Intérprete conecta população a direitos básicos
Comunidade surda de Alvorada ganha mais autonomia com serviço de tradução de Libras
Numa sexta-feira chuvosa, Marluci Silva decidiu ficar em casa e desistiu de ir em um evento voltado para a saúde de gestantes em Alvorada. Prontamente foi contrariada e se disponibilizaram a buscá-la em casa. Sua participação era muito importante, já que está no oitavi mês da terceira gravidez e, até então, nunca havia feito um pré-natal ou recebido informações aprofundadas sobre a gestação.
“Eu morava em Cachoeirinha e lá não tem intérprete de Libras no hospital, a comunicação era por papel. Agora me mudei para Alvorada,está muito melhor, porque tenho acesso à saúde e posso falar diretamente com os médicos”, conta Marluci, que teve a fala traduzida pela intérprete Victória Silva.

Marluci Silva, 30, é mãe de duas meninas, de 9 e 6 anos, e pela primeira vez está tendo acompanhamento durante a gestação. A inclusão tem sido garantida graças ao serviço oferecido pela Central de Interpretação de Libras (CIL), implementada na cidade de Alvorada em 2016. Com um carro à disposição, a equipe se encarrega do deslocamento da gestante e fica responsável pela tradução do evento.
Métodos contraceptivos e orientações para evitar doenças sexualmente transmissíveis foram os assuntos que mais chamaram a atenção de Marluci, além do apoio que as profissionais prestaram a ela. “É uma união que se tem entre surdos e intérpretes. Com a CIL tenho o direito de frequentar estes lugares e ser assistida, e agora você (repórter) me acompanhando, me deixa muito emocionada por estar aqui e ser reconhecida pela minha língua”, destaca.


A coordenadora da CIL, formada no curso de tradutor e intérprete de Língua Brasileira de Sinais-Português, Juliana Beppler, afirma que o papel da Central não é só de comunicação, mas sim de orientação aos surdos. “Eles acabam não sabendo dos seus benefícios pela falta de acessibilidade, e isso é violação de direitos porque o acesso à informação, em cada órgão público, é lei”, garante a profissional.
A legislação que assegura acessibilidade é a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), que pode ser lida na íntegra aqui.
Formas de atendimento
A Central lida com questões do cotidiano do surdo e dispõe de três tipos de atendimentos: presencial, quando o surdo se desloca até a CIL e solicita o atendimento; “in loco”, quando o usuário agenda atendimento no órgão público e a intérprete vai no dia e hora marcados; e o virtual, quando o usuário pode se conectar por meio de aplicativo de vídeo-chamada da página da CIL no Facebook.
Casos que envolvam hospitais e delegacias são priorizados, mesmo quando há outros agendamentos prévios. Em situações de emergência, a CIL sempre informa o surdo e o órgão público da impossibilidade de atender a pessoa que já estava programada.
Atendimento exemplar inspira outros Estados
Juliana se orgulha ao afirmar que a CIL Alvorada é exemplo para as outras Centrais. A coordenadora conta que recebem ligações de São Paulo perguntando como ela e sua estagiária, Victória Silva, atuam na cidade e a forma como se articulam com os surdos. Atualmente, a CIL Alvorada já fez mais de dois mil atendimentos.
A empatia por parte das intérpretes também humaniza o serviço prestado por elas. A confiança depositada nas profissionais passa por pedidos de conselhos, casos como o de um senhor que todo mês vai ao banco receber sua aposentadoria acompanhado por uma delas, já que não confia em mais ninguém para a função. Há outras histórias que também animam Juliana e Victória.
“Hoje nós vemos os usuários mais empoderados e eles nos procuram porque se sentem seguros. Muitas vezes o surdo também precisa de atenção e se sentir ouvido”, relata Juliana.
Para que o surdo conheça a unidade, Juliana e Victória trabalham com uma grande divulgação pela cidade. Elas fixam cartazes nos órgãos públicos, distribuem panfletos e conversam ao máximo com atendentes para que saibam encaminhar as pessoas com deficiência auditiva para a CIL.


Ao todo, são 37 Centrais de Interpretação distribuídas pelo Brasil: das três que existem no Rio Grande do Sul, apenas a de Alvorada e Horizontina funcionam ativamente, e a unidade de Parobé fechou. A manutenção dos locais fica por conta das prefeituras e o mobiliário foi de responsabilidade do Governo Federal.
Juliana explica ainda que, além de atender Alvorada, quando surgem demandas em Gravataí e Cachoeirinha, elas são solicitadas dependendo da gravidade do caso. Ela reforça que o deslocamento acontece apenas em situações específicas.
Por que Alvorada?
Foi por meio de um abaixo-assinado realizado pelos deficientes auditivos da cidade de Alvorada que a CIL foi implementada no local. Eles chamaram a atenção do Governo Federal através do programa Viver Sem Limite, que faz parte do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (pode ser lido aqui).
Em 2015, foi o ano em que as denúncias por falta de acessibilidade chegaram ao ápice. “Eles levaram esse abaixo-assinado até o Ministério Público e pediram que a situação fosse resolvida. Essa demanda foi passada para os Direitos Humanos da cidade e o município começou a ir atrás para resolver a questão da comunicação para surdos”, explica a coordenadora da CIL.
Libras nas escolas
A Língua Brasileira de Sinais “é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão”, conforme o texto da Lei disponível aqui que a regulamenta. Um dos espaços primordiais para a socialização é na escola, mas a direção e os professores ainda se encontram distantes da cultura surda para passar informações aos alunos. Apenas em 2005 foi publicado um Decreto oficial estabelecendo a inclusão de Libras como disciplina curricular na formação de profissionais da educação.
A estagiária da CIL, Victória Silva, nunca conviveu com surdos e o interesse em aprender Libras veio do incentivo da mãe que é professora. “Só descobri o curso quando tinha me formado no Ensino Médio”, conta Victória, que se formou na primeira turma do curso Técnico em Tradução e Interpretação de Libras de Alvorada.
O que começou como um interesse pessoal passou a ser a profissão da jovem de 21 anos, que antes da CIL foi auxiliar administrativa na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos. “Trabalhava em contato direto com colegas e funcionários surdos. Nessa experiência vi que meu rumo não é só comunicar, mas também interpretar. Hoje faço Letras/Libras na UFRGS para me especializar ainda mais”, conta.
“A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios” — diz o texto do Decreto.

Marluci teve dificuldades de inclusão na infância. Aprimeira vez que foi para uma escola com atendimento para surdos foi aos 9 anos. Somente aos 15 passou a dominar por completo a comunicação por Libras.
O marido de Mariluci também é surdo e as filhas são ouvintes. Por causa da condição dos pais, elas sempre tiveram contato com Libras, mas ela revela que gostaria que as filhas tivessem na escola um aprendizado mínimo sobre a cultura surda.
“Em Alvorada eu não encontrei escola com ensino relacionado a Libras. Eu acho que no Ensino Médio poderia ser explicado o que é o surdo e o que é a intérprete, e colocar os alunos em contato com estas pessoas”, opina.
Serviço
A CIL está localizada na Rua Porto Rico, 75, sala 302, no Centro, ao lado da prefeitura de Alvorada, parada 48.
O atendimento é gratuito, de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Podem solicitar moradores de Alvorada.
O contato pode ser feito pelo e-mail cil@alvorada.rs.gov.br e no Facebook, pela página Cil Alvorada.

