois dos três achavam que guria não devia usar roupas curtas. “Porque daí se ela sai na rua com o namorado os outros ficam olhando, o namorado fica bravo”, disse o Henrique. O Alessandro já pensou mais além e falou que a pode causar acidentes de trânsito porque “os motoristas ficam olhando”. Mas Gustavo disse que “não acha nada” sobre esse assunto.

Dona Maria Silva, 39 anos, é mãe do José Eduardo, 14 anos, e da Maria Eduarda, 10 anos. Ela diz achar importante o conteúdo aprendido pelos alunos. “Tudo que eles aprendem aqui, se eu faço errado em casa, eles falam. Se eu xingo uma pessoa, eles falam: mãe, não pode, é preconceito”.

Já mãe do Pedro e do Gustavo Siqueira, Sueli Siqueira, ressalta: “depende do preconceito, né. Se eles vão falar sobre gay, coisa assim, o meu marido fala umas bobagens, daí o Pedro vai na onda dele. Mas o Gustavo é mais coração aberto”.

Empodera acentua a força feminina com o apoio do gênero oposto. (Foto: Arquivo Pessoal/Melissa Wonghon)

Apesar da estrutura pedagógica, a professora Melissa e a diretora Jussara reconhecem que o trabalho de desconstrução do preconceito é muito difícil. “O que a gente percebe é que, quando acontece alguma coisa, a primeira reação deles é machista, mas depois eles pedem desculpas”, ressalta Jussara. Melissa, por outro lado, lamenta: “quando eles estão ficando bons, vão embora para outra escola”.

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