Hapkido trilha o caminho da compreensão e aceitação de si mesmo

Arte marcial, com ênfase em defesa pessoal, estimula a busca por autoconhecimento

Com Aniele Cerutti

Mestre Giovani Andreoni demonstrando o uso do bastão. (Foto: Aniele Cerutti/Beta Redação)

Antes de entrar no tatame, uma reverência em respeito ao espaço, aos ancestrais e ao mestre. O Hapkido exige mais do que a prática de exercícios físicos, movimentos do corpo e técnicas de articulação. Na arte marcial, envolve-se a concentração espiritual e mental, para que todos os praticantes tenham a sincronia de corpo, mente e espírito. Cada sílaba da palavra tem um significado: Hap representa a união, ki, quer dizer energia interior e do, indica caminho. Logo, Hapkido é o caminho da união da energia interior.

Segundo o professor do Instituto Tigre Coreano, Isac Trindade, de 37 anos, existem diversos estilos e técnicas de Hapkido. Entre elas destacam-se as técnicas contundentes (chutes e socos), manipulação, articulação, desequilíbrios e projeções do corpo com armas clássicas (espada, bastão, leque) para defesa pessoal. “O Hapkido é uma arte marcial muito abrangente. Cada mestre dá ênfase a um determinado segmento, ou seja, uns se especializam em armas, outros em chutes, outros em luta, mas, tudo é Hapkido, no fim das contas”, explica.

Conforme o presidente da Confederação Brasileira de Hapkido Interestilos e Grão Mestre, Valdir Eufrazio, a arte marcial já é difundida no Brasil e é uma prática completa e complexa, com suas variáveis de técnicas voltado a defesa pessoal. “Em todos os polos de treinamentos na segurança pública e privada e também nas Forças Armadas Brasileira é ministrado aulas de Hapkido. Hoje temos ótimos mestres e instrutores de norte a sul, leste a oeste”, afirma.

Reverência ao Dojang, espaço onde se encontra a iluminação. (Foto: Arquivo Pessoal/Instituto Tigre Coreano)

O Dojang , espaço de treino da modalidade, é o local onde se alcança a iluminação. Por esta razão, antes da pratica, é realizada uma reverência de saudação aos antepassados, aos mestres e tudo o que possibilitou para o praticante estar presente. De acordo com o mestre do Instituto Tigre Coreano Giovani Andreoni, 45, a saudação feita ao Dojang faz parte da cultura oriental. “A reverência é um processo de agradecimento ao Brasil, que é a minha pátria, aos meus pais que me deram a vida, aos meus antepassados e aos mestres, porque sem eles não haveria isso aqui”, justifica.

A origem do Hapkido

Segundo informações do site Arte Marcial, a história do Hapkido teve início após a Coreia deixar de ser colônia da China e unificou seus três reinos: Kokuryo, Paekche e Shilla sob o comando da Rainha Chin Heung no ano de 668. Para fazer parte da segurança da rainha, um pequeno exército de combatentes foi formado por homens fortes e de um grande conhecimento de técnicas milenares de defesa. Elas eram realizadas com mãos vazias e também com armas, como lanças, espadas, montaria. Além de outras técnicas, como a contenção de respiração por vários minutos e grande poder de concentração e controle do corpo, chamados Hwarangs.

A nomeação Hwarangs foi dada porque na fase de preparação, a maioria de seus ensinamentos foram no templo Budista Hwarang, onde além de aprenderem a dominar o corpo, aprendiam literatura, ética e filosofia. Essa técnica se desenvolveu por muitos anos se transformando no que conhecemos hoje como Hwarang-do, sendo a base inicial do desenvolvimento de todas as artes marciais coreanas e principalmente o Hapkido atual.

Hapkido como estilo de vida

O Hapkido motiva os praticantes e os inspira pela busca e descoberta de si mesmos. Treinar não é fácil, pois exige tempo e força de vontade para alcançar méritos e se graduar conforme as faixas. O mestre Giovani Andreoni começou a praticar quando estava interessado em outra arte marcial, o Aikido. Por influência de um amigo que lhe apresentou a modalidade, despertou o interesse e, desde então, se dedica diariamente a esta atividade. Faz 18 anos que integra às práticas.

Na época, Andreoni procurou a atividade porque estava acima do peso. “O Hapkido mudou a minha vida. Eu comecei a praticá-lo para emagrecer, por causa do meu físico, mas a arte me levou pra outro objetivo, que era o autoconhecimento.” Antes dessa arte marcial, ele praticou judô, karatê kid gushing, kickbox, full contact, mas que nunca se identificou com nenhuma das modalidades, somente o Hapkido.

Mestre Giovani demonstrando as técnicas de Hapkido. (Foto: Aniele Cerutti/Beta Redação)

Para o mestre Giovani, um dos maiores benefícios adquiridos desde que começou a praticar Hapkido foi a descoberta de si mesmo. Ele exemplifica um ditado das artes marciais, que diz “vencer a si mesmo para vencer qualquer inimigo.” Segundo ele, depois de todo o tempo de treinamento, a frase vai contra seus pensamentos. “É conhecer a si mesmo, ser compassivo com si mesmo, e quando finalmente tu conseguir te entender e te abraçar, os teus inimigos desaparecem. Porque na verdade o grande problema que nós temos somos nós mesmos.”

“O Hapkido é minha filosofia de vida. Eu não sou artista marcial só quando subo no tatame, a filosofia das artes marciais faz parte da minha vida diária. A vontade de dormir uma pessoa melhor que a pessoa que acordou de manhã, isso tudo eu aprendi no Hapkido, não desistir apesar das adversidades, tudo, tudo mesmo é Hapkido, para mim”, diz Isac Trindade.

Categorias do Hapkido

De acordo com a Federação Riograndense de Hapkido Olímpico, as graduações são divididas em níveis básico, intermediário e avançado. A mudança de categoria é realizada conforme a evolução do praticante no Hapkido. De acordo com o mestre Giovani, no Instituto Tigre Coreano existem oito faixas coloridas e os alunos vão avançando conforme a absorção dos princípios das artes marciais adquiridos ao longo dos treinos. “Todo praticante que começa no Hapkido precisa ter ciência de que ele não tem base suficiente. No nível básico, o aluno aprende a respirar, se movimentar e articular corretamente”, explica.

(Foto: Aniele Cerutti/Beta Redação)

Para se tornar um faixa preta, o praticante deve perceber que suas técnicas já estão em um nível onde é preciso atenção, cuidado e respeito aos demais colegas de treino. Segundo o mestre Giovani, existem fatores que determinam se o praticante está apto a graduar-se como faixa preta. Entre eles, a capacidade de percepção, resistência física e intelecto espiritual. “A diferença de um faixa preta para um colorida é que ele vai lutar com qualquer pessoa de forma moderada. Mas, para isso, ele precisa estar com a mente, o corpo, e o espírito alinhados e isso é só depois de muito treinamento.”

“É conhecer a si mesmo, ser compassivo com si mesmo, e quando finalmente tu conseguir te entender e te abraçar, os teus inimigos desaparecem”, reitera Giovani Andreoni, mestre de Hapkido.