OPINIÃO: Saudades das entrevistas antigas

Se na televisão é sempre o mesmo, na internet está a descontração do esporte

Reprodução/YouTube

Uma sala escolhida pelo clube, uma grande mesa onde posicionam-se o técnico, um ou dois jogadores. Ao fundo, a marca dos patrocinadores. Do outro lado, a imprensa, com suas câmeras fotográficas, de televisão, microfones e profissionais de olhos e ouvidos atentos.

Já o conteúdo da conversa, muitas vezes o esperado.

Em caso de vitória, agradecimento ao esforço do grupo, frases religiosas e valorização do adversário.

Em caso de derrota, promessas de trabalho, de pensamento focado nos próximos jogos e alguma justificativa como “faltou o última passe” ou “nós também tivemos chances, mas eles foram mais felizes”.

Hoje, as entrevistas do jogador de futebol para o repórter são cada vez mais previsíveis. Nesta década, um massivo investimento em comunicação por parte de clubes e jogadores tem tornado a relação entre jornalista e atleta um caminho cada vez mais engessado.

Antes do encontro entre profissional da imprensa e jogador já sabe-se o que será discutido. Neste meio de campo, insere-se o assessor de comunicação, responsável por pautar a conversa. Este modelo de relação gera reportagens que, salvos os casos de gafes cometidas pelos interpelados, trazem um conteúdo previsível para o expectador. Em frente a televisão, o consumidor do telejornal tradicional pode tentar adivinhar, sem dificuldade, qual será a resposta do jogador.

– Ele vai falar que está feliz pelos 3 pontos. — aposta o torcedor em frente à televisão.

E lá vai o jogador, confirmando a tese da torcida.

Para os que tem saudades do futebol da década de 90 e do início dos anos 2000, a internet está cheia de entrevistas antológicas. Como é o caso do vídeo abaixo, de um Renato Gaúcho em Dia dos Namorados.

A monotonia da relação imprensa x atleta é quebrada por materiais especiais, que retiram o jogador do ambiente da entrevista tradicional e tematizam o encontro ao redor de outras questões, que não envolvem a agenda de próxima partida, por exemplo. Nestes casos, aplausos para os profissionais que articulam com as assessorias dos clubes e dos jogadores para estas produções.

Há, porém, um espaço fora do jornalismo dos grandes veículos que traz a possibilidade de outros formatos e temáticas. É o caso do canal do YouTube Desimpedidos, um dos maiores entre os brasileiros na plataforma.

O Falha de Cobertura, da TV Quase, também no YouTube, produz mesas redondas, às vezes localizadas em outras décadas, como é o caso do vídeo a seguir, postado em 2015, mas situado em 1999.

Existe espaço para ser diferente no jornalismo esportivo, existe também quem consiga inovar mesmo dentro dos lugares hegemônicos estabelecidos. Mas reside na internet, em veículos livres da concretude da tradição, a liberdade maior para a criação e publicação.
Há um público para a fórmula que nos é comum consumir, mas a quebra desse engessamento aproxima o esporte e o fã, e aí reside a mágica.

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