Grafite foi feito pelos integrantes do projeto Arte Urbana Crew (Foto: Jéssica Zang/Beta Redação)

Inserção social em Nova Petrópolis através da cultura hip hop

Adolescentes em situação de vulnerabilidade social aprendem a desenhar, cantar, andar de skate e o principal: respeitar as diferenças

Jéssica Zang
Aug 26, 2017 · 5 min read

São 8h20 da manhã. Os cerca de 20 adolescentes ainda estão acomodados e sonolentos sob colchonetes e cadeiras assistindo a um filme de comédia quando a professora fala: “Galera do Arte Urbana, hora de ir!”. Prontamente, eles levantam, repentinamente acesos, e começam a falar sem parar sobre andar de skate e fazer rimas. Organizam-se dentro de um micro-ônibus e partem para a pista de skate de Nova Petrópolis, local onde acontecem as atividades do projeto Arte Urbana Crew.

Criado há cerca de quatro anos, ele é vinculado ao Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). A partir de uma votação feita entre adolescentes da rede pública de ensino, que oferecia diversas opções de atividades, os jovens decidiram: queriam se envolver com a cultura hip hop.

Todos os jovens que integram o Arte Urbana Crew participam por vontade própria, como é o caso de E.J, de 14 anos. O garoto passou a ter contato com a cultura hip hop no projeto, que frequenta há cerca de um ano. “Aqui eu aprendi a desenhar, fazer grafite, cantar, andar de skate”, conta. O jovem passa grande parte do tempo pintando caixas que se transformam em telas coloridas com desenhos. “Meu avô frequenta a igreja, então ele acha que a cultura hip hop não é coisa de Deus”, diz, aos risos. Mas para o adolescente, ser participante do projeto tem um significado bem além de aprender sobre essa cultura: “Pra mim isso aqui é amor”.

Materiais recicláveis também são utilizados nas atividades de artes visuais. (Foto: Jéssica Zang/Beta Redação)

G.L, 13 , também está no projeto há um ano. O garoto tem paixão pela música, tanto que compõe rimas. “O caso dele é interessante pois o G.L tem dificuldade de fala. Logo que ele entrou no Arte Urbana era complicado entender o que ele falava. Mas depois que passou a fazer rimas, a dicção melhorou consideravelmente”, conta José Francisco Esteves, ou popularmente conhecido como Frank Bacana, que cuida da parte cultural e esportiva do projeto. “Meu MC favorito é o professor. Me inspiro nele pra fazer minhas rimas”, conta o garoto, que é audacioso: quer gravar um CD. “O Frank disse que vai gravar pra mim quando eu tiver escrito dez músicas”, projeta, com os olhos brilhando.

Papel da cultura hip hop na inserção social

O hip hop surgiu em Nova Iorque na década de 1970. De acordo com Frank Bacana, a cultura é resultado do desejo de promover a paz em bairros violentos da cidade americana. “Em vez de fazer batalhas envolvendo violência, criaram as batalhas de rap e hip hop, em que não era necessário ter grandes estruturas”, destaca. Ele afirma que, por mais que entre os jovens essa cultura seja bem aceita, em virtude de Nova Petrópolis ter colonização alemã e ainda ser um município pequeno, há certa resistência por parte de algumas pessoas. “Já fiz eventos particulares de hip hop que foram interrompidos por conta da música, que não é tradicional na cidade. Sinto que ainda há preconceito aqui” lamenta.

Relação de longa data

O AUC (Arte Urbana Crew) conta com dois facilitadores: o próprio Frank Bacana e a psicóloga Júlia Ponath. Para eles, imundo do hip hop não é novidade. Para ela, por exemplo, o apreço por essa cultura sempre existiu. “Juntos, o grafite, a música e a dança de rua expressam, normalmente, uma realidade da qual não se fala”, explica. Por isso, o interesse em participar do projeto surgiu de forma orgânica. “Quando tive o primeiro contato com o AUC passei a admirá-lo e acompanhá-lo da forma mais próxima que eu podia. Assim, fui me envolvendo.” Por isso, a psicóloga diz que trabalhar com a cultura hip hop e com os adolescentes é uma realização cotidiana. “A realização desse projeto se tornou uma idealização e uma forma de trabalhar e viver para mim”, complementa.

Já no caso de Frank, o contato com essa cultura ocorreu pouco antes dos anos 2000, quando ele ainda morava em Porto Alegre. “Comecei a andar de skate e aí me aproximei dessa cultura. O contato mais intenso se deu em 2004, quando passei a treinar grafite”. Após mudar-se para Nova Petrópolis, em 2013, voltou a se aproximar das artes visuais, aperfeiçoando técnicas de grafitagem e se inseriu, ainda, no mundo da música, fazendo rimas. Tanto que hoje o professor é produtor musical em um coletivo de hip hop chamado “Bozo Crew”. “Hip hop é minha vida hoje. Vem sendo muito gratificante.” Participar do arte urbana é uma troca, mas Frank garante que aprende muito mais do que ensina. “É um processo muito grande de aprendizagem,” conclui.

  • Não são divulgados os nomes de nenhum dos jovens participantes do projeto, que se encontram em situação de vulnerabilidade social, a fim de preservar sua identidade em cumprimento ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Galeria de fotos

(Fotos: Jéssica Zang/Beta redação)

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

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Jéssica Zang

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Assessora de imprensa e repórter. Estudante de jornalismo na Unisinos.

Beta Redação

A Beta Redação integra diferentes atividades acadêmicas do curso de Jornalismo da Unisinos em laboratórios práticos, divididos em cinco editorias. Sob a orientação de professores, os estudantes produzem e publicam aqui conteúdos jornalísticos de diversos gêneros.

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