“O Brasil precisa de uma revolução cidadã”

Entrevista com Fernanda Melchionna, vereadora mais votada de Porto Alegre em 2016

Fernanda Melchionna afirma serem necessárias novas manifestações como as de junho de 2013. (Foto: Divulgação)

Faltando exatamente um ano para o segundo turno das Eleições de 2018, na qual diversas siglas irão concorrer ao Legislativo e Executivo no Estado e no país, Beta Redação conversou com Fernanda Melchionna (PSOL), vereadora de Porto Alegre. A política foi a parlamentar mais votada na capital nas eleições municipais de 2016, somando 14.630 votos. A diferença para o segundo colocado, Mauro Zacher (PDT) foi de 1.079 votantes.

Melchionna, de 32 anos, já foi coordenadora do DCE da UFRGS e está em seu terceiro mandato consecutivo na Câmara de Vereadores. A psolista fala sobre o que está achando da atual gestão da prefeitura de Porto Alegre, comandada pelo tucano Nelson Marchezan Jr, seus principais planos nos próximos três anos como vereadora, o cenário na disputa para Presidência da República, além de defender que o país precisa de uma “revolução cidadã”.

BETA REDAÇÃO - Tu estás no terceiro mandato como vereadora de Porto Alegre, sendo que no segundo atingiu a maior marca entre mulheres, ficando com 7 mil votos. Nas últimas eleições, você dobrou esse número. Como é para ti ter a confiança destes mais de 14 mil eleitores?

Fernanda Melchionna — É um motivo de orgulho. De agradecimento à população que confiou em mim com apoio e voto num momento de tanto descrédito na política. Eu tenho convicção de que cada um destes votos também é um reconhecimento das lutas que nós nos envolvemos ao longo dos últimos anos, com as lutas das mulheres, dos LGBTs, dos jovens, do direito à moradia digna, na luta contra a corrupção e pelos direitos do povo. O meu mandato é o mandato das causas sociais, combatendo essa falsa democracia que nós vemos Brasil, em que o povo é chamado apenas para votar e os políticos e governantes fazem o que bem entendem.

Quais são os teus principais projetos neste terceiro mandato?

Melchionna — Tá difícil definir uma pauta só. Infelizmente, todo dia a gente acorda com um novo ataque do prefeito (Marchezan). Parece que ele tem muita facilidade em trabalhar no sentido de atacar os direitos do povo. A gente estava com a política de fazer uma fiscalização da qualidade do transporte e o Marchezan faz um pacote de arrasa quarteirão. A gente queria fazer uma política de garantias de direitos no que diz respeito à melhoria das condições de acesso para a população, de tempo de espera nas paradas e ele tira a segunda passagem gratuita. Temos que focar na existência destes ataques. Eu vejo que será um mandato de muita resistência, de articulação das lutas sociais, das demandas populares para que o povo não perca e que a gente possa manter as conquistas e avançar, no sentido de ter mais direitos em todos os aspectos. Eu tenho identidade com muitas lutas na cidade, tenho muitos projetos de lei e estou tentando priorizar há tempos um que combate o assédio sexual a mulheres nos ônibus.

Qual seria o balanço do governo Marchezan nestes 300 dias de governo? Quais são os pontos positivos e os negativos da gestão?

Melchionna — É um governo autoritário. É um governo recessivo, porque na justificativa de resolver a crise econômica, cava buracos, fazendo com que a crise econômica fique mais aguda em Porto Alegre. Parcelamento dos salários, enxugamento de verbas nas áreas sociais, tirando os direitos no momento que o povo mais precisa do Estado. Ele desmonta as políticas de assistência, mas ao mesmo tempo isso tem repercussões negativas no que diz respeito à economia municipal. Imagina 24 mil servidores com salários parcelados. Pessoas que não têm como pagar as contas, não conseguem comprar. Isso tem impacto no comércio, na arrecadação e no município. É um governo reacionário que governa com o que há de mais de extrema direita, apoiando MBL (Movimento Brasil Livre). Como pode um governo apoiar um grupo com discurso de extrema direita protofascista? É um governo que ataca as conquistas populares. É um Robin Wood às avessas, que tira dos pobres para dar para os ricos, literalmente. O fim da segunda passagem gratuita é um exemplo disso, pois aumenta o lucro dos empresários.

É um Robin Wood às avessas, que tira dos pobres para dar para os ricos, literalmente. (Melchionna, sobre prefeito Marchezan).

O que significa para ti, após ter criado a lei que mudou o nome da Avenida Castelo Branco para Avenida da Legalidade e da Democracia, ter querendo reverter a troca?

Melchionna — É um retrocesso em três aspectos. Primeiro, retirar da entrada da cidade a homenagem para alguém que cometeu crimes contra a humanidade tem um símbolo enorme. Não se deve homenagear aqueles que promoveram mortes, desaparecimentos, torturas, aposentadorias forçadas durante a Ditadura Civil Militar. Segundo, homenagear o momento de orgulho para os gaúchos, que é a Legalidade, episódio que retardou a Ditadura por três anos com o levante comandado por Leonel Brizola, que foi um governador amplamente apoiado e mobilizado pelo povo gaúcho. Terceiro, acho que parte da busca por justiça de transição. Boa parte dos países que tiveram essas barbáries cometidas pelas ditaduras militares em conluio com a elite empresarial, mas executada pelo Exército, fez uma justiça de transição. O Chile tem o museu do Recordo, por exemplo. O Pinochet morreu condenado. O Videla morreu preso na Argentina. O Uruguai, com a justiça de transição, teve mais de 200 julgados, alguns condenados, como torturadores, agentes e afins. No Brasil, tivemos uma anistia irrestrita a todos os torturadores da Ditadura Militar. Não teve nenhum tipo de justiça de transição. Além de não ter a questão da memória, porque um país que não tem memória pode repetir os erros do passado. Muitos dizem “ah, você quer mudar a história”. Não, se fosse seguir a história seria ditador e torturador Castelo Branco, responsável por crimes contra a humanidade, por mortes e desaparecimentos. Castelo Branco não é história. Não foi eleito por ninguém.

Daqui há exatamente um ano, estará acontecendo o segundo turno das eleições gerais. Como o PSOL chega nos diferentes pleitos?

Melchionna — Chega com muita responsabilidade e com um desafio enorme que é postular uma alternativa de esquerda diante da falência da velha esquerda que se adaptou ao modus operandi do regime, da política do toma lá dá cá. Seja dessa extrema direita e desse discurso neoliberal, jurássico, que coloca a cabeça pra fora no sentido de atacar direitos, conquistas, atacar a previdência, direito trabalhadores. Não é um desafio só do PSOL Não somos autoproclamatórios. Não somos os únicos da esquerda. Mas ao mesmo tempo a gente sabe que temos a responsabilidade de apresentar um polo alternativo, independente daqueles que não se venderam. Os tempos no nosso país estão difíceis. Estamos num período de transição que as pessoas não acreditam mais no regime político. Não é para menos, porque também não acredito. Estou preocupada em mudar esse quadro. O Brasil precisa de uma revolução cidadã na política, na economia e na sociedade. O problema é que neste terreno, embora exista essa descrença na política, existe um certo ceticismo por vários fatores. Ninguém confia no Temer e o cara segue presidente da República. Durante 30 anos, muitas pessoas depositaram todas suas fichas no PT, que era uma proposta de mudança. Eles foram lá e governaram com os mesmos. Dá desânimo. Povo tem que se auto-organizar e acreditar na mudança que mexa nos pilares do regime. Isso está em curso. O regime da nova república, fundado após a ditadura militar, desse presidencialismo de coalizão, do jogo da política tradicional, regulamentar, morreu. O novo ainda não nasceu. Nós do Psol somos apenas uma semente.

Como tu enxergas a declaração do ex-presidente Lula, que recentemente disse que “gostaria de ver o PSOL governar uma cidade”?

Melchionna — Ele usou o termo frescura. Se ter princípio é frescura, então somos muito frescos. Ou tu te elege pra mudar e sabe que será necessário que o povo esteja junto, mobilizado, ajudando a organizar, para ter medida de contrabalançar o peso das elites políticas e desse regime apodrecido no Brasil, ou tu governa com eles. O Lula optou governar com eles. Estão aí as relações com a Odebrecht, OAS, com os bancos. Tudo o que aconteceu, a governabilidade com o PMDB. É preciso ter princípios. O Lula é um traidor da classe dele. Saiu do operariado, construiu com outros militantes o maior partido de esquerda que o país já teve, mas levou as acumulações e as esperanças da população junto. Nós queremos, sim, ganhar as eleições algum dia. Nós não temos medo de poder, no sentido de ter uma experiência no Estado. Lula se equivoca quando diz que o Psol não chegou no poder. Boa parte de nós éramos do PT. Para nós teria sido muito mais fácil nos acomodar. Nós temos muito orgulho de sermos um partido de militantes.

Tu acreditas que o PSOL já tenha os candidatos estabelecidos para governador do Rio Grande do Sul e presidente da República?

Melchionna — Possivelmente será o Chico Alencar nosso candidato à presidência da República. Para governo, Roberto Robaina. Temos excelentes nomes no partido. Nós temos essas indicações porque é preciso começar a discutir programas, a necessidade de discutir as alternativas no ano que vem. A eleição de 2018 passa por 2017, pelas respostas diante desses ataques do governo.

Você permanece como vereadora, cumprindo seu mandato, ou tentará concorrer a algum outro cargo no que vem?

Melchionna — O partido vai decidir, os militantes, ativistas. Nós temos um conselho social e político do mandato, que é um conselho de pessoas que participaram das lutas do mandato. É uma discussão coletiva e nós ainda não definimos.

Como tu enxergas 2018 e os possíveis embates entre futuros governadores e presidentes?

Melchionna — O cenário ainda não está fechado por várias questões. Nós somos defensores da luta contra a corrupção e sempre acreditamos que é fundamental. Agora, em um país que tem Temer como presidente e Aécio como senador, cassar a candidatura do Lula, por via jurídica, nós não achamos que é o correto. Nós achamos que é uma definição, inclusive, política, de, pela via jurídica, inviabilizar que o lula possa se candidatar. Nós queremos ter uma alternativa pela esquerda e que o povo um dia condene o Lula pela traição de classe que fez. Não se sabe se ele vai poder concorrer ou não. A burguesia começou a unificar o seu programa agora a partir do governo do Dória em São Paulo. A candidatura do Bolsonaro coloca a extrema direita com a cabeça pra fora e faz um discurso extremamente atrasado e conservador.

Dependendo dos resultados que surgirem, tu acreditas que novos Junhos virão?

Melchionna — Eu acho que é necessário o povo ir para rua independentemente do resultado de 2018. É necessário um novo junho no Brasil. O que está acontecendo no país é uma devastação de direitos. A gente ainda não sentiu o impacto da lei da terceirização e a reforma trabalhista mudar a cara da classe trabalhadora em um ano. Mais informal, com menos direitos, mais rotatividade, com menor salário. Em todos os aspectos. O tamanho da devastação que nós estamos vendo é brutal. Ao mesmo tempo, eu vejo ceticismo e vejo um mal-estar social geral gerado pela crise econômica, pelo arrocho, pelo desemprego. A única forma de que a gente pudesse dar um sentido de unidade, totalidade e resistir a esses ataques e garantir direitos, seria ter novos junhos de 2013, agora com mais programas,. com mais direção, com mais capacidade de unificar a pauta nacional. Porque senão vai ter protesto, vai ter resistência, vai ter gente que luta por moradia, por terra, vai ter luta das mulheres, dos LGBTs, vai ter greve. A capacidade de dar uma resposta com a força necessária para enfrentar esses ajustes de forma unificada, agora em 2017, ainda não vejo. Preciso apostar e lutar para que tenha novos junhos..

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