O rap no coração de Porto Alegre

A Batalha do Mercado chega à sua 69ª edição e promove seletiva para Duelo Nacional

Batalha do Mercado reuniu dezenas no Largo Glênio Peres no último sábado. Foto: Cassiano Cardoso

Os movimentos e batalhas de rap ganharam espaço nas ruas do Brasil na década de 1970. Em São Paulo, foi a partir de eventos de batalhas de MCs que surgiram nomes como Projota, Emicida e Rael da Rima. Em Porto Alegre, há seis anos os gritos de “Sangue!” agitam todo último final de semana de mês na Batalha do Mercado, realizada de maneira independente em frente ao Mercado Público, bem no centro da capital gaúcha. O evento chegou à sua 69ª edição no último sábado (26) com a disputa que elegeria um MC para a seletiva estadual, prevista para o dia 25 de outubro.

“Funciona assim: a galera se inscreve e 16 são sorteados para participar do mata-mata. O campeão hoje se classifica para enfrentar outros 15. Se vencer, vai para Belo Horizonte disputar o nacional”, explica Bruno Piloni, conhecido como Malcom ANX, quatro vezes campeão da Batalha do Mercado e apresentador desta edição. Enquanto ele orienta, o povo se aglomera, no começo da noite, acompanhado de garrafas de vinho e de vodca. A presença de maconha é sentida através da fumaça que paira no local.

Ali, são realizadas as batalhas. Diferente de outras competições musicais, a organização tem apenas os papéis de inscrições. Em meio ao público, uma moça ergue tiras de papel e os balança. É Aretha Ramos, idealizadora do projeto em sua origem, no ano de 2011. “Estamos vendendo duas rifas. Uma da Batalha e outra do nosso patrocinador. O dinheiro arrecadado vai para ajudar nas despesas do campeão que for a BH”, brada.

Meia hora depois, quando o relógio já bate na faixa das 21h, o pessoal se reúne ao redor de Malcom e começa o evento. As batalhas são de sangue, ou seja, dois adversários se enfrentam e rimam palavras ofensivas para o adversário, atacando um ao outro. Cada rapper tem 40 segundos para rimar. Quem atacar melhor vence ao final dos três rounds. O povo é o jurado.

“Acredito que aqui as pessoas aprendem. Se você soltar uma rima ofensiva, seja racista, homofóbica ou machista, o público pode até te vaiar. Aí ou o cara nunca mais vem ou ele vai para casa, repensa e volta com conteúdo melhor para a próxima Batalha do Mercado”, explica Aretha.

O campeão e o iniciante

Entre as batalhas, uma chama mais a atenção dos presentes. O porto-alegrense Vinicius Goulart, 13 anos, participa pela primeira vez, acompanhado dos pais. Logo de cara, enfrenta Rafael Augusto, apelidado de Pregador de Boi, que viria a ser o campeão da noite.

No par ou ímpar, o estreante ganha e começa no ataque. Pregador de Boi não deixa quieto e revida. Com mais experiência, fala sobre a evolução do rap e que todos ali um dia foram como Vinicius.

“Tem muito rapper que fala de pênis e vagina. Tu é testemunha da tua própria vida. Fala do que tu vive, do que tu faz. Ataca, mas ataca com conhecimento”, comenta Pregador de Boi, após a batalha, vencida por dois a zero. “Tô procurando trampo. Trabalhava numa loja, mas lá estava me tirando muito tempo do rap e acabei saindo. Agora é buscar outro, né? O aluguel e o prato de comida não se pagam sozinhos”, completa.

Já o jovem Vinicius conheceu o rap através de um amigo que fez na internet. “Gostei da ideologia. Passei a pesquisar sobre as batalhas e descobri que existiam vários tipos diferentes e hoje resolvi vir aqui ver mais de perto como era”, conta.

Rafael Augusto (Pregador de Boi) x Vinicius Goulart. Foto: Cassiano Cardoso

Pregador Boi, organizador da Batalha da 18, em Alvorada, foi campeão da seletiva por dois a um em cima de Inóspitto e levou uma gravação gratuita na Trinca Records, um beat (batida de rap) do Triptamita, uma camiseta da Batalha do Mercado e a oportunidade de disputar o estadual dia 15 de outubro. Dali, um será selecionado para disputar no Duelo Nacional, realizado em Belo Horizonte, no dia 25 de novembro.

Mulheres no rap

Única mulher a participar das batalhas desta edição, Bárbara “Babi” Oliver, 20 anos, estudante, passou a se envolver com o movimento quando morou em Santa Catarina. Ela conta sobre como é ser uma das poucas meninas na cena. “É um movimento que ainda tá crescendo. E está mudando. É massa vir para a batalha e passar uma ideia e não um monte de palavrões. O rap abre a mente das pessoas”, explana.

Outra menina envolvida com o rap é a atriz e modelo Mariana Marmontel, 19 anos. Ela organiza a Batalha da Morte, em Canoas. “Tô na cena faz uns quatro, cinco anos. Nossa edição é organizada só por mulheres. Como o rap é dominado por homens, as minas se sentem acuadas de batalhar. A pressão é maior”, relata. Para Mariana, ter um movimento forte de mulheres na poesia urbana da capital é primordial.

“Hoje, de 16 participantes, tinha só uma mina. É importante ter um movimento das minas do rap. Só assim para começarmos a nos sentir à vontade em meio a eles”, aponta a jovem.

O público

O público varia, com diversas faixas etárias. Giovana, uma garotinha de três anos sentada sobre os ombros do pai, que grita “Sangue” (uma espécie de grito de guerra da Batalha) junto com o apresentador. A mãe também está presente, grávida de seis meses, conseguiu folga em meio aos plantões do trabalho como enfermeira e pôde trazer Giovana.

“Ela assiste aos vídeos com o pai dela. Fica até inventando as músicas na cabeça. Ele sempre foi apaixonado por rap e ela acompanha ele na frente da TV. Agora, tivemos a oportunidade de trazer ela aqui”, conta Mirian Pinheiro, 30 anos, de Porto Alegre.

O municipário Davi Aragão, 31 anos, foi pela primeira vez na Batalha do Mercado, mas acompanha há bastante tempo o movimento do rap. Ele ressalta a ocupação da cidade pela cultura. “Temos que ocupar os espaços para que as pessoas conheçam e não apenas marginalizem o rap. É muito importante, em meio a esse caos político, que a gente escute a realidade das pessoas. E é aí que o rap entra”, define.

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