RS é o estado com as descargas elétricas mais destrutivas do país
No Brasil caem mais de 50 milhões de raios por ano. Em Porto Alegre, anualmente, ocorrem sete raios por km²

Com André Cardoso
Segundo dados obtidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 57,8 milhões de descargas elétricas atingem o país. Recentemente, no Rio Grande do Sul, uma tragédia aconteceu em Gravataí durante uma partida de futebol: a queda de um raio deixou 14 pessoas feridas e causou uma morte. Pelo mesmo motivo, no Piauí, um jovem de 18 anos acabou sendo vítima das descargas elétricas, enquanto praticava o esporte. Em Tocantins, seis pessoas já morreram em consequência de choques elétricos, somente neste ano.
O raio é uma descarga elétrica que ocorre na atmosfera, com intensidade de 30 mil amperes - mil vezes maior que a intensidade do chuveiro elétrico. A explicação para o Brasil ser o alvo dos raios é geográfica, pois a maior parte do país está na zona tropical, o que facilita a formação de tempestades.
Neste contexto, o INPE aponta o Rio Grande do Sul como líder no ranking de densidade (raios por quilômetro quadrado). São mais de 18. Em Porto Alegre, estatisticamente, ocorrem sete raios por km²/ano na média, sendo um número total de raios/ano em torno de 4 a 5 mil raios. Além disso, o Estado apresenta outra peculiaridade sobre as descargas elétricas: os raios são mais fortes e destrutivos do que em qualquer outro estado brasileiro.
De acordo com o Grupo de Eletricidade Atmosférica (ELAT), o Rio Grande do Sul apresenta alta concentração de raios bastante destrutivos, pois se encontra na região central da América do Sul, ficando no meio de fenômenos climáticos que vêm especialmente do Paraguai e do Oceano Atlântico.
No entanto, mesmo com a alta incidência, há algumas formas de prevenção para não ser atingido por uma descarga elétrica. A primeira delas é entender que, quando se está em um ambiente de céu aberto, a chance aumenta exponencialmente.

Durante as tempestades, o sargento do Corpo de Bombeiros de Farroupilha, Geomir Alan do Cás aconselha evitar locais altos, sentar embaixo de árvores ou deitar no chão. A pessoa também deve manter distância de poças de água e objetos que possam conduzir a eletricidade, como linhas de energia e cercas de arame farpado. Dentro de casa, o bombeiro sugere não entrar em contato com objetos ligados à rede elétrica ou ficar perto da tomada durante uma tempestade. Além disso, jamais praticar quaisquer tipos de esportes em locais abertos, como futebol, corrida, andar de bicicleta, entre outras atividades similares.

Físico e cientista pesquisador de descargas elétricas atmosféricas, Guido Potier dedicou 25 anos de estudos na área com o objetivo de compreender como esse fenômeno acontece em cada região do mundo, com foco no Brasil. Ele afirma que, no mundo, todos os dias alguém morre atingido por um raio. Mas essas tragédias diárias não são por desinformação ou falta de comunicação. “Isso acontece em virtude da incrível negligência do ser humano, que sempre tem uma desculpa ou frase pronta quando o assunto são raios”, destaca.
O pesquisador alerta para que as pessoas tenham bom senso na hora das tempestades. “As pessoas não podem querer ser super-heróis. É preciso procurar abrigo em locais cobertos. E quando fala-se em locais cobertos não são em baixo das coberturas de paradas de ônibus ou marquises, mas sim dentro de casa ou estabelecimentos fechados”, explica Guido.
Cuidados imediatos em caso de vítimas
Os primeiros socorros para uma pessoa atingida devem ser imediatos. Segundo o sargento Geomir, não há motivos para ter medo de tocar na pessoa, pois a vítima não irá reter carga elétrica. Em alguns casos, a pessoa pode ficar inconsciente, desorientada ou incapaz de falar. Por isso, a sugestão do bombeiro é cumprir os seguintes passos:
Peça ajuda: ligue para a emergência imediatamente. Procurar atendimento médico o mais rápido possível pode ser decisivo para a recuperação em alguns casos.
Mova a vítima para um local seguro: pessoas atingidas por um raio não possuem carga elétrica e não são uma ameaça para quem socorre. É possível removê-las sem riscos.
Preste os primeiros socorros: se a vítima parou de respirar, inicie a respiração artificial. Caso o coração tenha parado de bater, uma pessoa treinada deve fazer a ressuscitação cardiopulmonar imediata e ventilação com pressão positiva. Em geral, a morte por raio geralmente resulta em parada cardíaca. Se a pessoa tem pulsação arterial e está respirando, resolva quaisquer outros ferimentos.
Verifique queimaduras: a vítima recebeu choque elétrico e pode ter sofrido queimaduras. Esse choque também é capaz de causar danos no sistema nervoso, quebrar ossos e acarretar perda de audição ou visão. Algumas pessoas sofrem perturbações do sistema nervoso com perda de consciência e amnésia. Trate todas essas lesões com primeiros socorros até chegar ajuda especializada.
Curiosidade

Há uma máxima popular que diz que “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. No entanto, o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, recebe anualmente seis raios, causando danos na estrutura e exigindo reparos. O pesquisador Guido Potier explica o que ocorre nestes casos.
“Quando um raio cai num local, ele terminou sua vida útil, mas outros raios poderão vir a cair naquele mesmo lugar. Nunca o mesmo raio, sempre descargas elétricas diferentes. No caso do Cristo Redentor, bem como em inúmeros casos semelhantes no Brasil e no mundo, pode sim ser atingido por mais do que um raio. Neste monumento há um bom aterramento e a estátua se encontra num ponto elevado, o que favorece ser atingida por raios”, analisa.

