Posso entrar na sua vida?

Entenda os desafios de crianças e adolescentes que vivem em abrigos

Muita gente tem vontade de possibilitar uma mudança na realidade das crianças e adolescentes à espera de adoção. Mas esse desejo é ainda mais forte quando se trata dos próprios jovens — alguns deles já sem esperança. O desafio para uma nova vida é imenso. Por outro lado, existem inúmeras almas que lutam juntas por essa mesma causa e não se cansam nunca. Assim, cada sonho alcançado multiplica o sonho de outras crianças e abre portas, novamente, para a esperança.

Rejane Comin em conversa com Taiane durante gravação de vídeo. (Foto: Arquivo pessoal)

São nítidas a demora e a burocracia que envolvem um processo de adoção no Brasil. Segundo dados do Senado Federal, das 44 mil crianças e adolescentes acolhidos em abrigos em todo o país, 5.500 estão em condições de ser adotados e têm o nome e dados pessoais inseridos no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Esse cadastro tem como objetivo arquivar e reunir todas as informações recebidas pelos Tribunais de Justiça do país. Dessa forma, o mapeamento de perfis de adotantes e crianças em espera de adoção tende a ser mais rápido.

Um mapeamento baseado em dados da Carteira Nacional de Adoção, em 2013, revela que para cada criança à espera de uma nova família existem seis famílias autorizadas pela Justiça para adotar.

(Arte: Senado Federal, reprodução)

De acordo com a análise, os pretendentes dos mais de 29 mil candidatos do Cadastro Nacional de Adoção apresentaram um perfil socioeconômico bastante definido. São pessoas casadas, entre 30 e 50 anos, com renda de classe média, moradores das regiões mais ricas do país e, cada vez mais, indiferentes à cor ou ao sexo da criança, desde que ela não tenha mais do que quatro anos. Os dados do CNA avaliados foram os de 13 de março deste ano, fornecidos pela Corregedoria ­Nacional de Justiça.

O juiz de direito responsável pela 2ª Vara da Criança e do Adolescente de Farroupilha (RS), Mario Romano Maggioni, entende que as crianças em condições de vulnerabilidade social amparadas em abrigos não são apenas papéis. “Consegui encaminhar em torno de 200 adoções até hoje”, relata Maggioni. A cidade é uma das que mais finalizam processos de adoção no Rio Grande do Sul. Em 2015, o Fórum local bateu seu recorde, com 31 processos concluídos. Em 2016, o número se manteve alto, somando 25. Este ano, 20 crianças já tiveram a oportunidade de viver em um lar cercado de amor e carinho, que atenda às necessidades delas. O juiz comemora: “Se continuar assim, vamos concluir novamente um ano cheio de adoções para essas crianças”.

Porém, nem tudo é alegria. Por mais que Maggioni dê agilidade aos processos em parceria com a promotora de Justiça Claudia Formulo, a cidade ainda conta com 27 crianças à espera de uma nova família, sendo seis aptas para adoção. A Casa Lar Padre Oscar Bertholdo, fundada em 2001, visa prestar serviço de acolhimento em caráter gratuito e continuado a crianças e adolescentes de zero a 18 anos sob medida proteção em Farroupilha. A coordenadora da Casa, Cristiane Rotili, afirma que os principais desafios são “fazer com que a criança permaneça o menor tempo possível na instituição e que ela saia diferente do jeito que entrou”. Ela explica ainda que a missão é ensinar o máximo possível para as crianças e adolescentes; desde coisas simples, como higiene, até a forma como eles veem o mundo lá fora. A equipe é composta por 22 funcionários.

Adoção tardia: uma verdadeira ampulheta

Outro fator importante que faz com que crianças e adolescentes sonhem com uma família sem saber se isso se tornará realidade é a discrepância com a adoção tardia. Conforme Maggioni, “Farroupilha entende que não é possível esperar muito tempo até que os pais biológicos decidam qual o melhor rumo para a criança. Cada dia longe do cadastro é uma chance perdida”.

O país está percebendo a importância do assunto e diversas instituições, organizações e lares de acolhimento estão se mobilizando para que isso não seja um problema, pelo contrário: seja a solução para a desigualdade. Um exemplo disso é a campanha criada pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo, cujo intuito é gerar conteúdo de vídeo das crianças e adolescentes que estão em espera e lançar nas redes sociais para aumentar a chance de adoção tardia. Já em Farroupilha, o maior apoiador de adoção é o Grupo DNA da Alma.

Todo apoio é bem-vindo

Tendo em vista que esse cenário não é atual, o grupo DNA da Alma foi criado em 2012 em Farroupilha para apoiar os pais que tinham dúvidas sobre a adoção tardia. O objetivo era gerar maiores resultados no ato final. O grupo é um dos aproximadamente 150 existentes no Brasil e conta com 16 membros na diretoria, além de alguns apoiadores que não possuem uma função específica, mas estão sempre prontos para ajudar.

Rejane Comin é psicóloga da Casa Lar Padre Oscar Bertholdo e uma das fundadoras do projeto, junto à assistente social Vanusa Tavares de Oliveira. Rejane conta que a ideia surgiu quando ela e Vanusa iniciaram as atividades profissionais no abrigo, ainda em 2011, e se depararam com uma realidade muito cruel: “Uma instituição com muitas crianças já destituídas do poder familiar, ou seja, que não poderiam retornar às suas famílias biológicas, numa faixa etária maior que a de preferência dos adotantes e que chegavam a permanecer (em média) até sete anos acolhidas, privadas do direito de conviver em família”, explica.

Analisando essa realidade, sentiram-se convocadas a fazer algo diferente por aquelas crianças e adolescentes, o que reflete também nas crianças acolhidas de hoje. Elas questionavam a si mesmas se deveriam aguardar pela maioridade daqueles jovens para desligá-los da instituição, uma vez que o compromisso do Estado é protegê-los até os 18 anos. Inquietas, entenderam que esse foi o principal motivo que ensejou o surgimento do grupo: “A grande dificuldade que tínhamos em encaminhar essas crianças maiores para adoção e garantir seu direito à convivência familiar”, aponta a psicóloga.

Grupo DNA da Alma foi criado em 2012, em Farroupilha. (Foto: Arquivo pessoal)

Com a ação do grupo DNA, o contexto vem mudando na cidade. Geralmente, a transformação se dá a partir do momento em que os pais começam a interagir com o grupo, que tem a finalidade de desmistificar alguns equívocos referentes ao tema e preparar melhor as pessoas que estão no aguardo de seus filhos, a fim de garantir o sucesso das adoções. Como finalidade, o objetivo também é apagar mitos sobre adoção de crianças com mais de sete anos (idade limite para muitos perfis de adotantes cadastrados no CNA). Na falta de informações, algumas pessoas aptas a adotar têm medo de que o passado da criança possa refletir no futuro, trazendo conflito à família. Rejane explica que a atuação do grupo implica diretamente na diminuição das devoluções — uma prática bastante comum na época.

“Crianças até cinco anos, brancas e meninas são de fácil colocação. Crianças maiores, negras, grupos de irmãos ou que apresentam doenças ou são portadoras de alguma necessidade especial normalmente não possuem pretendentes interessados no CNA”, explica Rejane.

A constatação confirma que é aí que a busca por famílias se faz necessária e o trabalho do DNA da Alma é fundamental. Eles trabalham para que “os pretendentes se sensibilizem, mudem seu perfil, abram seus corações e aceitem como filhas essas crianças que não são desejadas pela maioria que ocupa o CNA”.

Hoje, cinco anos depois, não se pode afirmar a quantidade de adoções que foram mediadas pelo grupo. “O número de adoções com que colaboramos foge a qualquer possibilidade de contabilizar, tendo em vista que essas adoções transcorrem nos municípios em que a criança está acolhida. Mas posso afirmar que foram muitas”, conta a psicóloga.

Na Serra Gaúcha, além do Grupo de Apoio DNA da Alma, de Farroupilha, existe o Instituto Filhos, em Caxias do Sul, que atua no mesmo processo desde 2007. Porém, o foco é atender e acolher pais e filhos adotivos para transformar o ambiente familiar em um lar de consolidação e desenvolvimento para o jovem. Conforme o instituto, “os cursos e palestras oferecidos são reconhecidos pelo Juizado da Infância e Juventude de Caxias do Sul como fundamentais para a capacitação dos pais pretendentes à adoção, devido à diversidade de assuntos tratados”.

E você, já pensou em adotar?

Com certeza o seu papel é mais fácil do que o das crianças que esperam por um lar. Em primeiro momento, basta acessar www.cnj.jus.br/cna e consultar em tempo real, conforme atualização online de cada comarca, a quantidade de crianças e adolescentes aptos para adoção em cada estado. Depois disso, o interessado, maior de 18 anos e sem antecedentes criminais, preenche um pedido de habilitação no Fórum mais próximo e entra para uma lista de habilitação. Os próximos passos você pode conferir diretamente com a central de atendimento do local.

E, como diz o juiz Mário Maggioni em uma de suas crônicas: “Adotar um filho é assumir as mesmas responsabilidades, doçuras e agruras, de quem gera o próprio filho. O filho, venha de onde vier, é uma pessoa que tem direitos individuais surpreendentes. Parece simples. Então, que se fale a verdade ainda antes das penugens — se é que haverá penas”.

Confira o vídeo produzido pela Casa Lar Padre Oscar Bertholdo, em parceria com o grupo DNA da Alma, sobre a busca por um lar para Taiane, que resultou num final feliz!

Quer ajudar? O grupo DNA da Alma precisa de uma sede. Acesse www.facebook.com/DNAdaAlma/ e conheça mais sobre o projeto. Sua ajuda pode gerar muitos sorrisos por aí! ;)

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