
Porto Alegre aposta na diversidade em primeira mostra queer brasileira
Com exibição inédita no Santander Cultural, Queermuseu busca reivindicar o contexto e os movimentos sociais de empoderamento
Queer: termo “guarda-chuva”, proveniente do inglês e usado para designar pessoas que são colocadas à margem da sociedade por não seguirem o padrão da heterossexualidade ou do binarismo de gênero. Usualmente relacionado com pessoas gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros.
Há pouco mais de uma semana está em exposição no Santander Cultural, em Porto Alegre, a mostra Queermuseu — cartografias da diferença na arte brasileira. Com curadoria de Gaudêncio Fidelis, a exposição tem como tema a variedade somada à pluralidade e à diferença.
Com objetivo de questionar os parâmetros restritivos do aparato museológico, a exposição adota o nome queer — estranho, esquisito, excêntrico — para justamente se pensar além das atuais manifestações artísticas e também fazer uma provocação às políticas de identidade que veem de forma negativa as práticas e expressões de gênero.





Fotografias, pinturas, colagens e esculturas. A mostra inédita conta com cerca de 270 obras de 85 artistas brasileiros — oriundas de coleções tanto públicas como privadas — que percorrem desde os meados do século XX até hoje. Além das peças que abordam a temática queer, a curadoria inclui obras e objetos que também trazem à tona a crítica a outras questões sociais. De acordo com a mediadora da ação educativa do Santander Cultural, Jade Lopes, a exposição também retrata questões raciais, de transcendência social, empoderamento e sobre a história da arte, o que pode, ou não, ser considerado uma obra legitimada que entra para o expositivo.
Ainda que com poucos dias de visitação (a mostra foi aberta ao público no dia 16), Jade aponta que, de forma geral, o museu queer tem sido bem visto. “A aceitação tem sido bem tranquila, mesmo que algumas obras sejam mais explícitas, de representação do corpo humano. Algumas obras de referência religiosa ainda deram certa polêmica, mas foram mais nos primeiros dias”, conta.







Pensar as diferenças
Para professora e doutora Jane Felipe, integrante do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o tema da diversidade, envolvendo os scripts de gênero e a sexualidade fazem parte do nosso cotidiano e, como tal, podem e devem ser discutidos em quaisquer âmbitos, inclusive no campo da arte. “Historicamente temos percebido o quanto as chamadas minorias e os diferentes têm sido retratados como anormais, seres bizarros e abjetos, que não merecem nosso olhar e a nossa consideração”, explica. “Basta lembrar que a palavra queer, em sua origem, significa esquisito, estranho, e era usada como xingamento direcionado a gays”, enfatiza Jane. No entanto, ela afirma que as reiteradas tentativas de humilhar e desprezar os sujeitos e determinados grupos em função de suas diferenças se transformou em um importante movimento político pós-identitário, de reafirmação e valorização dessas identidades que viviam à margem.
“O Queermuseu oferece a oportunidade de pensarmos as diferenças não como desigualdades, mas como potência, além de desestabilizar nossas vãs e frágeis certezas”, complementa a professora.


A escolha do tema e as obras expostas também impressionaram alguns olhos que por lá já passaram. “Eu pensei que o foco seria sobre gênero, mas é mais diverso e amplo. É sobre o diferente”, revelou o fisioterapeuta Cristiano da Costa Flôres, de 29 anos. Durante a visitação ele conta que percebeu a necessidade de analisarmos profundamente que existem normas sociais, de beleza, de sucesso, de felicidade, assim como de gênero e sexualidade. “Percebi a exposição me conduzindo a este questionamento, me levando a perceber como a minha mente funciona diante do que para mim possa ser estranho, no sentido de diferente”, relata.

Uma das obras que mais chamaram atenção de Flôres é um dedo suspenso que fica apontado para o observador. “Ela me fez pensar que sempre tem um dedo apontado pra mim, seja o dedo da moral, da religião cristã, do Estado conservador. Mas aí comecei a pensar que o dedo apontado não muda quem eu sou, ele não fala sobre mim, mas sobre as limitações daquele que aponta. Soou como um ‘tudo bem, vamos seguir mesmo com esses dedos apontados’”, observa .
Para o advogado Fernando Ungaretti, 37, as hóstias com palavras escritas com corante vermelho foram o que mais surpreendeu. “A ideia é bem simples, mas é arte e bastante simbólica da temática. O artista foi bem perspicaz”, aponta. Ele também protestou que algumas obras carecem de maiores informações sobre a relação com cultura LGBTQ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e queer).
Debate necessário
Mesmo que de forma tardia, o Brasil finalmente recebe sua primeira mostra queer, que também é a única com tal abordagem do contexto na América Latina, segundo os organizadores. Ainda assim, o fisioterapeuta Cristiano Flôres afirma que todo debate é válido, mas, infelizmente, o museu só alcança quem gosta de museu e tem sensibilidade para apreciá-lo. “Acho que algumas pessoas que necessitam muito refletir sobre essas questões não se sentiriam atraídas para esta exposição. O alcance desta fala é limitado, mas válido. Mudar a cultura é trabalho de formiguinha”, pondera.
Na opinião da professora Jane, isso se deve ao fato de a população não ter o hábito de frequentar museus e exposições. Ela ainda lamenta o fato da população como um todo não ter o hábito de frequentar museus e exposições. “Considerando que a arte é para fazer pensar, é desejável que as políticas públicas, ao invés de fecharem museus ou diminuírem as verbas no campo da educação e da cultura, promovam visitações e incentivem as pessoas a frequentar esses espaços de arte tão importantes da cidade”, complementa.
Mesmo que com dificuldades, é unânime a constatação de que todo espaço que debata sobre gênero e diversidade seja bem-vindo enquanto pessoas forem reprimidas por isso. “No museu, é arte fazendo o papel a que se destina: pensar. Mas vale lembrar que, além do museu, faz-se necessário abordar estes temas na família, na escola, nos setores do Estado. É um debate necessário”, reconhece Flôres . “Que mais ideias se pluralizem no Brasil, principalmente nas cidades do interior, onde a temática ainda é distante e eivada de preconceito e discriminação pela sociedade”, complementa Ungaretti.

Serviço
O quê: Exposição Queermuseu — cartografias da diferença na arte brasileira
Onde: Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1.028, no Centro Histórico, em Porto Alegre)
Programação: Segue até o dia 8 de outubro
Ingresso: Entrada franca
Horários: De terça-feira a sábado, das 10h às 19h, e aos domingos, das 13h às 19h. Não abre aos feriados.
Queer Cinema
Paralelamente ao museu, o Santander Cultural apresenta uma programação exclusiva no cinema para acompanhar o tema da exposição.
Queer Cinema engloba filmes que abordam o tema LGBTQ e que buscam desmistificar o padrão proveniente da sociedade heteronormativa. Para a mostra, foram selecionados 22 longas-metragens e uma série de TV. A programação será exibida até o dia 31 de agosto.
Os ingressos são vendidos a preço único, R$ 4, na bilheteria do local. A programação completa pode ser consultada no site da instituição.
