Política e Religião se misturam?

Como a laicidade do Estado, a liberdade de expressão e representatividade são vistas por autoridades no assuntos e políticos brasileiros.

Um Estado democrático deve trabalhar pelo lugar de todos no espaço público, e isto inclui grupos religiosos que desejam ter representatividade na política. A tendência de pessoas atuantes dentro de religiões entrarem para a política começou a crescer a partir do Congresso Constituinte de1986, quando ordens pentecostais se tornaram não somente uma força política, mas também sociocultural. Deste modo, após a bancada evangélica ter se consolidado, foi constituída, em 2003, a Frente Parlamentar Evangélica (FPE). No entanto, esta relação entre religião e política é algo questionado e pauta de muitos debates sobre a laicidade da esfera governamental.

De acordo com a jornalista e doutora em Ciências da Comunicação, da Universidade Metodista de São Paulo, Magali do Nascimento Cunha, a fé católica interfere na dinâmica social, política e cultural do Brasil há muito tempo. “O Acordo Brasil-Vaticano, de 2009, concede isenção tributária a instituições católicas, privilegia a Igreja Católica no ensino religioso nas escolas públicas e garante cooperação para preservar e valorizar seus bens culturais. Hoje o que os evangélicos fazem no parlamento é ampliar este espaço que já é dado pelos poderes da República ao catolicismo”, explica.

Dados obtidos através do portal Mídia, Religião e Política, do PPG em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, revelam que a Assembleia de Deus, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Batista predominam na bancada evangélica com mais da metade dos parlamentares. O presbiterianismo, de segmento protestante ligado ao calvinismo, tem seis representantes e também força política.

Confira no infográfico a composição da bancada evangélica:

Crédito: Portal Mídia, Religião e Política/Reprodução

O pluralismo da sociedade é espelhado também nas posições políticas e ideológicas diferentes presentes dentro das próprias religiões. Relacionar diretamente conservadorismo com grupos de viés religioso pode ser equivocado. “ É no confronto e no debate respeitoso entre as diferenças que se abre espaço a mudanças. Por isso, a presença de grupos religiosos abertos aos avanços na afirmação de minorias e em interação com as mais diversas frentes sociais deve ser valorizada e visada, em especial pelas mídias”, diz a professora Magali.

Já o cientista político e professor dos cursos de Relações Internacionais e Jornalismo da Unisinos, Bruno Lima Rocha, entende que a força política das instituições religiosas ameaça a laicidade do Estado e a separação entre igreja e Estado. “No avanço destes conteúdos de orientação majoritária neopentecostal e pentecostal, terminam criando uma forma de fazer política semelhante ao conservadorismo dos Estados Unidos. Isso eu não julgo benéfico, pois aumenta a tensão entre os sistemas de crenças”, aponta.

O Partido Social Cristão (PSC), por exemplo, leva no nome uma doutrina religiosa. Porém, segundo o secretário geral do PSC de Porto Alegre, Adelmo Antônio de Souza, o partido não está ligado a nenhuma religião ou igreja, sendo integrado por pessoas dos seguimentos evangélicos, católicos, espíritas, entre outros. “A fé cristã não despreza a atividade política, pelo contrário, a valoriza e a tem em alta estima: a igreja sente como seu dever e direito estar presente neste campo da realidade”, afirma.

De acordo com Adelmo Antônio de Souza, para o PSC todos os cristãos devem estar comprometidos na construção de um mundo melhor, baseado no princípio fundamental do cristianismo que é “amar ao próximo como a si mesmo”. O partido tem como objetivo alcançar uma sociedade civil mais justa, valorizando a ética e a moral que integram a busca permanente entre as necessidades individuais e as exigências coletivas. O secretário geral da capital gaúcha destaca que a letra “S” no nome do partido quer dizer social, trazendo a carga de um problema mais amplo que o PSC busca cumprir através dos princípios do cristianismo em toda sua dimensão: “Cremos e entendemos que o próprio Cristo fala de seus ensinamentos na Bíblia Sagrada, e é de lá que tiramos nossas regras e diretrizes, entre elas não desprezar e abandonar os necessitados”.

Importante ressaltar a pouca representatividade de grupos umbandistas, candomblecistas, espíritas e outros, que não possuem o mesmo peso político das igrejas cristãs em nenhuma esfera política. A mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense, Mariana Figueiredo Virgolino, explica que formação de associações civis por membros dessas doutrinas ocorre principalmente por conta de intolerância contra elas. “A representação desses grupos em instâncias oficiais também é muito pequena. Enquanto agrupamentos cristãos sempre estiveram em contato e influenciaram discursos e práticas políticas no país, hoje ocupando lugares no Legislativo, no Executivo e no Judiciário, assim afirmando uma defesa de valores morais cristãos, outros grupos religiosos participam desse debate principalmente para defenderem-se da intolerância religiosa”, aponta.

Deputado Carlos Gomes em sessão na Câmera (Divulgação/Facebook)

O fato de muitos políticos se associarem com crenças religiosas levanta a polêmica de até que ponto os valores da doutrina de um representante estão envolvidos em sua vida política e na tomada de decisões. O deputado federal do Partido Republicano Brasileiro, pastor e servidor público, Antonio Carlos Gomes da Silva, faz parte da Frente Parlamentar Evangélica, mas diz separar religião e política. Na visão dele, a espiritualidade é algo de fórum íntimo.” Os ensinamentos bíblicos influenciam no caráter das pessoas, no desenvolvimento de ações norteadas pelo princípio da família, do bem comum, do amor ao próximo e de valorizar o ser humano. Então, a religião tem influência naqueles que usam esses princípios no seu dia a dia, e isso só tem a agregar positivamente na política. Eu, particularmente, não misturo os dois “, esclarece.

Dois assuntos indiscutivelmente polêmicos, política e religião geram opiniões divergentes quando se cruzam. Fomentar o debate saudável de pontos de vista distintos é essencial, pois todos têm o direto à liberdade de expressão desde que não agridam outros cidadãos. Assim como há políticos que usam a fé para obter poder perante a sociedade, há também aqueles que apenas se identificam com uma causa e lutam por ela. Não é adequado generalizar.

Nesta série de duas reportagens, foram abordadas explicações histórias da relação entre política religião no país, exemplos e opiniões diferentes, buscando sempre considerar a individualidade e o respeito a todas as crenças.

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