Manifestantes protestam contra fechamento da exposição Queermuseu

Encerrada antes do prazo pelo Santander Cultura após pressão de grupos de direita, mostra de temática LGBT recebeu manifestação de apoio na tarde de terça (12)

Manifestantes a favor da mostra censurada organizam protesto em frente ao Santander Cultural. (Foto: Jéssica Martins/Beta Redação)

Na tarde de terça-feira (12), grupos se organizaram para uma manifestação em frente ao Santander Cultural contra o encerramento da exposição Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira. Os manifestantes defenderam a livre expressão da arte através de protesto com representações artísticas, música e gritos de luta.

Aberta à visitação em 14 de agosto e com previsão para ficar em cartaz até 8 de outubro, a exposição foi encerrada mais cedo devido às acusações de apologia da zoofilia, pedofilia e blasfêmia. Os ataques à mostra foram feitos na internet.

A Praça da Alfândega ficou tomada de integrantes de movimentos sociais que bradavam que a arte não deve ser censurada. Junto aos manifestantes circulava o curador da mostra, Gaudêncio Fidélis, que afirmou não ter sido consultado pelo Santander sobre o encerramento da exposição.

A manifestação foi organizada pela ONG Nuances - Grupo Pela Livre Expressão Sexual. O coordenador geral do movimento, Célio Golin, considerou que o cancelamento da mostra tem um significado mais amplo. “Inadmissível o que está acontecendo. Como a temática (da exposição) abordava as questões LGBT, viramos bode expiatório, mas se trata de algo muito maior. A mensagem que uma entidade do tamanho do Santander passa é que vai ceder a grupos de extrema direita”, argumentou.

A ONG acionou judicialmente o banco Santander através do Ministério Público. Segundo Célio, as justificativas apresentadas pelo banco para o encerramento da exposição são infundadas. O texto levado ao Ministério Público ressalta o trecho da Constituição Federal que diz que todos são iguais perante a lei e que é livre a expressão de atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura.

Conforme o ato contra o fechamento da Queermuseu se estendia, manifestantes que pediam o fim da exposição foram surgindo, instigando o primeiro grupo e usando celulares para gravar os rostos. Vaiados aos gritos de “fascistas”, os manifestantes a favor do fechamento foram escoltados pela Brigada Militar para longe do ato.

Autor do pedido de fechamento da exposição, Felipe Diehl é um dos administradores da página no Facebook Direita ao Vivo. Ele foi uma das caras do movimento contrário ao conceito de arte contemplado na exposição Queermuseu. Sobre o envolvimento do MBL no caso, Diehl afirmou que a cúpula do movimento nunca visitou a mostra e teria se ocupado da denúncia quando a polêmica já estava na mídia.

Diehl conta que soube da exposição devido a outra conta no Facebook ligada ao movimento de direita, e foi então que fez uma filmagem dentro do museu para colocar nas redes sociais. “Pintaram como uma obra de arte uma perversão, associaram à igreja, denegriram a religião. Vilipêndio é crime. Ninguém está falando sobre arte. Falaram sobre censurar arte, mas não se trata disso, não foi uma exposição que foi fechada, foi uma casa criminosa”, expressou Felipe.


Confira no aúdio o segmento da entrevista com Diehl

Em contraponto Lucas André, presente na manifestação conta que sempre frequentou o museu e que a arte serve para a evolução e auxilia na quebra de tabus sociais. Ligado ao movimento LGBT para ele é necessário que as pessoas se sintam representadas nos espaços e que o tema seja abordado desde a infância.

Manifestante contra o fechamento da exposição levanta cartaz com questionamento. (Foto: Jéssica Martins/Beta Redação)

“O museu serve para contar o que está na nossa história, e o mundo se atualiza. Isso se transpõe na arte. Precisamos parar de rotular. A arte é uma forma de demonstrar aquilo que desperta sentimentos intrigantes”, opinou Lucas.

Entre todos os tipos de manifestações que o debate em torno da exposição provocou, foi possível notar o movimento político inflado por trás de argumentações. Bandeiras ligadas a partidos políticos foram erguidas, e entre elas também circulavam autoridades. O protesto, que seguia pacífico até certa altura, acabou com intervenção da BM, que jogou bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes.

Além do tumulto, um jornalista e um morador de rua foram presos, mas liberados em seguida. Uma fotógrafa também foi atingida pelo spray de pimenta da Polícia Militar.

Imagens retratam obras da exposição. (Foto: Jéssica Martins/Beta Redação)
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