Os desafios de aprender a escutar

Conviver com o silêncio absoluto pode parecer mais fácil do que a adaptação aos estímulos sonoros

Desde a ativação do implante coclear, Patrícia Witt trava uma luta para se adaptar aos sons do mundo à sua volta. (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 32 milhões de crianças no mundo inteiro possuem algum tipo de deficiência auditiva. No Brasil, são cerca de 9,7 milhões de pessoas. Cerca de 1 milhão são jovens de até 19 anos. Uma perda auditiva na criança pode acarretar distúrbios na aquisição da fala, linguagem e no desenvolvimento emocional, educacional e social. Já no adulto, pode trazer consequências como isolamento, raiva e depressão, acarretando uma redução substancial na qualidade de vida. Terapeuta ocupacional, Patrícia Rodrigues Witt convive com surdez profunda e bilateral desde o nascimento. Acredita-se que a deficiência é consequência de uma rubéola que sua mãe adquiriu durante a gravidez. Agora, ela está em processo de adaptação após ativar um implante coclear há duas semanas.

O otorrinolaringologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre Celso Dall Igna explica que a surdez pode ser tanto adquirida quanto hereditária. “Infecções contraídas durante a gestação, além de remédios e drogas, podem provocar malformações no sistema auditivo do bebê. Na idade adulta, acidentes de trânsito e de trabalho podem desencadear o quadro”, explica o especialista.

Para quem ouve, imaginar como seria um mundo sem sons pode parecer difícil. Mas, para muitas pessoas surdas, essa é a realidade. Conviver com o silêncio absoluto requer inúmeras adaptações, algo que Patrícia teve que lidar por 32 anos.

“A surdez me ensinou tantas coisas, ensinou a me interiorizar. Com a ausência dos sons, e com estímulos diários que recebia, a minha percepção em relação à vida, às coisas e às pessoas tem aumentado com o tempo”, explica a terapeuta ocupacional.

Agora, Patrícia precisa se acostumar com o barulho à sua volta. Ela utilizava aparelhos AASI (Aparelhos de Amplificação Sonora Individual) e conseguia escutar apenas o som das vogais, sendo o resto silêncio total. Ainda durante a infância, ela foi oralizada (aprendeu a falar) na Língua Portuguesa e tem a Língua Brasileira de Sinais como seu segundo idioma. Foi apenas em 2002 que a LIBRAS foi reconhecida como segunda língua oficial no país.

A escolha profissional de Patrícia pela terapia ocupacional se deu pela dificuldade que ela percebia das famílias ouvintes receberem um bebê surdo. “As famílias não sabiam como lidar e por onde começar. Cada história com suas singularidades, mas todas tinham uma coisa em comum: muito sofrimento, desesperança e, por desgaste emocional, a família acaba não sabendo lidar com o surdo. Eu decidi ajudar essas famílias” , explica.

Assim como Patrícia esperou, muitas pessoas estão na busca constante pelo som. Para passar por um implante coclear, o indivíduo precisa ir até um posto de saúde e ser encaminhado para o Hospital de Clínicas, o único hospital do Rio Grande do Sul que realiza esse tipo de operação. O otorrinolaringologista explica que o tempo médio de espera para ser atendido até a colocação do implante pode levar de seis meses a um ano. Além disso, outros fatores podem influenciar nessa lista de espera. “Os candidatos passam por diversas avaliações, são levados em conta o tempo que o paciente ficou sem ouvir e o tipo de oralização que ele possui ou não”, esclarece Celso Dall Igna.

O implante consiste em uma prótese colocada dentro da cóclea (parte interna do ouvido) por meio de uma cirurgia e outra presa ao redor da orelha, composta pela antena e o processador de fala. O aparelho capta os sons e funciona como um estimulante para o nervo auditivo, permitindo, por meio desta transferência, que o paciente gradativamente comece a ouvir sons. “Não há garantias de que o paciente volte a escutar. O que existe é uma comprovação de que pacientes que já escutaram em algum momento da vida tendem a identificar com maior facilidade os sons que já ouviram. Mas tudo isso depende do acompanhamento especializado e dos estímulos que o indivíduo vai receber”, pondera a fonoaudióloga da Santa Casa Stefanie Benvenutti, que está acompanhando Patrícia nesse processo de recuperação.

A cirurgia é apenas uma etapa de todo o processo de reabilitação auditiva. Engana-se quem pensa que o latejar da cabeça e o aperto decorrente do “turbante”, que se utiliza no pós-operatório, é o momento mais delicado de todo esse processo. Entre 30 e 40 dias após a operação, o paciente retorna e faz a ativação, quando o aparelho é ligado e se ouvem os primeiros sons.

O otorrino alerta que muita informação veiculada na mídia sobre implante coclear é fruto da imaginação. “Aquela história do bebezinho rindo depois de ouvir pela primeira vez, do paciente feliz por estar escutando sem nenhum incômodo, isso é muita propaganda. É um processo muito doloroso e que leva tempo”, esclarece o profissional.

Logo após a cirurgia, Patrícia usou o “turbante” enquanto esperava a ativação do implante coclear. (Foto: Arquivo pessoal)

Com Patrícia não foi diferente. Ela confirma que, desde o dia da ativação, a luta tem sido constante. “Foi emocionalmente muito difícil para mim. Eu já havia esperado e imaginado aquilo que pessoas, amigos e fonoaudiólogas me alertavam, sobre o desconforto sonoro, que é muito comum causar na ativação. Eu pensei que ouviria diversos sons confusos e embaralhados, mas iria ouvir as vozes das pessoas que estariam na sala. Mas foi muito pior, eu só escutava uns apitos ou assobios que oscilavam”, conta.

Infância de aprendizados e vida adulta de conquistas

Desde 2010, o teste da orelhinha é obrigatório e deve ser realizado gratuitamente em hospitais para detectar problemas de audição no bebê. É rápido e indolor, e deve ser realizado após as primeiras 24 horas de vida. Quanto mais cedo forem diagnosticados problemas de audição e mais rápido for a intervenção, melhor será o desenvolvimento da criança.

Patrícia atribui a todos os estímulos que recebeu na infância o seu sucesso da vida adulta. Além de palestrar e atender seus pacientes, também é escritora. Ela já tem um livro publicado e está com planos de escrever o próximo, no qual falará sobre questões emocionais de ser surdo e sobre a sua experiência como implantada.

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